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SÃO PAULO – Existe um consenso na sociedade hoje de que a educação é a saída para resolver muitos dos problemas do Brasil. Porém, no governo atual, e apesar de tentar direcionar o tema para isso ao lançar o slogan “Brasil, pátria educadora”, o governo não tem se posicionado adequadamente nessa matéria.
É o que avalia a socióloga Maria Alice Setubal, presidente da Fundação Tide Setubal e do Cenpec (Centro de Estudos de Pesquisa em Educação) em entrevista para a Rio Bravo (https://soundcloud.com/riobravoinvestimentos). Maria Alice, mais conhecida como Neca, foi coordenadora do programa de governo de Marina Silva para as eleições de 2014, e fala a respeito do livro “Educação e Sustentabilidade – princípios e valores para a formação de educadores”, que reúne as experiências e boas práticas na área de educação, colocando em debate temas como princípio meritocrático, novo modelo de gestão nas escolas, além de enfatizar a necessidade de preparar os alunos de hoje para os desafios mais complexos do futuro.
No livro, Neca trata a sustentabilidade pensando nas suas 5 dimensões: ambiental, cultural, econômica, política e social. “Se o Brasil não se der conta de que é fundamental que a gente comece a fazer uma transição do nosso modelo para um desenvolvimento sustentável, que possamos apoiar inovações nessa direção e empresas que estão apostando nessa direção, nós vamos, novamente, perder o bonde da história, porque a história está indo, a sociedade está evoluindo nessa direção. Pensar educação e sustentabilidade é pensar nessa direção”.
“Qual é a saída?”. Para quase 100%, a saída é a educação, afirma Neca. Mas ainda falta muito a ser feito.
Rio Bravo – No livro “Educação e Sustentabilidade”, chama a atenção o fato de existir uma proposição que correlaciona esses dois temas que estão presentes no título. Como é possível promover essa articulação? Trate-se de uma abordagem de natureza curricular?
Neca Setúbal – Nós temos que pensar educação para o futuro. Temos que pensar para o presente e para o futuro. Na verdade, nós estamos educando crianças e jovens que vão participar de uma sociedade daqui a 10, 20 anos e que precisam estar atentos para essas questões que são fundamentais para o mundo hoje, e a sustentabilidade é uma delas. No livro, eu trato a sustentabilidade pensando nas suas 5 dimensões: ambiental, cultural, econômica, política e social. Pensar sustentabilidade nessas 5 dimensões é pensar como nós vamos construir essa sociedade, que tem que preservar pontos que foram importantes do nosso passado, da nossa história, reatualizá-los e, ao mesmo tempo, pensar quais são os caminhos que vamos poder inovar, para onde nós vamos.
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A educação trata-se disso: o que preservar e o que inovar. Eu acredito que a sustentabilidade dá conta desse conceito, porque ela traz em si esse conceito: você buscar uma articulação entre passado, presente e futuro. Uma articulação de longo prazo é você pensar em como nós, seres humanos, estamos em uma interconexão, uma interdependência, com nosso meio ambiente, com nosso entorno, e com o ser do planeta como um todo. Nós estamos vivenciando, no Brasil, para não falar de outras questões, diretamente, questões que nos atingem aqui em São Paulo, como os recursos hídricos, a questão da energia, que está colocada pelo país como um todo, muito séria, e a questão de Minas Gerais, desse barranco, dessa barragem, que explodiu e que está causando danos ambientais fatais, de pensar como que nós, seres humanos, estamos em uma relação de interdependência com o meio ambiente.
Trate-se de pensar nessa relação, de pensar a educação de uma forma mais ampla. A educação escolar é fundamental e central, mas não é única. Quando eu falo do olhar sistêmico e a sustentabilidade, ela exige esse olhar sistêmico, porque exige esse pensar: o ser humano com o meio ambiente e com o planeta como um todo. Isso já é uma visão sistêmica, então a educação escolar tem que dialogar com uma educação que é a educação não formal, que se dá nos diferentes espaços da sociedade hoje, nos museus, centros de cultura, em cursos de capacitação, vários que existem na sociedade, assim como a educação informal.
