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SÃO PAULO – Na última sexta-feira (1), um país – que muitas vezes é comparado com o Brasil por seu viés exportador de commodities – atingiu uma marca histórica: 25 anos sem recessão econômica.
Este país é a Austrália, que está a caminho de ultrapassar o recorde estabelecido pela Holanda na era moderna, conforme ressaltou o jornal Financial Times em matéria do final de junho. Entre 1982 e 2008, o país conquistou 26 anos de crescimento seguido com base na descoberta de petróleo do Mar do Norte.
Contudo, destacou a reportagem, o desempenho econômico da Austrália não somente poderia ser explicado por um boom de commodities como no caso holandês. “Boa parte do sucesso se deve a reformas que foram adotadas nos anos 80 e 90, para tornar a economia australiana mais flexível”, disse Paul Bloxham, economista do banco HSBC. “Elas incluíram forte redução de tarifas, desregulamentação do mercado de trabalho, câmbio livre para o dólar australiano e desregulamentação do sistema financeiro”.
Entre as medidas adotadas, estiveram a criação de um regime de política monetária bastante crível realizado pelo Banco de Reserva da Austrália, que foi bem-sucedido ao manter a inflação na meta entre 2% e 3% ao ano. Além disso, o país manteve a disciplina fiscal entre o final dos anos 1990 e começo dos anos 2000 e diversos anos de criação de superávit primário, até 2008.
Associado a isso, está o fato do país ser “afortunado” com uma boa base de recursos naturais e por ser próximo à Ásia – a demanda alta da China por commodities ajudou muito o crescimento australiano. Entre outros fatores citados pelo FT, estiveram a alta imigração e o rápido crescimento populacional. Mas, além disso, o país está se diversificando em outras áreas, desfruta de um boom nas exportações de serviços à China, como educação e turismo.
Mas alguns poréns…
Se o cenário que foi descrito até agora foi positivo, o futuro da Austrália deve ser visto com mais cautela. Além da exposição maior a choques externos, o nível muito elevado de endividamento doméstico, a trajetória de alta da dívida pública e a dependência da China (que está desacelerando), além da desaceleração do crescimento populacional são vistos como alguns sinais de alerta para a economia do país.
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Neste ambiente de tensão, um outro fator aumentou o ambiente mais hostil à economia do país: a incerteza política. A última semana foi marcada pelas eleições australianas, com uma disputa tão acirrada e com um grande impasse para a definição de como seria a coalizão para definir o primeiro-ministro do país. O atual ocupante do cargo, Malcolm Turnbull, do Partido Liberal, consegue formar uma coalizão, mas a oposição ganhou terreno.
Turnbull, líder de uma coalizão conservadora, dissolveu ambas as casas do Congresso em maio para tentar se livrar de parlamentares independentes que vinham bloqueando sua agenda política. Mas a oposição ganhou ainda mais espaço nesta última votação. O primeiro-ministro, mesmo com a coalizão, terá que enfrentar um verdadeiro quebra-cabeça no Congresso.
O primeiro-ministro, durante a campanha, argumentou que partidos menores em coalizão com os trabalhistas de centro-esquerda não eram confiáveis para gerir uma economia atingida pela desaceleração da atividade mineradora pelo mundo e com anos seguidos de déficit (após os seguidos anos de superávit até 2008).
No dia 5, o Bank of America Merrill Lynch destacou: “nós acreditamos que tem havido uma maior preocupação com a capacidade da Austrália manter a disciplina fiscal e pode tornar mais provável que o rating soberano AAA receba maior contestação. Nós não descartaríamos que pelo menos uma agência de classificação de risco coloque a Austrália em perspectiva negativa”.
Dito e feito: dias depois, a agência de classificação Standard & Poor’s deu o recado: e revisou a perspectiva do rating triplo-A da Austrália para negativa, destacando o cenário de incerteza política e o déficit fiscal. A S&P ressaltou que há uma alta probabilidade de rebaixamento da nota de crédito se nos próximos dois anos caso o Parlamento não aprove “medidas de poupança ou de geração de receita suficientes para reduzir o déficit fiscal para equilibrá-lo no início de 2020”. Além disso, ressaltou que as últimas eleições enfraqueceram ainda mais a perspectiva de um desempenho orçamental.
A Austrália teve 25 anos positivos para a economia com disciplina fiscal e o crescimento asiático. Mas, ao que parece, os próximos anos prometem ser desafiadores para o país, que superou as expectativas no último quarto de século.