Faz sentido a Bolsa subir com a notícia sobre o impeachment?

Para analistas de mercado, não tanto: a deflagração do processo (que teria poucas chances de prosperar), aliás, pode afetar ainda mais a economia com a postergação do ajuste fiscal

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SÃO PAULO – A primeira reação do mercado ao anúncio de que Eduardo Cunha aprovou o pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff ocorreu ainda na noite de quarta-feira (2), com o principal ETF brasileiro e os ADRs da Petrobras disparando em Nova York. E como não poderia deixar de ser, o Ibovespa seguiu este otimimo nesta quinta-feira (3), com o índice chegando a disparar 5% na máxima do dia, enquanto o dólar chegou a cair 2% na mínima do dia. Mas quando paramos para analisar, faz sentido tanta euforia?

Para alguns analistas, já era esperada esta reação positiva nesta sessão, mas que isso ocorreria apenas porque o mercado é irracional, já que a notícia não é exatamente positiva – alguns especialistas inclusive acreditaram que o mercado reagiria de forma negativa nesta quinta. A explicação para isso é muito simples: aberto o processo, agora há mais dúvidas do que certeza sobre o que vai acontecer no futuro.

“Não entendo a reação do mercado. Essa notícia tem muitos mais fatores negativos que positivos”, afirma o economista Alex Agostini, da Austin Rating. “O que vemos é uma reação como ocorria nas eleições, o mercado se precipita e mesmo sem ter certeza do futuro, comemora quando há uma chance de Dilma sair”, continua ele acrescentando que o mercado provavelmente ainda irá digerir a notícia de forma mais racional.

A tendência pelas próximas semanas – ou até que saiam notícias mais definitivas – é que aumente a volatilidade do mercado, enquanto os investidores tentam prever os próximos passos em relação ao impeachment. Além disso, é muito provável que este tema passe a tomar todo o tempo do Congresso, deixando de lado assuntos importantes como o ajuste fiscal e a mudança da meta, o que pode piorar o cenário atual.

“Nossa primeira reação é que este evento vai trazer mais volatilidade e incerteza, em vez de aliviar as preocupações do mercado […] em última análise, ele só acrescenta mais ruído à agenda do já conturbado Congresso”, escreveu o analista do Barclays Bruno Rovai, em relatório.

“Em última análise, o efeito sobre as perspectivas orçamentais é provavelmente negativo, porque a agenda política vai deixar muito pouco espaço (se houver) para discutir e votar as medidas fiscais e ajustes de orçamento para o próximo ano”, completou Rovai.

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O estrategista do Bank of America Merrill Lynch, David Beker, corrobora esta análise e reforça a volatilidade em meio ao cenário incerto para o pedido. Em um ambiente já negativo com queda do PIB, alta inflação e aumento do desemprego, um novo componente traz à tona um cenário de possíveis novos rebaixamentos de rating. 

Mesmo que a Dilma saia do poder, as dúvidas permanecem. Segundo Agostini, não há como saber qual será a equipe econômica de Michel Temer, ou seja, não tem como ter certeza de que sem ela o governo irá resolver os atuais problemas econômicos. Opinião que é compartilhada pelo analista Flávio Conde, da consultoria Whatscall, que vê no médio e longo prazos muitas dúvidas para o mercado.

Por outro lado, Conde cita que há um fator bastante positivo na notícia: seu efeito sobre os empresários e a população. Com o processo aberto, é provável que o pessimismo diminua e pode até ajudar na melhora de alguns indicadores econômicos. “Metade da forte queda do PIB que temos visto pode ser atribuída ao pessimismo, e não só do mercado, mas dos executivos e empresários. E essa notícia faz com que eles comecem a rever suas projeções”, explica Conde. Essa mudança pode até reduzir o ritmo de demissões e resultar em um aumento do consumo, segundo ele, dependendo do que ocorrer daqui para frente.

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Em entrevista à Agência Brasil, o professor do Departamento de Economia da USP (Universidade de São Paulo) Fabio Kanczuk afirmou que, caso o processo de impeachment seja aberto, o país deve “parar” devido às incertezas políticas. “O efeito até lá é negativo, mas já é uma fase meio parada de todo jeito, entre o fim do ano e o carnaval”, disse.

Na avaliação de Kanczuk, se Temer assumir a presidência, terá melhores condições políticas para governar e promover reformas macroeconômicas. “É um governo com muito mais força política, pronto para aprovar as reformas necessárias. Se não for [aprovado o impeachment], será a continuidade da economia que a gente está vivendo agora e a retomada do Brasil fica postergada para meados de 2017, quando começa-se a pensar em eleições de 2018”, disse.

Ponto contra o ajuste
A análise de especialistas, tanto na área política quanto na econômica, é que, independentemente de Dilma ser ou não impedida, as sinalizações de curto prazo não são positivas, pois representam mais um golpe ao ajuste fiscal em um cenário de deterioração forte da atividade econômica. 

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Isso porque, se o governo tentava passar as medidas do ajuste no Congresso Nacional, agora vai rever as suas prioridades para tentar debelar o processo de impeachment. 

“Quem sai prejudicado nesse cenário de turbulência é o ajuste fiscal, que será colocado em compasso de espera. Com o imperativo de ter de lutar de sua sobrevivência política, o governo terá menos espaço para defender novas medidas para manter os gastos sob controle por enquanto”, afirma a consultoria de risco político. Porém, dizem os analistas, felizmente para a administração, uma sessão conjunta do Congresso aprovou a revisão da meta fiscal de 2015, antecipando uma paralisação do governo neste ano.

Porém retardar o ajuste pode ser um “tiro no pé” para a própria presidente, uma vez que pode aumentar a pressão sobre a presidente. Um dos pontos apontados pelo analista político da MCM Consultores, Ricardo Ribeiro, para elevar as chances de impeachment é a recessão econômica. A piora do quadro pode aquecer a temperatura social do país e mobilizar a população em protestos de massa a favor do impeachment. 

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Lara Rizério
Mercados | Economia | Onde Investir

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.