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(Bloomberg) — No momento em que o último tijolo for colocado no muro mexicano do presidente Donald Trump, é bem provável que alguém com uma postura mais antagônica em relação aos EUA esteja no poder ao sul da fronteira.
Especialmente se esse alguém for Andrés Manuel López Obrador. E isso, graças a Trump, parece cada vez mais provável.
O político conhecido localmente como Amlo é o favorito inicial para a disputa presidencial de 2018 do México. Talvez isso não tenha muita importância em si: as pesquisas não são confiáveis, ainda falta muito para a votação e López Obrador já perdeu a eleição duas vezes no país, que ficou à margem da onda populista da América Latina e alinhou ainda mais sua economia à dos EUA.
Mas boa sorte para explicar isso para os mexicanos neste momento. O impulso no lado de Amlo é palpável. Em meio a um espasmo de ira nacional, o eleitorado simpatiza cada vez mais com as reclamações de um radical de fora que promete acabar com a relação de “subordinação” aos EUA e reconstruir a economia interna. Em outras palavras, Trump — com suas promessas impetuosas de reescrever o Nafta e de fazer com que o México pague a conta da construção do muro — criou o clima perfeito para que o país ao sul da fronteira se volte contra ele.
“O vencedor do ataque de hoje dos EUA contra o México: Andrés Manuel López Obrador”, tuitou na semana passada o presidente do Eurasia Group, Ian Bremmer. “Espero que Trump esteja querendo trabalhar com ele.”
‘Puxa-saco’
Mesmo que não se chegue a esse ponto, a relação está ficando tensa, e os partidos tradicionais mexicanos estão se inclinando na direção de Amlo. O presidente Enrique Peña Nieto, que não pode concorrer à reeleição, cancelou uma visita a Trump marcada para esta semana. E passou a salientar a importância de fortalecer a economia local e de elevar os salários — embora mantê-los baixos, para que o México seja atraente para as corporações americanas, tenha sido efetivamente uma política de governo há décadas. O sentimento popular está ficando tão forte que os políticos mexicanos praticamente não têm outra opção além de aderir. Campanhas na internet pedem que os mexicanos tirem férias em destinos nacionais “Adiós, Disneylandia… Hola, México”). Governos e ativistas locais demandam boicotes aos produtos dos EUA. Muitos mexicanos estenderam a bandeira do país nas redes sociais. Mas tudo isso não soa tão convincente quando vem de líderes que fizeram carreira a partir de vínculos íntimos com os EUA. A taxa de aprovação de Peña Nieto é de 12 por cento. José Hernández Solís, um vendedor ambulante de 56 anos que compareceu a um comício de Amlo na Cidade do México, na segunda-feira, sem dúvida não estava convencido. “O presidente é um puxa-saco”, disse Solís. “López Obrador tem coragem para enfrentar Trump e dizer as coisas como elas são”. Esse discurso direto, é claro, é exatamente o motivo que levou muitos eleitores dos EUA a apoiar Trump.