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SÃO PAULO – Apesar de não figurarem entre os destaques do noticiário com o mesmo peso de antes, as especulações acerca de alternativas ao dólar como reserva de valor continuam polarizando a comunidade econômica. O enfraquecimento da moeda norte-americana, a persistência de projeções pessimistas para o déficit fiscal do país e a diversificação das reservas de importantes bancos centrais agem como combustível para os rumores.
Os economistas batem-se em discussões sobre as consequências da desvalorização da divisa, principalmente frente à libra, ao euro e ao iene. Entre aqueles que julgam a situação positiva, o principal argumento é de que a depreciação pode ajudar na recuperação econômica. Já os que se mostram preocupados com o cenário, perguntam-se até que ponto a moeda irá enfraquecer.
Em meio a essas questões, a procura por alternativas à moeda norte-americana como reserva internacional ganha adeptos, assim como as análises sobre o modelo monetário atual e os já falidos, como o sistema de Breton Woods, que entrou em colapso em 1971, após a saída dos Estados Unidos.
Rumores exagerados
Em coluna publicada no Financial Times, Martin Wolf defende que os rumores de morte do dólar são exagerados. Segundo ele, o enfraquecimento da moeda é um sintoma de sucesso e não fracasso. Como mostra a história recente, os investidores correram para o porto seguro do dólar quando a crise financeira internacional começou, levando a uma valorização de 20% na divisa entre julho de 2008 e março deste ano. Agora, com o cenário melhorado, o dólar devolve a maioria dos ganhos.
Outro ponto apresentado por Wolf é a utilidade do enfraquecimento da moeda norte-americana, já que reduz o risco de deflação nos Estados Unidos e facilita a correção de desequilíbrios globais. “Mesmo os céticos em relação a isso concordam que os Estados Unidos precisam de um crescimento liderado pelas exportações”, afirma.
Por fim, seus argumentos invalidam as alternativas de substituição da moeda. Para ele, a menos que a China remova os controles de câmbio e desenvolva mercados financeiros profundos e líquidos, o euro é a única opção séria. Contudo, cerca de 65% das reservas internacionais atualmente são em dólares, enquanto 25% são em euro – o que indica que a alteração deve ser lenta. “A Zona do Euro também tem altos déficits fiscais e dívidas. O dólar existirá daqui a 30 anos; o destino do euro é mais incerto”, ressalta.
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Quão baixo é baixo o bastante?
Olhando pela lógica de que a queda do dólar é sintoma de sucesso, o professor da Insead Antonio Fatás contra-argumenta alguns pontos levantados por Wolf. Primeiro, ele afirma que não basta dizer que o dólar precisa desvalorizar-se: é necessário ter uma âncora de médio e longo prazo – é necessário ter uma noção de quão baixo ele deverá ficar.
Além disso, Fatás frisa que a lógica de que a depreciação das moedas é necessária para suavizar as recessões aplica-se a países que sofrem choques assimétricos. “Hoje nós enfrentamos uma recessão global, então, de acordo com essa teoria, a maioria das economias desenvolvidas precisa de depreciação de suas moedas. Nós podemos argumentar que todas essas divisas precisam enfraquecer em relação aos países que estão bem (China e outros mercados emergentes) mas nós não podemos simplesmente argumentar que o dólar tem que depreciar-se”.
Na verdade, essa visão coloca os Estados Unidos como alvo de suas próprias críticas em relação à manipulação do valor do câmbio pela China para controlar os resultados econômicos, em meados deste ano. Dessa forma, Fatás encerra afirmando que devem ser levadas em consideração também as perspectivas de outros países. “Um dólar fraco pode ajudar os Estados Unidos a aumentarem as exportações, o que vai na direção da redução do déficit de conta corrente, mas por que outros países veriam isso como um ‘retorno ao equilíbrio’?”, questiona.
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Projeções negativas
No final, mesmo aqueles que defendem o dólar mais fraco entendem que “um sistema monetário global baseado na moeda de um único país é problemático, para ambos, emissor e usuários”, como afirma Martin Wolf. Se isso não bastasse, as perspectivas de déficit crescente assustam os bancos centrais e fomentam a busca por alternativas ao sistema atual. Ou, como descreve a economista Judy Shelton, “gastos sem precedentes, déficits fiscais intermináveis, acumulações de dívida pública exorbitantes: estas são as tendências que definem o futuro financeiro da América”.
Em artigo publicado no Wall Street Journal, Judy afirma que o excesso de gasto do governo leva à inflação e a inflação faz os poupadores em dólares de bobos, tanto nos Estados Unidos quanto internacionalmente. E essa realidade não parece ser de curto prazo, já que o programa orçamentário do governo norte-americano para os próximos 10 anos antecipa um déficit permanente e níveis mais altos de dívida federal subjacente.
De acordo com os números previstos pela administração de Obama, ao final de 2019, a dívida federal atingirá US$ 23,3 trilhões – atualmente, esse número é de US$ 11,9 trilhões. “Para colocar em perspectiva: a dívida federal dos Estados Unidos era 61,4% no PIB (Produto Interno Bruto) em 1999; cresceu para 70,2% do PIB em 2008 (na administração Bush); deve crescer para estimados 90,4% neste ano e alcançar a marca dos 100% em 2011, continuando a igualar-se ou exceder toda a produção econômica anual da nação até 2019”, destaca a economista.
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Isso significa que os Estados Unidos irão figurar entre Zimbábue, Japão, Líbano, Cingapura, Jamaica e Itália, como os países com a maior proporção de dívida em relação ao PIB. “Se você fosse um governo estrangeiro, você iria querer aumentar suas posses de Treasuries sabendo que o governo norte-americano não tem planos de balancear seu orçamento durante a próxima década, sem mencionar alcançar um superávit?”.