Mesmo com revisão nas estimativas de lucro, Bolsa deve continuar cara

Múltiplos de emergentes voltam a patamares de antes da crise; porém bolsa paulista deve subir com investidor estrangeiro

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SÃO PAULO – A discussão fundamentalista acerca da atratividade do mercado acionário acaba sempre por passar pelos múltiplos das bolsas, especialmente o P/L
(que mede a relação entre preço e lucro). De fato, apesar de não ser a única variável observada, a análise dos múltiplos é importante para determinar se os mercados estão baratos ou caros.

Se ao final da fase mais aguda da crise era consenso que os mercados emergentes estavam muito baratos, a situação agora mudou. O MSCI Emerging Markets (índice do Morgan Stanley que reúne os mercados emergentes) terminou a última semana com um P/L reportado de aproximadamente 15,5 vezes, retornando aos patamares anteriores à crise.

A medida indica que os mercados estão caros diante das incertezas em relação à perspectiva da economia. Além disso, como o múltiplo considera os lucros já reportados e as previsões atualmente são ainda negativas, este pode ser visto como um número conservador.

“Nesse cenário específico, quando você faz um múltiplo voltado para o passado, você está sendo conservador”, explica Saulo Sabbá, diretor de gestão e renda variável da Máxima Asset. Segundo ele, os resultados das empresas em 2009 vão ser piores do que em 2008, especialmente no Brasil. Dessa forma, para ter um P/L mais realista, o melhor é utilizar o lucro previsto para este ano.

Aguardando a revisão

O analista da Socopa Corretora, Osmar Camilo, também acredita que o P/L estimado para 2009 e 2010 é a melhor pedida. “Ele vê como está a relação entre os resultados que estão sendo esperados e o preço em que estão sendo negociados os papéis”, afirma Camilo.

Vale observar, entretanto, que as projeções devem ser revistas de forma a incorporar os resultados do primeiro semestre e as expectativas mais otimistas em relação à segunda metade do ano, tanto em relação aos lucros corporativos quanto às variáveis macroeconômicas.

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“Então nós vamos ter uma nova visão do que vão ser esses múltiplos para 2009 e, principalmente, para 2010”, explica Camilo, lembrando que a partir do terceiro trimestre a influência das expectativas de lucro em relação ao próximo ano na precificação das ações deve ser maior.

E então, barata ou cara?

No Brasil, mesmo considerando a possibilidade de revisão positiva nas estimativas de lucro, a sensação é de que a bolsa não está mais barata em relação ao P/L histórico, em torno de 12 vezes. “Dada a rápida recuperação que os ativos tiveram no Brasil, aquela fase da bolsa mais barata, da bolsa com o P/L mais baixo, já está saturada”, argumenta o analista da Socopa.

Outra percepção é de que a bolsa está cara em relação a quanto os investidores estão dispostos a pagar por ela. Por que, por exemplo, na China é aceitável um múltiplo de 20 vezes e no Brasil o múltiplo tem que ser 12 vezes? Se o Brasil atualmente também é um porto de investimentos, por que os investidores não aceitam que o múltiplo se estabilize em novos patamares?

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“Para mudar isso, é uma questão dos investidores passarem a aceitar que a realidade do Brasil é uma realidade de crescimento, de que os resultados futuros vão ser sempre crescentes e melhores, então você aceita pagar um múltiplo um pouco maior hoje, em troca de um crescimento futuro”, ressalta o gestor Saulo Sabbá.

Cabe destacar que, conforme estudo de Sabbá, um P/L de 20 vezes no Brasil significaria um Ibovespa a 70 mil pontos ao final deste ano, algo meio improvável. Segundo ele, é necessário tomar cuidado em relação a como os investidores estrangeiros vão encarar os múltiplos mais altos no Brasil, já que o País não tem o perfil de crescimento da China ou de outros emergentes.

Perspectivas para o Ibovespa

Cara ou barata, a bolsa brasileira deve continuar movimentando-se conforme a vontade dos investidores estrangeiros. E a expectativa é de que a partir de agosto, quando termina o recesso de verão no hemisfério norte, os investidores voltem a operar integralmente, dando mais impulso aos mercados emergentes. “Mas o Ibovespa não deve passar de 60 mil pontos”, conclui Camilo.