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SÃO PAULO – Após sessões de pouca oscilação, o dólar dispara quase 2% nesta quinta-feira (23), chegando a superar o patamar de R$ 3,13, com os investidores cautelosos após o governo aprovar com margem estreita a terceirização, levantando dúvidas sobre o avanço de outras reformas no Congresso Nacional, sobretudo a da Previdência.
A expectativa pelo contingenciamento do orçamento deste ano também influenciava o mercado cambial, com os investidores reagindo à clara sinalização de que o governo do presidente Michel Temer elevará impostos em breve. Às 13h17 (horário de Brasília), o dólar avançava 1,20%, a R$ 3,1327 reais, depois de ter batido a máxima do dia de R$ 3,1374. O dólar futuro tinha alta de 1,49%, cotado a R$ 3,141.
“No final, o cenário doméstico pesou no dólar… Até então, a moeda (norte-americana) estava conseguindo se manter no intervalo entre R$ 3,05 e R$ 3,10”, afirmou o diretor de câmbio do Banco Paulista, Tarcísio Rodrigues, acrescentando, no entanto, que ainda é cedo para afirmar que o dólar mudou para um patamar mais elevado porque é preciso ter mais clareza sobre os desdobramentos das questões domésticas.
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Na véspera, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto que regulamenta a terceirização e altera as regras para contratos temporários de trabalho por 231 votos a 188. Para passar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que altera a Previdência, no entanto, o governo precisa reunir ao menos 308 votos na Casa. A reforma da Previdência é considerada pela grande maioria dos agentes econômicos como fundamental para o país colocar as contas públicas em ordem.
“O mercado reage com desconforto após Meirelles anunciar que precisará cobrir rombo aproximado de R$ 60 bilhões e com o placar da votação da Lei da Terceirização, que ficou abaixo de 308 votos, número mínimo para aprovar a reforma da Previdência”, explica o diretor da Wagner Investimentos, José Faria Júnior. Segundo ele, a moeda deve seguir no patamar entre R$ 3,05 e R$ 3,17.
O sinal claro, também dado na véspera, de que o governo vai aumentar impostos para melhorar as receitas e tentar cumprir a meta fiscal deste ano, de déficit primário de R$ 139 bilhões, também não agradava ao mercado nesta sessão.
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“O governo terá que aumentar impostos e, se isso já não fosse negativo, volta e meia fala-se em subir imposto sobre o câmbio”, comentou o operador-sênior de uma corretora nacional, referindo-se à possibilidade de elevação da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) das operações cambiais.
Os investidores continuavam reagindo também às consequências para a balança comercial após a operação Carne Fraca, com países restringindo a importação da carne brasileira. Nesta quinta-feira foi a vez de o Egito. Na véspera, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, disse que a média do embarque diário de carne do Brasil era de US$ 63 milhões e que havia despencado para US$ 74 mil.
O mercado também trabalhava com um olho no exterior, com a expectativa da votação de projeto de lei sobre o setor de saúde nos Estados Unidos, um teste para o presidente Donald Trump.
Neste sentido, Faria destaca ainda que vê uma redução das correlações. “Desde a vitória de Trump, as correlações perderam força e seguem mais inconsistentes. Por exemplo, é incomum dólar e commodities subirem e caírem simultaneamente”, explica o diretor da Wagner. “Assim, a derrota hoje do Trumpcare deverá pesar no mercado”.
O Banco Central brasileiro vendeu integralmente nesta sessão o lote de até 10 mil swaps tradicionais – equivalente à venda futura de dólares – ofertados para rolagem dos contratos de abril. Já foram seis leilões iguais, que reduziram a US$ 6,711 bilhões o estoque que vence no mês que vem.
(Com Reuters)