Mesmo com atuações do BC, dólar segue em trajetória de baixa; até quando?

Economistas discutem influências do banco e das especulações no câmbio; daqui até final do ano, mercado espera alta da moeda

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SÃO PAULO – A desvalorização de mais de 20% do dólar frente ao real no acumulado de 2009 não é mais surpresa, dada a forte demanda pela divisa brasileira e o consenso formado já há algum tempo de que a trajetória não irá se inverter tão cedo. O mesmo não se pode dizer, entretanto, dos números absolutos da atuação do Banco Central no mercado de câmbio.

Nesta terça-feira (11), especificamente, o dólar comercial sobe, mas o movimento é pouco representativo diante da expressiva queda vista nos últimos meses.

Desde maio deste ano, quando a autoridade monetária brasileira voltou a adquirir a moeda norte-americana para “recomposição das reservas internacionais”, as compras já somaram US$ 8,159 bilhões, conforme dados registrados até 31 de julho. No mesmo período, o fluxo cambial ficou positivo em US$ 5,480 bilhões. “Claramente o Banco Central está tentando intervir na taxa de câmbio”, afirma o professor Paulo Gala, da Fundação Getulio Vargas.

Segundo ele, é óbvio que o Banco Central nunca vai anunciar que ele tem uma meta de câmbio, pois se ele fizer isso, ele pode desencadear dinâmicas dos agentes nesse sentido. “A minha impressão é de que ele está muito preocupado com a apreciação cambial e ele vai tentar evitar isso. Até porque, se você olhar nos últimos dois meses, o que ele tem comprado é mais do que o fluxo que está entrando”.

Sidnei Nehme, diretor-executivo da NGO Corretora, vai ainda mais longe em seus comentários. Segundo ele, o esforço do Banco Central para controlar o câmbio através do mercado à vista é excessivo. “O esforço dele é tão grande que ele está comprando além do fluxo que sobra. Isso eu acho um erro, pois ele acabou aumentando a posição vendida dos bancos e criou um outro fator que também vai especular para a queda do dólar”.

Impactos da ação do BC

Diante da forte intervenção da autoridade monetária no mercado de câmbio, pode-se argumentar que ela influenciou bastante a taxa, no sentido de impedir uma valorização ainda maior da moeda brasileira. De acordo com Paulo Gala, caso o BC não tivesse agido, o dólar atualmente estaria próximo de R$ 1,60.

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Entretanto, a atuação do Banco Central não foi capaz de conter a trajetória de apreciação do real. Por quê? Sidnei Nehme explica que o fator mais relevante para a queda do dólar não advém do mercado à vista e sim do mercado futuro. E para este tipo, a autoridade monetária brasileira não tem instrumentos eficientes de intervenção.

Nehme comenta que os investidores estrangeiros que destinam seus recursos ao mercado acionário e de renda fixa no Brasil montam posições especulativas vendidas com o objetivo de obter um ganho adicional a partir da variação cambial. “O único instrumento que o Banco Central usou no passado para tentar conter isso, que foram os swaps cambiais reversos, acaba, por sua própria estrutura, aumentando a especulação ao invés de contê-la”.

Perspectivas

Se o Banco Central não tem instrumentos para impedir a apreciação do real, a pergunta que fica é até onde esse movimento levará a taxa de câmbio. “Naturalmente, o especulador tem noção clara de que ele pode deprimir a taxa até o momento em que ele não construa para si próprio um corner onde ele não consiga reverter a sua posição. Eu acredito, pelos movimentos recentes, focando diretamente o mercado futuro de dólar, que os estrangeiros estejam tendentes a diminuir esse volume de especulação”, projeta Nehme.

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Como prova de sua suposição, o diretor-executivo da NGO informa a redução da posição vendida dos estrangeiros no mercado futuro de dólar: de US$ 4,100 bilhões no dia 31 de julho, para US$ 2 bilhões no dia 5 de agosto. “Se esse movimento especulativo for contido pelo próprio especulador, eu acredito que o dólar vá retornar gradualmente a R$ 1,90”.

A perspectiva traçada por Paulo Gala é bem diferente. Para ele, a forte atratividade da moeda brasileira, combinada com a resiliência e recuperação prevista para a economia do País, deve levar o câmbio à casa de R$ 1,50 nos próximos meses. Já para o consenso do mercado, conforme os dados do relatório Focus, a taxa de câmbio deve terminar 2009 a R$ 1,90.