O Brasil político não é mais o mesmo desde ontem

Agora é saber como o governo e os políticos reagirão à impressionante manifestação de ontem, contra o governo, contra a política tradicional, a favor de impeachment e de uma nova política

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Independentemente da métrica que se tome (a dos organizadores do evento, mais de 6 milhões de participantes; a das Polícias de Militares, mais de 3 de milhões, as adaptadas com dados de institutos de pesquisas, cerca de pouco mais de 2 milhões), a realidade é que as manifestações políticas de ontem foram as maiores já realizadas no país e deixaram um claro e inequívoco recado: o país não está satisfeito com o governo que está aí e com a presidente Dilma Rousseff, além de condenar também o ex-presidente Lula e o PT.

Adicionalmente, em menor grau, sobrou também repreensão para as oposições formais, em fatos com os constrangimentos e as vaias enfrentadas pelo governador Geraldo Alckmin e pelo senador Aécio Neves, ambos caciques do PSDB, e a senadora Marta Suplicy, em transição do PT para o PMDB na capital paulista, e o impedimento, em várias cidades, de parlamentares e políticos conhecidos discursarem. Em sentido amplo, as passeatas foram condenação dos partidos e da política dos políticos. Não foram antipolíticas, foram por uma nova política.

E não pode haver a desculpa, como pipocou nas redes sociais, de que foi um movimento dos “coxinhas”, que o “povão” estava ausente. Segundo o jornal “O Globo”, dirigentes do PT e de movimentos sociais reunidos em São Paulo para analisar as manifestações, reconheceram que, pela primeira vez, houve participação da classe trabalhadora num evento desse tipo e que as passeatas ganharam um caráter apartidário.

Leia também o artigo de Francisco Petros em “Fato Real”: O divórcio do poder e política

Saíram fortalecidos do impressionante espetáculo cívico deste domingo o juiz Sérgio Moro e a Operação Lava-Jato. A interpretação corrente é que qualquer manobra para conter as investigações do petrolão, se ainda forem tentadas, serão rechaçadas de alguma forma pelas forças sociais. Admite-se também, porque a palavra “impeachment” foi outra presença de destaque no evento, que o processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff deverá ser deslanchado, ganhou robustez.

O Brasil mostrou que, como está não pode ficar, até porque, o governo está totalmente paralisado, com uma única prioridade: evitar a cassação do mandato da presidente. A definição dessa situação – se ela sai ou se ela fica – é essencial para que o governo volte a trabalhar, o Congresso se concentre nas votações dos projetos da reforma fiscal e a economia comece a dar sinais de que vai se recuperar.

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STF define quarta a regra do impeachment
Objetivamente, o processo do impeachment, com o empurrão de ontem, deve dar passos largos esta semana. O ministro Luiz Roberto Barroso marcou para quarta-feira a apresentação de votação de seu parecer sobre as contestações (embargos declaratórios) apresentados pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, contra algumas das regras para a tramitação do impeachment, ditadas pelo STF. Com isso, a Câmara poderá começar a discutir o caso para valer.

A esperança de Cunha e dos defensores do impeachment é que pelo menos um dos pontos seja modificado: o que determina que a escolha dos membros da Comissão da Câmara que vai dar o parecer inicial seja feita pelos líderes partidários, sem a possibilidade de candidaturas avulsas. A norma é considerada favorável à presidente, que bem ou mal ainda tem influência sobre os lideres dos partidos aliados.

Porém, a questão que se põe agora, a partir das manifestações de ontem, é sobre o efeito das multidões que foram para as ruas sobre o humor dos parlamentares governistas, a maioria muito sensível a essas coisas. Os políticos que estavam em Brasília ontem e mesmo em seus estados que se manifestaram publicamente ou reservadamente para jornalistas, estavam entre assustados e paralisados. Muito por oportunismo, podem crescer as deserções do lado do governo.

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É precipitado, porém, como alguns analistas já estão palpitando, dizer que o impeachment de Dilma é agora uma questão de algumas semanas. O governo tem como atuar ainda – mesmo atarantado, ainda conta com grande poder de “sedução”. E Dilma pode mudar seu comportamento gerencial, para se salvar. O Brasil deve se preparar para pelo menos quatro situações:

(1) Dilma ficar como está agora, o governo arrastando-se como no fim do mandato de Sarney; (2) com Dilma em outra versão, talvez com algum acordo de emergência com a oposição; (3) com o impeachment, e com Temer na presidência, governando com um grande acordo nacional; (4) com a chapa de Dilma/Temer cassada pelo TSE e uma nova eleição – direta se a decisão se der até o fim do ano, indireta pelo Congresso se for depois.

A renúncia é carta fora do baralho como Dilma deixou claro na sexta-feira. A conversa de um semiparlamentarismo (ou semipresidencialismo) saída da cachola do PMDB e de Renan Calheiros é uma jabuticaba política apenas.

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Difícil precisar qual desses cenários prevalecerá, porém o primeiro e o último parecem os mais improváveis.