Todos nós hoje, com a internet e as questões digitais, aprendemos, eu, com meus filhos, netos e com colegas a como lidar e a conectar ou aprendemos com questões que aparecem nas redes sociais, com informações com texto, com conhecimentos. É tudo uma educação informal. Então, exige esse olhar sistêmico de pensar educação de uma forma muito mais ampla, de pensar aprendizagem ao longo da vida, educação ao longo da vida.
RB – Nesse caso, nós não estaríamos pensando apenas em termos curriculares, estaríamos falando de uma discussão muito mais sofisticada e ampla?
NS – Isso, exatamente. Eu acho que, hoje, a sociedade e muitos economistas, ao falar sobre a crise, eles perguntam: “Qual é a saída?”. E quase que 100% a saída é a educação. Eu falo que acaba sendo um consenso muito simples, porque se fala em saída pela educação e não se explica como que é. Não que eu tenha essa resposta, mas só para te dar um exemplo de como isso é muito mais amplo do que questão curricular.
Lógico que a escola é fundamental, o currículo é fundamental, o país está discutindo um novo currículo nacional, que não temos, então não é um novo, é um currículo nacional. Mas a educação precisa ser pensada nas suas diferentes dimensões. A principal delas é a escola, mas não é a única.
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RB – Em um segmento do livro, logo no começo, existe uma discussão que faz parte da estrutura do livro, que traz uma epígrafe da Marina Silva, que foi candidata à presidência da República nas últimas duas eleições. Existe alguma ação política que teria de ser feita por parte do Estado no tocante à ativação dessas práticas que combinam educação e sustentabilidade?
NS – Eu acho que pensar educação hoje é pensar com um olhar de uma política pública, de uma forma estratégica e pensar nessa educação, que é do século XXI, que já estamos hoje há 15 anos. Essa é a educação do futuro. Sem dúvida, pensar sustentabilidade tem um componente. Esse conceito de sustentabilidade que implica essas cinco dimensões é um conceito político, é uma visão política da Marina.
Eu, como participante das duas últimas eleições ao lado da Marina, acredito nessa posição, e dentro da dimensão onde eu tenho minha trajetória profissional, que é a educação, eu busquei trazer esse conceito da sustentabilidade, que é amplo e político, porque pressupõem uma visão de sociedade para a área de educação. É uma visão de sociedade que se contrapõem a uma visão que está hoje colocada no país.
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RB – Nesse sentido, o Plano Nacional de Educação não dá necessariamente conta desse problema?
NS – O Plano Nacional de Educação não, mas o Brasil tem problemas tão sérios e tão graves na educação que o Plano buscou olhar um pouco para trás, no sentido de resolver todos nossos problemas não resolvidos. Eu defendo sempre o Plano, acho que ele tem adversários desde o início, que não acreditavam no Plano ou, mesmo depois dele feito que têm muitas críticas. Aqui, eu e o Cenpec como um todo, apoiamos o Plano participamos da elaboração e continuamos apoiando esse plano porque acho que ele é fundamental. Dá um mapa da educação no país, dá um norte.
Mas é um plano que olhou para os problemas não resolvidos. Eu já coloquei isso. Lógico que o Plano é impossível conter tudo e já contém muitos aspectos. Falta ao Plano, no meu entendimento, um olhar mais para frente. Bom, vamos resolver todos esses problemas, mas temos que resolver eles dentro de um parâmetro que aponte para o futuro e para as inovações.
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RB – Quando o governo federal assume o slogan “Pátria Educadora”, vai ao encontro dessas práticas de educação do século XXI ou isso é só um slogan?
