Com superministério, Lula pode ter poderes para mudar a economia

O ex-presidente estará hoje em Brasília para conversar com a presidente Dilma e só não será ministro se não quiser. Com isso, ganha também foro privilegiado e as investigações contra ele saem das mãos de Moro e vão para o STF

Publicidade

Tudo indica – pela azáfama de ontem no Palácio do Planalto, com longas reuniões da presidente Dilma Rousseff com um grupo selecionado de ministros, a conversa da presidente com os ministros do PMDB e o périplo na sede do governo de dois prepostos de Lula, o presidente do PT, Rui Falcão, e o ex-ministro Gilberto Carvalho – que o ex-presidente Lula deverá aceitar ser ministro de sua pupila. A decisão será selada hoje, com um encontro entre criador e criatura em Brasília.

Não há ainda uma definição de qual ministério Lula ocupará – pode ser tanto a Casa Civil (hoje com Jaques Wagner) como a Secretária de Governo (com Ricardo Berzoini) ou até uma outra da miríade de mais de 30 que Dilma tem a disposição para manipular. O que se sabe é que Lula terá um superministério (será uma espécie de primeiro-ministro), com poderes para cuidar da articulação política e também para mexer na economia.

De acordo com o “Valor Econômico”, a presidente reuniu-se com o senador Renan Calheiros para pedir o apoio do PMDB à nomeação de Lula, que pode sofrer resistências no partido e ser muito contestada no Congresso.

Os objetivos confessos da escolha de Lula são de duas ordens: no terreno da política, segurar o PT, reagrupar a base aliada, especialmente reconquistando ou dividindo o PMDB, e formar uma barreira sólida para derrubar o impeachment; no campo econômico, ajustar medidas para o início da retomada da economia o mais rapidamente possível, usando ainda seu prestígio externo para atrair investimentos.

Dilma, nessas condições, teria o seu poder completamente reduzido, mas o arranjo esta está sendo visto dentro do “núcleo duro” do governo e no PT como última saída para evitar o impeachment da presidente. E como a última oportunidade para os petistas salvarem sua face antes das eleições de 2016 e 2018. A conclusão desses grupos, paradoxalmente, é a mesma das ruas: com Dilma não dá mais.

Em duas outras ocasiões nos últimos dias o ex-presidente recusou a oferta, preocupado em não passar a imagem para a opinião pública de que está indiretamente assumindo a culpa das suspeitas que pesam sobre ele na Operação Lava-Jato e “fugindo” do juiz Sérgio Moro. Dois acontecimentos dos últimos dias, porém, parecem ter levado o ex-presidente a mudar de opinião:

Continua depois da publicidade

O sucesso da passeata do último domingo, que levou mais de 3 milhões de pessoas às ruas, e deu fôlego ao processo de impeachment, fato que até os governistas passaram a admitir. Amanhã, o STF deve liberar de vez as normas para o andamento do processo na Câmara e o presidente da Casa, Eduardo Cunha, promete iniciar imediatamente o trâmite do pedido de impedimento de Dilma. Analistas dizem que, se não aparecer nenhum outro impedimento legal, a questão deverá estar resolvida em 45 a 60 dias. Analistas de bancos e consultorias ouvidos pelo “Valor” dizem que aumentou para cerca 70% a possibilidade de Dilma ser cassada pelo Congresso. Aécio Neves confirmou à “Folha de S. Paulo” que o PSDB e o PMDB estão de fato conversando a respeito do pós-Dilma.

A decisão ontem da juíza Maria Priscilla Veiga de transferir da justiça estadual de paulista para a justiça federal do Paraná, o processo que corria contra Lula em São Paulo sobre a propriedade do triplex do Guarujá, reformado pela OAS. O apartamento seria de propriedade de Lula, o que ele nega. Lula foi denunciado pelos promotores paulistas, com pedido de prisão preventiva. Esperava-se, em razão da frágil sustentação jurídica do pedido de prisão, que ele fosse recusado em São Paulo. A transferência do processo para Curitiba, para as mãos até agora implacáveis do juiz Sérgio Moro, muda tudo de figura, pode complicar para o ex-presidente. Tanto que seus advogados ontem mesmo entraram com uma representação para anular despacho de Maria Priscilla.

Quer receber as principais notícias de política diariamente no seu e-mail? Assine gratuitamente a newsletter do Na Real!

Continua depois da publicidade

Mudanças previsíveis na economia
A possibilidade da ida de Lula para o ministério, com todas as idiossincrasias que ele e o PT devotam à política econômica de Dilma-Nelson Barbosa, causa apreensão nos agentes econômicos privados que entendem que a partida para a retomada sustentável da economia passa por um ajuste das contas públicas. Esta visão ficou clara ontem, no comportamento do sempre nervoso mercado financeiro. 

