PGR vai investigar Lula, Temer e Aécio e estuda também incluir Dilma

Janot já comunicou que vai pedir autorização ao Congresso para investigar o ministro da Educação e avisou que estuda ainda abrir também uma investigação contra Dilma

Publicidade

Com as revelações (ainda incompletas) da delação premiada do senador Delcídio do Amaral, agora oficializada pelo STF, a crise política brasileira, que já colocava o governo e o mundo político brasileiro em xeque, ganhou proporções extraordinárias, de desfecho totalmente imprevisível. Delcídio, considerado um dos homens-bomba da Operação Lava-Jato, soltou que parece uma bomba de nêutrons sob os céus de Brasília, aquela que destrói a humanidade sem destruir o ambiente físico e as edificações.

A mais grave de todas as revelações de Delcídio traz a presidente Dilma Rousseff definitivamente para dentro do petrolão: a ação do ministro da Educação, Aloizio Mercadante, em conversa gravada com um assessor de Delcídio, Luiz Eduardo Marzagão, para tentar evitar que ele comprometesse Lula e Dilma em seus depoimentos na Justiça. Delcídio já estava preso na ocasião.

Mercadante, quando a história explodiu, deu uma entrevista tentando se explicar, dizendo que não oferecera dinheiro a Delcídio, como o senador insinua, mas agira por solidariedade a um colega com quem conviveu 18 anos. Mas com quem tinha sérias desavenças. Mercadante deixou furos em suas explicações, e não convenceu nem parceiros petistas. Alguns deles diziam pelos corredores do Congresso, compungidos, que a situação é “gravíssima”.

Marcadante parece não ter convencido nem Dilma. No meio da tarde, quando o episódio fazia ferver o mundo político, a presidente soltou uma nota para repudiar o envolvimento de seu nome na história do ministro da Educação, dizendo que não pode ser culpada de uma iniciativa “pessoal” de seu auxiliar. Ou seja, deixou Mercadante às feras, embora ela fosse um dos seus ministros de mais confiança pessoal.

Mercadante é reincidente em trapalhadas políticas, além de ser considerado politicamente desastrado. Em 2006, na campanha para o governo de São Paulo, apareceu com assessores envolvido na tentativa de compra de um dossiê falso contra os adversários tucanos. Sobrou para um dos auxiliares. Lula na época chamou a turma do Dossiê Vedoin de “aloprados”.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot tampouco parece convencido tanto das explicações de Mercadante quanto do desconhecimento de Dilma da ação de seu ministro de grande fé. Janot já comunicou que vai pedir autorização ao Congresso para investigar o ministro da Educação e avisou que estuda ainda abrir também uma investigação contra Dilma. Nesta altura, Mercadante ficar no governo é apenas mais um fardo para Dilma carrega.

Continua depois da publicidade

A presidente por si é acusada por Delcídio de ter escolhido um ministro para o Superior Tribunal de Justiça (Marcelo Navarro) com o compromisso de livrar da prisão alguns empresários presos na Lava-Jato. Delcídio disse também que foi escalado por Dilma (e Lula) para tentar bloquear as investigações do petrolão.

O procurador já pediu também, por conta da delação de Delcídio, autorização para investigar o ex-presidente Lula, o vice-presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves. As delações de Delcídio envolvem 78 pessoas e sobrou também para Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Em entrevistas concedidas ontem, o agora já quase ex-senador disse que vem muito mais coisa por aí e tem condições de provar o que disse.

Quer receber as principais notícias de política diariamente no seu e-mail? Assine gratuitamente a newsletter do Na Real!

Continua depois da publicidade

Lula superministro: Plano de Reanimação Nacional
A primeira consequência disso tudo, é que o Congresso e o governo, que já parados estavam, mais paralisados ainda ficaram. Esta será mais uma semana perdida, enquanto as condições econômicas e sociais se deterioram rapidamente. Ontem, os dados da PNAD- Contínua do último trimestre do ano passado mostram, por exemplo, na ponta que mais sofre com os desarranjos econômicos, que o desemprego no país alcançou a média de 8,5% em 2015.

Isso significa um aumento de cerca de dois pontos percentuais sobre o ano anterior (2014 fechou em 6,8 %), com o país tendo jogado na rua mais de 2,6 milhões de trabalhadores. No quarto trimestre o desemprego chegou a 9%. Em alguns estados, como São Paulo, passou dos 10%. Também a renda média do trabalho assalariado caiu de 2014 para em 2015 – diminuiu 2% e tirou R$ 4 bilhões da economia.

