“Novo normal” desfaz ilusões e pede atenção às taxas de fundos, diz Pimco

Para Bill Gross, nível mais baixo de crescimento nos EUA levará múltiplos a patamares mais baixos; emergentes são opção

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SÃO PAULO – Enganam-se os que pensam em retomar velhos hábitos após a crise. Com menores retornos, pagar as altas taxas aos administradores de fundos chega a ser proibitivo. Como ressalta o diretor da Pimco, Bill Gross, a magia vendida pelos gestores não garantirá investimentos no “novo normal”.

A cena era comum até meados de 2008. Cegos pelo reluzente retorno superior a dois dígitos, investidores não se importavam em pagar altas taxas de administração para fundos de investimento. Tudo isto regado pela “poção mágica” – expressão empregada por Gross para ilustrar a esperança na gestão ativa dos recursos.

Traçando as linhas do cenário econômico pós-crise, o analista destaca a importância da atenção aos fundamentos da empresa, com destaque para a solidez e o retorno em dividendos, assim como pela busca de taxas mais altas de crescimento em mercados emergentes.

Viva do lucro de grandes empresas

Velhos hábitos, novo cenário

Nos último 15 anos, a taxa de crescimento nominal do PIB (Produto Interno Bruto) dos Estados Unidos manteve-se na faixa de 5-7% de modo tão consistente que empresas e consumidores, assim como o alavancado sistema financeiro do país, passaram a contar sempre com uma expansão de 5%. Foi neste cenário que prosperou o famigerado shadow banking system, que se aproveitava de brechas na regulação para realizar operações de crédito de alto risco.

Este era o antigo normal. “Todavia, as coisas mudaram, e é aparente a massiva capacidade excedente nos EUA e, consequentemente, na economia global”, diz Bill Gross, um dos gurus atuais do mercado.

Frente à crise que tomou de assalto o sistema financeiro dos EUA, as reações do governo norte-americano foram necessárias para a estabilização, mas não evitaram o desequilíbrio da economia do país com a perda do crescimento nominal de 5%.

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Confira expectativas aproximadas para os EUA:

Indicador Cenário Antigo Cenário Novo
Desemprego 5% 8%
Housing Starts 2 milhões 1,5 milhão
Vendas de carros 16 milhões/ano 12 milhões/ano

Sem segredo

Neste cenário de crescimento nominal do PIB próximo a 3%, as conclusões para quem investe levam a um menor nível de crescimento dos lucros, restrição ao consumo, além do crescente envolvimento do setor público na economia do país – “o que transforma substancialmente o caráter do modelo capitalista norte-americano”, completa o diretor da Pimco.

Conforme o processo de recuperação avança, Bill Gross prevê que os múltiplos que relacionam preço da ação e lucro (P/L) repousarão próximos ao patamar mais baixo de suas médias históricas. “Preços mais altos de ações dependerão de crescimento tangível dos ganhos, não de esperança com indicadores de intenção”, pontua.

Recusando a existência de uma “poção mágica” neste novo ambiente de investimentos, o analista aconselha a busca por companhias com balanços sólidos e elevado pagamento de dividendos. Posições selecionadas com cuidado em mercados emergentes também são sugeridas, na busca por maiores retornos.