Colunista InfoMoney: Xeque-mate

Déficit em conta corrente dos EUA melhora, mas trajetória do dólar dependerá de crescimento da economia; liberação do câmbio chinês é fundamental
Uma das perguntas mais intrigantes dos mercados atualmente diz respeito à trajetória do dólar ao longo de 2010. Para os operadores, comprar e vender moedas é, por definição, uma operação relativa, ou seja, você deve comparar a situação macroeconômica de dois países para tentar inferir a trajetória dos ativos.

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Mas, o dólar, como todos sabem, é a moeda reserva de valor. É a moeda utilizada em quase todas as transações comerciais e financeiras entre dois países, independente se um deles são os Estados Unidos. Isso dificulta sobremaneira a análise da trajetória da moeda. Se eu quiser saber se Dólar Australiano se valorizará mais do que o Real ao longo dos próximos meses, é preciso elencar os determinantes da dinâmica da economia Brasileira e Australiana, chegando à conclusão de qual das moedas terá uma melhor performance.

Mas, é claro que, analisar a economia americana nos dá uma vantagem substancial para projetarmos o destino do dólar. Quais são os principais fatores que afetam a trajetória da moeda? O déficit em conta corrente, certamente, é um bom primeiro passo.

Ao longo desse último ciclo de crescimento (2002-2007), o dólar teve um comportamento quase monotônico de depreciação. Ao mesmo tempo, os EUA acumulavam um déficit em conta corrente crescente, com grande déficit na balança comercial, principalmente, com a China. A China, por sua vez, mantinha uma taxa de câmbio fixa, o que onerava a relação das outras moedas com o dólar. Se os EUA não conseguiam equilibrar a balança comercial com a China, por conta de uma moeda não-flexível, os outros países “pagariam a conta”. Isso levou o dólar a uma desvalorização significativa desde 2003. Pelo índice DXY, que pondera pelo peso dos parceiros comerciais americanos, a desvalorização de 2003 a 2007 foi de 38%.

Com a crise, o dólar voltou a ganhar algum valor, em torno de 17% em 9 meses. Como disse no início do texto, o dólar ainda é a reserva de valor, e em momentos de desespero, os investidores ainda correm atrás do porto seguro. Do momento que o mercado financeiro começou a acalmar (março de 2009), o dólar voltou a perder valor (em torno de 9% em 2 trimestres). E em 2010? Qual será a trajetória do dólar americano no “ano da recuperação”?

“Por mais paradoxal que seja, força dos EUA pode fazer dólar retomar trajetória de fraqueza”

Como se pode ver no gráfico, o déficit em conta corrente americano está melhorando e parece ter adquirido outra trajetória. Isso perdurará ao longo do próximo ano? Assim como os cenários possíveis para o ano que vem são infinitos, as mesmas conclusões podem ser tiradas para o dólar.

No cenário de nova depressão econômica, derivada de nova crise financeira, o dólar deve voltar a ganhar valor, seguindo o mesmo panorama dos períodos da crise, como reserva de valor. No cenário de recuperação econômica, superior a do resto do mundo (como acreditamos ser o mais provável) e novas altas do preço do petróleo, é possível que a trajetória da conta corrente retome o vetor da deterioração, o que poderia levar o dólar a perder valor. Fora o cenário da depressão, acreditamos que o dólar possa voltar a ganhar valor em um cenário de maior liberalização do Yuan (moeda chinesa). Desta forma, o comércio entre os dois países poderia ser um pouco mais equilibrado, e as outras moedas seriam menos oneradas. Assim, o dólar poderia se valorizar frente ao Euro e o Yen.

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Portanto, por mais paradoxal que seja, a força da economia americana, relativamente aos seus parceiros comerciais com câmbio livre, pode fazer sua moeda retomar uma trajetória de fraqueza. A China é variável relevante neste xadrez. E a liberalização de sua moeda pode ser o primeiro passo pro xeque-mate.

Ivo Chermont é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney.
ivo.chermont@infomoney.com.br