Outra consequência foi adiar a indicação oficial do ex-presidente Lula para o superministério que Dilma vai criar especialmente para ele, turbinando as funções da Secretaria de Governo. Lula foi a Brasília ontem para dizer que aceitava o convite e ser entronizado com uma espécie de co-presidente da República. Reuniu-se durante quatro horas com a presidente no Palácio da Alvorada à noite, porém a nomeação foi sustada por causa das novas turbulências. Os dois conversam hoje novamente quando se espera que Lula finalmente vá para uma sala no Palácio do Planalto.

Continua depois da publicidade

Pesou ainda para frear (momentaneamente segundo petistas) a nomeação do superministro a decisão do Supremo Tribunal Federal de desmembrar o processo que corre contra Eduardo Cunha, a mulher e a filha. Cunha, com foro privilegiado, continuará investigado pelo STF, mas as duas passam para a jurisdição do temido Sérgio Moro em Curitiba. O mesmo poderia acontecer com Lula: seu processo iria para Brasília, porém da parte da mulher, Marisa Letícia, e do filho, Lulinha, não deve ir. Preocupa o ex-presidente deixá-los sozinhos no processo.

Apesar dos novos obstáculos, a indicação ministerial do ex-presidente continua de pé, pois a presença ostensiva de Lula como superministro é considerada essencial para evitar o impeachment da presidente Dilma e ainda dar algum alento na economia. Mesmo que uma guinada muito forte na política econômica cause calafrios em parte dos agentes econômicos, com ficou mais uma vez comprovado ontem com nova queda na Bovespa (menos 3,56%) e outra elevação do dólar (mais 3,06%).

A missão de Lula, além de proteger Dilma do impeachment e proteger-se de Sergio Moro, será, diz o “Valor Econômico”, comandar um “plano de reanimação nacional”. Não deverá haver, porém, informa o repórter Ribamar Oliveira, uma “guinada à esquerda”, um “cavalo de pau”, na atual política.

Continua depois da publicidade

O capitulo de hoje da crise política (não advindo nenhuma surpresa de alguma nova revelação de delações premiadas na Lava-Jato ainda em curso – dos executivos da Andrade Gutierrez, do ex-presidente do PP, Pedro Corrêa) virá da decisão do STF, à tarde, sobre os procedimentos de tramitação do processo de impedimento de Dilma no Congresso.

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, contestou vários pontos da decisão anterior da Corte Suprema, mas três são considerados decisivos para um lado ou outro, porque, quando definidos, foram considerados favoráveis à presidente: (1) o voto aberto na escolha dos membros da comissão que vai analisar o pedido; (2) a proibição de candidaturas avulsas, o que dá plenos poderes aos líderes dos partidos para escolher os deputados da comissão; (3) a definição de que o Senado, antes de abrir definitivamente o processo de cassação, deve votar se aceita ou não a aprovação do prosseguimento do processo, caso a Câmara acate o pedido.

Qualquer mudança nesses três itens dá força ao impeachment.

Outros destaques dos

jornais do dia

– “Galp indica adiamentos em campos de pré-sal da Petrobras” (Valor)

– “Estados terão descontos de 40% na dívida em dois anos” (Globo)

– “Empresas, bancos e políticos são blindados na CPI da Carf” (Globo)

– “Déficit dos fundos de pensão dobra [chega a R$ 65 bi]” (Globo/Folha)

– “BTG, Funcef e Previ reconhecem perda de R$ 2,6 bi com Sete Brasil” (Estado)

– “Mudança no Fies derruba acesso à faculdades” (Estado)

LEITURAS SUGERIDAS

Elio Gaspari – “Dilma decidiu inflar Lula” (diz que quem criminalizou a política foram os criminosos e o PT se meteu nesse jogo) – Globo/Folha

Zuenir Ventura “Daqui pra frente” – (diz que a rejeição da política traz risco de salvador da pátria) – Globo

Editorial – “Avalanche” (diz que delação de Delcídio despeja nova carga de acusações contra o governo Dilma, cada vez mais fraco) – Folha

Vinicius Torres Freire – “Lula no governo e a economia” (diz que nem na Fazenda se sabe se Lula quer “virada vermelha”, arroz com feijão ou “saída pela direita) – Folha