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SÃO PAULO – Os fundos de mercados emergentes têm tido um excelente desempenho em 2009 – os fundos de ações da América Latina, por exemplo, tiveram em outubro sua melhor semana desde maio deste ano em termos de fluxo de investimentos. Mas esse movimento é sustentável, caso o cenário macroeconômico continue a dar sinais de melhora?
Cameron Brandt, analista sênior da consultoria EPFR global, que monitora o mercado mundial de fundos, aponta as principais tendências da indústria global de fundos, e destaca que o Brasil tem uma das indústrias de fundo com crescimento mais acelerado no mundo.
InfoMoney – Você esteve recentemente na América Latina – quais foram as suas as impressões da viagem?
Cameron Brandt – Acho que tínhamos subestimado o quão distorcido o setor financeiro argentino se tornou, com medidas como restrições em fluxos de portfólio, e uma gama de restrições sobre o que os investidores domésticos podem fazer. A nacionalização dos fundos de pensão, mesmo benéfica para os problemas fiscais do país, foi um grande baque para a indústria de gestão de ativos, e os gestores que eu conheci ainda estão em estado de choque – e agora tem que descobrir como convencer os investidores de varejo a contribuírem fora de seus fundos de pensão, e para a indústria de fundos do setor privado.
Você observou alguma tendência ou característica da indústria brasileira de fundos?
É bastante claro que a indústria de fundos brasileira é uma das indústrias de fundo com crescimento mais acelerado no mundo, com ativos que continuam avançando impulsionados pela crescente renda da classe média brasileira – que também está em expansão. A decisão do governo em permitir que os fundos de pensão invistam além do mercado de títulos de dívida, dada a queda da taxa de juro, deve ajudar a melhorar o equilibro entre ações, renda fixa e investimentos alternativos na indústria de fundos do País.
E as tendências para a América Latina?
Fundos de pensão domésticos já são um fator importante nos mercados de ações latino americanos. No início de 2008, o sistema de pensão do Chile tinha mais de US$ 100 bilhões em ativos sob gestão. Já o México, cujo sistema de fundos de pensão é conhecido como Afores, tinha US$ 60 bilhões. As estimativas atuais para os ativos gerenciados pelos planos privados de pensão no Brasil, por sua vez, estão entre US$ 150 e US$ 200 bilhões – ou seja, já estão na liderança dessa mudança de tendência. Obviamente, a história é diferente na Argentina, Venezuela e Equador.
E quanto ao mercado global de fundos – quais as tendências no momento?
Consolidação, maiores ganhos para veículos de investimentos passivos como fundos de índices (Exchange Traded Funds, em inglês), e um avanço das indústrias de investimento doméstico nos mercados emergentes. Existem estimados US$ 60 bilhões (pelo menos) em fundos coreanos espalhados em 15 milhões de contas, grande parte em depósitos de longo prazo colocados ali através de programas regulares de poupança. A Nomura Capital estima que o mercado doméstico de fundos na Índia opere mais de US$ 70 bilhões em ativos.
Quais são as principais diferenças entra a indústria de fundos agora e há um ano?
Uma das principais diferenças que vemos é o crescente papel dos ETFs, especialmente quando os investidores não sabem para onde ir e começam a pensar de maneira tática, e não estratégica. Além disso, as linhas que separaram os hedge funds de fundos convencionais parecem estar se misturando.
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Como o recente rali dos mercados de renda variável afetou a indústria de fundos?
| “As questões para os gestores de fundos agora são: para onde vai a inflação e o que acontecerá quando os governos começarem a realinhar suas finanças” |
Inicialmente, o rali criou condições para que os padrões de fluxo dos fundos vistos antes da crise se restabelecessem, com os investidores saindo de fundos que investem em mercados desenvolvidos – e que tem um crescimento mais lento – e entrando em fundos que aplicam em mercados emergentes – com um crescimento mais rápido. Mas com a tolerância a riscos repensada depois de eventos recentes, o rali se adiantou à zona de conforto dos investidores, e eles estão procurando realizar lucros e segurá-los através de fundos de renda fixa ou compra de títulos de dívida.
Como você vê o desempenho dos fundos de mercados emergentes em 2009? Quais as perspectivas destes fundos em longo prazo?
O cenário é bom para 2009, apesar de que sinais de que a economia norte-americana passará por uma recuperação em W – se eles melhorarem – podem roubar um pouco do brilho dos números do ano. Em longo prazo, por outro lado, será mais difícil justificar valorizações maiores dos mercados emergentes sem reformas estruturais que esses mercados parecem tão resistentes em fazer, especialmente desde que a crise ofereceu uma desculpa pronta para adiar ou reverter reformas do mercado livre. Então, será mais difícil para os fundos obterem um desempenho bom ou excelente.
Como você avalia a performance dos fundos relacionados ao câmbio em 2009, e quais as perspectivas para os próximos meses?
No momento, a forma e o âmbito da recuperação são provavelmente os maiores drivers para a performance dos fundos. Mas questões ligadas ao câmbio terão um papel cada vez mais importante, conforme os ativos tradicionais se tornam valorizados ao seu máximo, e os gestores de fundos norte-americanos retornam a sua estratégia de diversificação de dólar, vigente antes da crise.
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Existe alguma região ou setor que se destaque em 2009?
Em termos de fluxo, os fundos de commodities – e países ligados a commodities – são os grandes vencedores. O Brasil claramente está entre esses países, assim como o Peru e, em um grau menor, a Argentina.
Os fundos de ações da China tiveram um segundo trimestre muito forte, mas perderam um pouco de seu embalo recentemente, com os investidores esperando para ver se o dinheiro emprestado tão agressivamente no primeiro semestre teve fins produtivos.
Você acredita que a aparente recuperação irá se consolidar? Em caso positivo, quais são os próximos passos para a indústria de fundos?
| “Em termos de fluxo, os fundos de commodities – e países ligados a commodities – são os grandes vencedores” |
Haverá uma fase de consolidação, mas não está claro se estamos indo em direção a essa etapa ou se teremos outra queda, decorrente da retirada dos estímulos fiscais e monetários que puseram fim à primeira queda livre.
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Se estivermos em uma fase de consolidação, então as duas maiores questões macroeconômicas para os gestores de fundos são: para onde a inflação está indo e o que acontecerá com os lucros, renda e regimes de taxas de dividendos quando os governos começarem a realinhar suas finanças.
E sobre a performance de fundos de bonds nos últimos 12 meses? Eles ainda são atrativos, considerando a melhora das tendências macroeconômicas globais?
Os fundos de bonds foram atingidos com força pela crise, mas se recuperaram com a melhora do sentimento, e com a saída dos investidores famintos por retornos da relativa estabilidade dos Money Market Funds. Como mostra o gráfico, os fluxos e performances desse segmento têm – pelo menos até há pouco tempo – seguido a crise de perto.
Daqui para frente, algumas classes de débito vão manter a sua atratividade, seja por razoes relacionadas a juros ou por serem uma maneira relativamente direta de se beneficiar da erosão do valor do dólar.
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