Colunista InfoMoney: O que a LTCM e a atual crise têm em comum?

Lembremos que o componente "alta liquidez" esteve presente novamente, assim como a alavancagem
Em 1997, um hedge fund, devido ao bom desempenho de seu portfolio, atraiu cada vez mais novos clientes. Nesse ano, via-se com equity de US$ 5 bilhões, e que teria que ser investido em novos mercados, para que pudesse manter proporcionando elevados retornos para seus ávidos clientes.

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Um dos problemas era que seu grande negócio, bond arbitrage, estava chamando a atenção de outros concorrentes. Em um mercado livre (e sem barreiras à entrada, colusão, etc.), quando uma empresa está obtendo altos lucros em uma determinada atividade econômica, começa a atrair outros empreendedores, até que o lucro econômico seja igual a zero. No caso em referência, bond arbitrage, não foi diferente. Diversos bancos de investimentos de Wall Street começaram a migrar para este segmento comercial, fazendo com que a margem de lucro do hedge fund se reduzisse.

Logo, como um novo produto, o hedge fund passou a olhar para os paired shares. Como se sabe, algumas empresas listadas em bolsa de valores possuem ações ordinárias e preferenciais. Por diversas razões, uma delas é negociada a uma taxa de desconto em relação à outra, abrindo margem para ganhos financeiros com a operação.

“É razoável deixar que o livre mercado cuide do setor bancário?”

Um outro segmento potencial, segundo o hedge fund, era o de fusões e aquisições, mais especificamente no risk-arbitrage. Aqui, a ideia é a seguinte. Suponhamos que uma empresa X irá realizar uma fusão com uma empresa Y. Caso o preço por ação oferecido pela empresa X à Y seja de R$ 1, e no mercado esteja valendo R$ 0,80, então existe uma possibilidade de ganho financeiro.
Paremos por aqui, por enquanto, e vamos para uma segunda história (esta mais breve ainda).
Na metade da década de 1990, os balanços financeiros de diversos bancos ocultavam as obrigações financeiras de alguns itens. Estes itens eram operação com derivativos, que não eram obrigados a serem tornados explícitos em um balanço. Nesta época, “os banqueiros estavam muitos ocupados fazendo dinheiro para se preocupar com os riscos”. Os bancos tinham grandes lucros, ignorando os riscos intrínsecos às operações que realizavam.
Juntando a situação do hedge fund acima descrito, mais a do mercado líquido, como resultado temos uma crise financeira devido a uma elevada alavancagem. O hedge fund em questão é o Long -Term Capital Management (LTCM), que foi capaz de gerar uma grave instabilidade nos mercados mundiais, perdendo US$ 4,6 bilhões em poucos meses, logo após a crise da Rússia, e demonstrou o risco potencial que pode ser causado pelos hedge funds.
No dia 23 de setembro de 1998, representantes dos maiores bancos dos Estados Unidos, a saber, Bankers Trust, Bear Stearns, Chase Manhattan (que se uniu à JP Morgan), Goldman Sachs, Lehman Brothers, Merrill Lynch e Morgan Stanley se reuniram com funcionários do Federal Reserve (Fed) para discutir como os bancos poderiam ser salvos, devido às graves consequências oriundas da irresponsabilidade do LTCM. Desta vez, os banqueiros “loiros de olhos azuis” novamente devem ter batido na porta do Fed, porém, um deles (Lehman Brothers) teve que se sacrificar para que os condutores da política monetária pudessem ver o terremoto financeiro que a falência de um banco poderia proporcionar.

Na atual crise, lembremos que o componente “alta liquidez” esteve presente novamente, assim como a alavancagem. Para obter bom desempenho (e também altas recompensas), muitos bancos viram que o mercado imobiliário era um ótimo negócio. Como não podia ser diferente, funcionários bancários começaram a criar novos produtos, dentre eles alguns atrelados aos subprimes. Como o lucro econômico era alto, outras empresas também migraram para o produto, iniciando o ciclo vicioso.

Como esquecer também que, visando novos lucros, bancos de investimento e hedge funds começaram a realizar operações no mercado de Chicago? E dada a alta rentabilidade, cada vez mais instituições financeiras se voltavam para este segmento, dados os excepcionais lucros. Consequentemente, os preços de muitas commodities agrícolas, metálicas e de energia registraram fortes altas, criando preços relativos artificiais neste mercado.

Entre 1998 e 2008, houve pouco avanço no sistema regulatório financeiro dos Estados Unidos. Pela capacidade de gerar crises sistêmicas, será que é razoável deixar que o livre mercado cuide do setor bancário? Ao que parece, os grandes economistas dos EUA não souberam (ou não queriam) enxergar os estragos que as aventuras dos bancos de investimentos podem criar, dada a experiência com a LTCM.
Daqui a cinco anos, a demanda global por grãos e minérios vai voltar a aumentar, e com ela, os preços. Diante desta perspectiva, que deve ser compartilhada por muitos analistas de bancos de investimentos, o que os impede de elaborar produtos lastreados em commodities, de modo que, no futuro, não ocorra novamente um estouro de uma bolha, mas no mercado de commodities?

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Chau Kuo Hue é economista e escreve mensalmente na InfoMoney, às quartas-feiras.
chau.hue@infomoney.com.br