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O que será de Lula?
Incógnita também é o novo cenário para o ex-presidente Lula – e paralelamente para o PT. Acuado pela operação Lava-Jato, alvo das manifestações, como ele vai reagir? Vai agitar os movimentos sociais ainda fieis a ele? Vai aceitar algum tipo de diálogo e acordo com a oposição? Diante das novas circunstâncias, vai aceitar o convite da presidente Dilma para assumir um ministério e tentar recompor a base governista?

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O PT defende que sim, ainda acredita que o ex-presidente pode reaglutinar as forças aliadas em torno de Dilma e manter apoio dos sindicatos. O nó é como fazer isto sem mudar a política econômica e sem desgostar mais os agentes econômicos privados que querem mais ajuste fiscal e reformas estruturais.

Havia interpretação de que o movimento vai influenciar decisivamente na tomada de posição do PMDB de romper ou não com o governo. Bem a seu estilo, o partido, embora tenha dado à sua Convenção Nacional um caráter francamente oposicionista (só discursos de crítica à Dilma e ao governo, ante o silêncio até dos ministros da presidente) deu-se um prazo de 30 dias para confirmar se vira oposição. O PMDB quis ver para onde o vento vai soprar para valer. O primeiro sinal foi que a biruta apontou fortemente para o afastamento.

A grande expectativa, porque ele também, mesmo com todo aparato de informação foi surpreendido pelo vigor das passeatas, é a reação do Palácio do Planalto. E adicionalmente a do PT e dos movimentos sindicais e organismos sociais ligados ao partido. A presidente e adjacência terão entendido o real significado das manifestações, uma condenação a atual forma de governar de Dilma e suas conseqüências para a economia?

Ontem, depois de carregadas reuniões, o governo limitou-se a soltar uma nota lacônica, óbvia, celebrando o caráter pacífico das manifestações e celebrando a civilizada demonstração de democracia. Dá a impressão de esperar uma “contraprova”, um “contramovimento”, com as manifestações marcadas pelo PT, sindicado e movimentos sociais a favor do governo para sexta-feira 18.

Reportagem do “Valor Econômico” diz que a presidente Dilma Rousseff procura um fato política relevante para contrapor às manifestações. Poderia ser, por exemplo, a nomeação de Lula para o ministério ou até, como sugestão de auxiliares, o início de um diálogo político com os ex-presidentes.

Como alertou o juiz Sergio Moro, responsável pelas investigações da Operação Lava-Jato e o grande incensado pelos manifestantes ontem, “será preciso ouvir a voz das ruas”. Dilma vai mudar, empenhar-se mais na defesa das políticas capazes de dar rumos à economia? O PT e adjacências aceitarão as propostas do governo de reformas estruturais? No fundo, foi a insatisfação com a situação econômica (queda da renda, aumento do desemprego, falta de perspectivas visíveis de melhora), o grande motor das manifestações de ontem.

E quanto à oposição: ela estará à altura dos desafios que tem pela frente, entendeu que também está na berlinda?

Como o pano de fundo de tudo isso está a Operação Lava-Jato, suas novas revelações das mais recentes delações premiadas e outras que estão em negociação. Uma bomba cujo alcance ninguém é capaz de prever.

A verdade é que o Brasil político não é mais o mesmo desde ontem.

Outros destaques dos

jornais do dia

– “Queda nos serviços foi menos intensa que no varejo” (Valor)

– “Ajuda a estados será anunciada esta semana” (Estado)

– “Aeroportos e rodovias ainda aguardam dinheiro do BNDES” (Valor)

– “Lagarde, do FMI, defende juros negativos, mas cobra reformas” (Globo)

LEITURAS SUGERIDAS

José Casado – “A soma de todos os medos” (diz que Dilma assiste impassível à liquefação de seu governo) – Globo

Editorial – “Inflação e complacência” (diz que o cenário da inflação piorou, tanto nas projeções do BC quanto nas do setor privado, mas que a autoridade monetária ainda assim dá sinais de que pode reduzir os juros) – Estadão

José Roberto Toledo – “Costurando Frankenstein” (diz que o governo Dilma não foi ao forno nem sábado nem domingo e sim na quarta-feira quando o PMDB e o PSDB se reuniram em Brasília para discutirem a situação política e alinhavar um acordo entre eles) – Estado

Editorial – “Recado cabal” (diz que crise política de Dilma com a maior manifestação política da história do país) – Folha

Valdo Cruza – “Próximo do fim” (diz que desfecho está próximo, pode não passar de julho) – Folha

Destaques dos jornais do

fim de semana

SÁBADO

– “Dilma nega renúncia e diz que teria orgulho de Lula no governo” (Globo/Estado/Folha)

– “Delcídio revela caixa 2 em 2014” (Globo)

– “PF encontra cofres no BB com presentes de Lula” (Globo/Estado)

– “STJ autoriza inquérito sobre Beto Richa” (Globo/Estado/Folha)