A especulação continua? Wall Street se aproxima do modo pré-crise

Dow Jones acumula oito altas, com 40% de todo giro financeiro em 4 ações até certo ponto peculiares; onda de especulação?

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SÃO PAULO – Algo no mínimo curioso aconteceu no mercado norte-americano na semana passada. O Dow Jones acumulou, com o pregão da quinta-feira (27), oito sessões seguidas de valorização. Melhor marca em dois anos. Mas o curioso não é isto, é o volume.

Por lá, o giro financeiro começou a assumir um caráter peculiar. Ótimo exemplo é a última terça-feira, em que quase 40% do capital que girou na bolsa operou apenas quatro ações. Mais peculiar ainda são estas quatro ações. Citigroup, Freddie Mac, Fannie Mae e Bank of America, sozinhas, responderam por exatos 36,8% do volume financeiro daquele dia.

Considerando um período de 5 de agosto até a semana passada, estas quatro, mais o reforço das ações da AIG, movimentaram uma média de 30% de todo o capital que circulou na bolsa norte-americana. E todo esse fluxo apontou para cima.

À rede CNN, o analista John Norris, do Oakworth Capital Bank, afirmou que “sempre que você tem concentração em um pequeno grupo de ativos é preocupante. Talvez pode ser um sinal que este rali irá evaporar”.

Só pode ser uma: especulação

No mercado norte-americano, o consenso é que se trata de uma onda especulativa. Embora Wall Street ainda não opere com o grau de euforia do modo pré-crise, caminha nesta direção. Como instituições que precisaram de bilhões do governo para não fechar as portas e ainda enfrentam uma situação muito adversa conseguem carregar tanto otimismo? Além do volume, as altas também impressionam.

Somente para se ter uma idria, do dia 31 de julho até a sexta-feira passada, os papéis de AIG, Freedie Mac e Fannie Mae acumularam valorização igual ou superior a 230%. Por sua vez, as ações do Bank of America mais que dobraram de valor e as do Citi apontam alta de 59%. Obviamente, pondera-se que os papéis vinham de forte baixa, o que traz algum alento para o movimento recente.

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Mas preocupa

“A ação irracional do mercado não é um caminho saudável para as ações criarem fôlego”, reforçou Chad Brand, da Peridot Capital, ao Wall Street Journal. Parece consenso que movimentos desta magnitude ignoram os múltiplos destas ações. Alguns analistas chegaram a usar o termo “cassino” para falar do fato.

A história aponta para dois casos. Em 1995, o rali do setor financeiro em Wall Street foi tratado como justificável, pela relação das oscilações na bolsa com os lucros por ação apresentados pelas companhias. Dez anos depois aconteceu o inverso. O período de escassez de crédito e liquidez no mercado internacional colocava o segmento em evidência, até a chegada da crise derreter com o preço das ações e os fundamentos do setor.

Segundo matéria do portal MarketWatch, os day traders estão puxando a gravitação destes ativos de “baixa qualidade”. Para o mercado, o fato dos movimentos relacionarem pouca correlação com a realidade dos fundamentos é sinal de uma onda especulativa. Sinaliza também que o rali destes oito dias pode ser pouco sustentável.

Liquidez

Apesar de carregar um caráter pejorativo, o termo especulação muitas vezes esconde algumas qualidades da atividade. Os especuladores fornecem liquidez aos mercados; são tomadores de risco. E risco que os gestores da parcela real deste mercado, em grande parte das vezes, não estão dispostos a tomar.

Por outro lado, este impulso de liquidez inegavelmente funciona como uma espécie de potencializador de movimentos. Ou seja, uma tendência de alta ou baixa pode assumir proporções muito mais significativas com a presença maciça dos especuladores.