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SÃO PAULO – Tradicionalmente, a renda fixa é considerada o porto seguro dos investidores brasileiros – tendência que pode ser justificada tanto pelos bons rendimentos, provenientes da alta taxa básica de juros vigente no País, quanto pelo conservadorismo do investidor médio.
Mas hoje esse cenário passou por mudanças, e investir em renda fixa já não é mais tão lucrativo quanto anteriormente. “Estamos agora num ponto de transição importante de toda a indústria de renda fixa brasileira”, analisa Marcelo Machaluá, diretor executivo da RB Capital. Para ele, é natural que, afetados pela menor rentabilidade, uma parcela dos investidores repense seus investimentos em renda fixa, buscando melhores oportunidades.
Já na opinião de Luciano Sobral, analista da Fram Capital, a renda fixa não perdeu a atratividade – mas passou a exigir uma postura mais ativa do investidor. “O investidor de renda fixa era mal acostumado no Brasil – estava satisfeito com 1% por mês de rentabilidade em qualquer fundo de renda fixa e DI, e agora que isso mudou”, explica Sobral.
Segundo o analista, apesar de alguns se deixarem levar pelo potencial de ganhos com renda variável, o investidor médio brasileiro é bastante conservador. “Especialmente agora, que o mercado de ações não está mais tão barato, ele prefere uma rentabilidade menor a arriscar o dinheiro comprando ações”, avalia.
Taxa básica de juros reduzida
Para Machaluá, com um pano de fundo de taxa Selic mais baixa, é natural que exista um movimento dessas pessoas físicas a realocarem parcela do seu portfóolio de renda fixa tradicional, devido aos componentes de tributação ou, no caso de fundos DI, com taxa de administração que acaba comendo a rentabilidade.
“No fim, sobra pouco para um público que durante anos e anos ficou acostumado a comprar renda fixa tradicional, papéis do Tesouro, pagando taxas de juros reais altas e sem muita preocupação do ponto de vista de risco de crédito, de liquidez”, avalia Machaluá.
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O executivo usa o exemplo dos títulos de dívida pública, que são atrativos porque não contêm componente de risco creditício, mas risco soberano. “Agora, dado que a curva de juros “fechou”, esses papéis de renda fixa de risco soberano estão pagando menos”. Segundo ele, por conta do cenário macroeconômico nacional, o mercado está precificando o risco soberano, o que faz com que a perspectiva de pagamento das notas do Tesouro, no cupom real, seja cada vez menor.
“Isso força os investidores – primeiro os institucionais, mas eventualmente, por efeito dominó, os médios e pequenos – a realocar a parcela de renda fixa do portfólio, já que os fundos de renda fixa, DIs, CDBs, debêntures, começam a pagar menos, tem custos associados que comem rentabilidade – como taxa de administração dos fundos – e que não contam com o benefício da isenção fiscal”, explica Machaluá.
Mas Selic continua uma das mais altas
Sobral tem algumas ressalvas quanto à taxa Selic e rendimentos em renda fixa. O analista aponta que mesmo que a taxa Selic esteja em sua mínima histórica (8,75% ao ano), ela continua alta em comparação com o resto do mundo – e, com isso a rentabilidade de renda fixa ainda continua alta no Brasil.
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Além disso, o analista ressalta que por mais que a Selic tenha caído ao longo desses anos, a parte longa da curva não acompanhou esse movimento de maneira proporcional. “Ainda é possível comprar um título do Tesouro de cinco anos que paga algo como 12% ao ano – isso não é uma rentabilidade baixa”.
Renda fixa alternativa
Machaluá enxerga a tendência de migração dos investidores para o que ele chama de renda fixa alternativa – papéis de securitização que contém lastro de garantia real imobiliária ou agrícola. “Esses são os grandes ativos alternativos de renda fixa, colateralizados por garantias reais e que contam com o benefício da isenção do imposto de renda para o investidor pessoa física”, explica o executivo.
Ele espera um crescimento explosivo desse mercado, frente a uma perspectiva de juros baixos em médio prazo. “É natural – e voluntário – que parte dos investidores decida realocar uma parcela de seus investimentos para esse tipo de ativo, para buscar mais rentabilidade, para ter uma exposição a risco de crédito securitizado”, explica o executivo.
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Como destaques, ele menciona o CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários) e o CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio). “O investidor do CRI pode executar a garantia real se uma das empresas na qual ele investe, por exemplo, sofrer um revés de crédito”, explica Machaluá. “É diferente, por exemplo, comprar um CRI de risco Petrobras, e comprar uma debênture da Petrobras – o CRI é mais estruturado, tem mais garantia e, ao contrário da debênture, tem isenção de imposto de renda”. O executivo conclui que, para o mesmo risco de crédito, em qualquer empresa, o CRI acaba pagando relativamente mais do que um papel com um risco direto do balanço dessas companhias.
Melhores opções em renda fixa
Segundo Machaluá, o mercado de crédito estruturado e securitização é a grande tendência de alocação – e tem despertado interesse do investidor pessoa física. “No período pré-crise, esse investidor estava mais distante, mas agora está absolutamente alinhado e muito mais interessado em olhar essas oportunidades”, explica.
“Todos os papéis de securitização que geramos esse ano foram vendidos. Estamos na busca de ativos para atender a demanda, de tão dinâmico que é o movimento por parte das pessoas físicas – seja através dos bancos ou de gestores de investimento”, afirma Machaluá. Segundo ele, a maioria das operações primárias e secundárias de colocação dos CRIs feitas pela RB no ano foi através de canais de distribuição que acessam pessoas físicas. “A atratividade desse papel é incrível do ponto de vista da segurança e do retorno”.
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Segundo Sobral, para o investidor que pretende preservar o capital – e não fazer fortuna investindo – os títulos indexados são a melhor opção. “O Brasil ainda paga um juro real desses títulos longos de mais de 6% – mesmo se a inflação acelerar, a rentabilidade não vai ser prejudicada; pelo contrário, o investidor pode até ter mais lucros”.
Nova queda nos juros à vista?
Para o analista da Fram, o momento – não só da renda fixa, mas da economia brasileira – é bastante interessante: “O Brasil está numa situação que tanto o perfil de crédito melhorou – o País é hoje um devedor muito mais sólido do que era na crise de 2002 – e continua pagando um juro muito alto. Vai ser interessante ver se esse juro vai ser arbitrado, se a presença de investidores estrangeiros vai ser suficiente a ponto de empurrar esse juro pra baixo, e fazer com que ele fique nos patamares dos países que são parecidos com o Brasil em termos de crédito”.
Sobral aponta ainda o possível novo investment grade do Brasil, que pode ser concedido pela Moody´s em setembro e poderia provocar uma queda dos juros mais longos. “Vai ser interessante observar entre esse ano e o próximo se essa história do Brasil de juro alto vai ser desafiada, e se as agências de classificação de risco vão de fato exprimir o risco do Brasil”, avalia.