Nos últimos tempos, sempre que havia algum sinal de dificuldades para a presidente Dilma e indicações de que ela poderia sair o governo, o mercado “comemorava” – a bolsa subia, o dólar caía. Ontem, depois do sucesso das manifestações, os analistas esperavam mais um dia de euforia na bolsa e depressão para a moeda americana. Porém, quando se viu que os acontecimentos dos últimos dias poderiam precipitar a nomeação de Lula para o ministério, o ambiente de otimismo inicial mudou: a Bolsa fechou em queda de 1,55% e o dólar subiu 1,72% .

E sinais de que mudanças nos rumos da economia podem estar a caminho já estão no ar. Na longa entrevista que ontem para analisar os desdobramento da passeata de domingo, o ministro Jaques Wagner falou um pouco de tudo – disse até que os protestos de domingo na foram espontâneos e acusou o juiz Sérgio Moro de criminalizar a política.

Continua depois da publicidade

E em determinado momento, Wagner insinuou que uma das propostas do PT para a retomada das atividades econômicas está em estudo: a utilização das reservas cambais para abater a dívida federal e deixar espaço para novos gastos com investimentos.

Segundo o jornal “O Estado de S. Paulo”, embora Dilma e o ministro Nelson Barbosa se digam contra a medida, ela já começa a ser analisada. Um terço dos US$ 372 bilhões das reservas seria liberado para formar um Fundo Nacional de Desenvolvimento e Emprego. Lula e o PT são entusiastas da ideia.

Ontem, nessa linha de incentivar os investimentos, o governo decidiu reduzir a taxa de juros cobrada nos empréstimos com recursos dos fundos de desenvolvimento regional – do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste. Isto deverá ter um impacto negativo de R$ 1,8 bilhão nas contas públicas.

Continua depois da publicidade

Em meio a esta agitação, a presidente teve de correr para escolher um novo ministro da Justiça, pois o procurador baiano César, preferiu continuar não renunciar à função, como determinara do STF, para ficar em Brasília. Para o lugar foi escolhido o subprocurador-geral da República, Eugênio Aragão. Ele não tem o mesmo impedimento do ex-breve ministro baiano porque fez concurso antes de 1988.

Saiu o documento com o depoimento do ex-presidente Lula à Polícia Federal. Leitura com boas informações. O tom da maioria das repostas do ex-presidente Lula aos delegados que o inquiriram na sexta-feira 4 de junho em São Paulo, às vezes respondendo com irritação, outras com estudada ironia, demonstram que o ex-presidente ficou de fato muito agastado com sua condução coercitiva para depor e com o fato de estar sendo investigado.

Além disso, Lula carregou nos “não” e deixou algumas questões sem respostas objetivas. No caso do triplex, disse que está sendo vítima de uma “sacanagem homérica”. E ainda disse aos delegados que será candidato em 2018. Como observa a repórter Maria Cristina Fernandes no “Valor”, nem na presença da PF Lula desce do palanque.

Outros destaques dos

jornais do dia

– “Governo reduz juros de crédito via fundos do Norte e Nordeste” (Globo/Estado)

– “Superávit comercial do ano supera os US$ 6 bilhões) (Valor)

– “Recessão de janeiro [IBC-BR de menos 0,61%] foi maior do que a esperada pelos analistas” (Globo/Estado)

– “Lei de repatriação vale até outubro e governo espera arrecadar R$ 21 bi” (Folha/Globo)

– “Aumenta a espera pelo emprego” (Globo)

– “Mulher de João Santana decide fazer delação” (Globo)

– “Pedro Correa [ex-presidente do PP] é outro que decide fazer delação premiada” (Estado)

– “Candidato derrotado em Minas, Pimenta da Veiga vira réu” (Estado)

LEITURAS SUGERIDAS 

José Casado – “A voragem das ruas” (diz que o modelo político que está aí acabou – a cegueira deliberada surpreende Aécio Alckmin e Dilma) – Globo

Carlos Melo – “Jogada de alto risco” (diz a possibilidade de Lula assumir um ministério no governo é jogada de alto risco, com diversas e complexas implicações – para o Supremo, para Dilma, para o PT – e que o Congresso sabe disso) – Estado

José Paulo Kupfer – “Fator Lava-Jato” (diz que a confirmação da possibilidade do afastamento de Dilma abriria espaços necessários de correção de rota, mas pode ser que isso não seja suficiente) – Estado

Editorial – “E o Brasil disse: basta!” (diz que agora resta formalizar o que foi decretado nas ruas, obedecidos os devidos preceitos legais) – Estado

Delfim Netto – “Chegou a hora” (diz que Dilma vai ter de escolher entre o discurso de Nelson Barbosa (ajuste fiscal) e do PT (expansão dos gastos) e que ela foi eleita para isso e deve pagar o preço da escolha) – Valor

Raymundo Costa – “Do impeachment às eleições gerais” (analisa as várias formas para tirar a presidente Dilma que estão sendo discutidas nos meios políticos e no Congresso) – Valor