Colunista InfoMoney: China, o touro oriental

O consenso é que a China irá apresentar um crescimento superior a 7%, graças à explosão do crédito destinado ao investimento em infraestrutura
No início do ano, não se sabia o quanto a China seria afetada pela crise mundial. Os mais pessimistas enfatizavam que boa parte de sua economia se destinava ao setor exportador, que estava colapsando ao redor do mundo, enquanto os otimistas mantinham sua crença na ingerência do governo na economia para não permitir a hecatombe de sua economia. O intervalo de estimativas para o PIB de 2009 ia de 2% a 10%.

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Passados os primeiros sete meses do ano, o consenso é que a China irá apresentar um crescimento superior a 7%. O responsável direto por isso não é a retomada do comércio internacional, mas a explosão do crédito destinado ao investimento em infraestrutura e setor imobiliário.

Historicamente, a série de crédito possui uma sazonalidade, quando mais de 65% do crédito é disponibilizado no primeiro semestre. Isso ocorre, pois o governo possui ingerência sobre quanto e para onde vão os recursos do setor bancário.

“O risco para a China é uma bolha de ativos em 2010”

Assim, há uma análise no início do ano por parte do governo sobre quais projetos receberão empréstimos. Os investimentos aprovados recebem logo os recursos, que são aplicados ao longo do ano.

Neste ano, a composição não foi diferente, mas a magnitude foi sem precedentes. De 2003 a 2008, a média de recursos emprestados no primeiro semestre foi de RMB 2 trilhões (aproximandamente US$ 290 bilhões), como pode ser visto na tabela abaixo. Em 2009, o volume de concessão alcançou a extraordinária marca de RMB 7,4 trilhões (ou aproximadamente US$ 1 trilhão).

Lembrando que o PIB chinês é de US$ 4 trilhões, ou seja, estamos falando de algo como 25% a mais de recursos na economia. O planejamento inicial do governo central era de RMB 9,9 trilhões em novos empréstimos. Ou seja, 74% já foi concedido nos primeiros seis meses do ano.

Uma outra característica do mercado de crédito chinês é que cada governo local possui autonomia no direcionamento dos recursos. O dirigente de cada província precisa mostrar resultado de investimento em infraestrutura para conseguir subir ao poder no partido do governo federal. Portanto, todos os incentivos estão na mesa. Até o final de junho, o gasto em infraestrutura foi extraordinário. Lembremos que parte dos recursos ainda está no caixa das empresas, que vão gastando com o tempo. Assim, temos um hiato de tempo entre a concessão do crédito e o investimento.

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No segundo semestre, a expectativa é que o setor “escolhido” seja o imobiliário. A demanda é crescente, com muitos chineses passando a condição de investidores, comprando a segunda casa para especular.

O risco para a China é uma bolha de ativos em 2010. O governo tem alguns instrumentos para tentar conter esse movimento. Além disso, essa quantidade sem precedentes de crédito pode estar gerando uma potencial explosão de empréstimos não quitados (NPL na sigla em inglês – non performing loans), que recairá no ano que vem. Temos que lembrar que, na China, não existe crédito com taxa fixa, mas apenas variável. Em um cenário de alta de juros, isso pode contribuir para aumentar os riscos para os bancos comerciais.

O debate continua. Os pessimistas salientando os riscos assumidos pelo governo e o setor bancário confiante de que teremos uma bolha de ativos que criará um grande problema para o crescimento chinês. Por outro lado, temos os otimistas, sempre acreditando que o governo consegue organizar sua economia e que há espaço fiscal suficiente para municiar os bancos, caso haja uma crise de liquidez. Enquanto o debate no ocidente acontece, o touro que estava hibernando começa a acordar do outro lado do mundo.

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Ivo Chermont é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney, às terças-feiras.
ivo.chermont@infomoney.com.br