NS – Eu acho que, como falei, existe um consenso na sociedade hoje de que a educação é a saída, é fundamental e prioridade. Eu acredito que a presidente Dilma, quando colocou o slogan do seu novo governo como “Pátria Educadora”, ela havia nessa direção de que educação é fundamental, mas, acho que por todo o histórico da primeira gestão e deste ano de gestão, a educação não entra nas prioridades da presidente.
Até o momento, esse slogan, “Pátria Educadora”, não encontrou uma concretude nas ações do Ministério da Educação nem da presidente Dilma, como um todo.
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RB – De volta ao livro, você menciona um programa, que é o “Ação Família em São Miguel Paulista”, que foi desenvolvido pela Fundação Tide Setubal. O que você pode compartilhar sobre essa experiência? É possível tomarmos como referência esse exemplo para uma ação macro no país ou mesmo na cidade ou estado de São Paulo?
NS – O livro busca colocar várias práticas educativas. Ele traz, em cada um dos seus capítulos, práticas educativas de diálogos com território. São exemplo de diferentes lugares, organizações sociais, fundações, empresas, pastoral da terra, movimentos sociais, redes sociais…
A ideia foi buscar uma amplitude grande de diferentes atores que atuam na sociedade civil junto com a educação, na busca de uma educação de melhor qualidade, e buscar iluminar um pouco essas ações, esses projetos e um pouco essa fala da visão desses diferentes atores. Dentre eles, tem algumas experiências que são da Fundação Tide Setubal, que acho importante porque a Fundação desenvolve um trabalho na Zona Leste da cidade de São Paulo e é um trabalho que o foco é o território Zona Leste 2, especialmente São Miguel Paulista, e as imediações ali, Ermelino Matarazzo está em (São Miguel) Paulista, então é o Fundão da Zona Leste, como se diz. Eu acho que hoje em dia esse olhar do território é fundamental porque cada território, cada lugar, cada espaço, cada região tem suas características, suas especificidades, tem seus diferentes níveis socioeconômicos, culturais, educacionais.
Então, esse olhar do território busca dar conta e trabalhar de uma forma muito mais próxima desses diferentes agentes que estão lá, que moram lá ou, no caso da educação, das crianças que estão nas escolas, dos professores e das ONGs que atuam com educação. É nesse contexto que tem algumas experiências da Fundação Tide Setubal com jovens, com famílias…
Quando você mencionou o Ação Família, é um trabalho muito forte que fazemos há quase 10 anos na Fundação Tide Setubal e que é muito importante porque busca fazer esse empoderamento das famílias, que são especialmente as mães. Um dos componentes é pensar essa relação das famílias com as escolas.
RB – Como os resultados são medidos? Vocês têm algum retorno disso?
NS- No caso desse programa “Ação Família”, estamos fazendo uma avaliação. Nós vamos publicar um livro no ano que vem buscando onde foi possível avançar, questões de avanço da educação, as crianças mais na escola, maior frequência na escola, questões de saúde, empreendedorismo…
Nesse programa, muitas das mães frequentam oficina de escola culinária, que são vários programas de culinária, algumas delas se aventuraram em uma coisa mais empreendedora de fazer uma pequena empresa, uma micro empresa, vender salgados, doces…
RB – Falando a respeito dos modelos de gestão na área de educação, até que ponto é viável estabelecer uma proposta cujas condições são a competição entre as escolas por recursos públicos e a descentralização que dá autonomia mediante contrato de gestão entre governos e escolas articulando isso ao repasse de recursos ao cumprimento das metas de desempenho. Em um país com a presença maciça do Estado, como é o caso do Brasil, essa proposta tem possibilidade de ser assimilada de forma pacífica?
NS – Eu acho que tem vários estados no Brasil cujos governadores estão desenvolvendo uma política nessa direção que você falou. Essa política, eu acho, que precisa ser bem discutida, porque quando falamos de oportunidades iguais, igual para todos, você não pode colocar uma competição entre as escolas, não pode colocar uma bonificação em cima de resultados se você não der as condições para que as escolas que estão em território de maior vulnerabilidade social, com crianças que tem maior vulnerabilidade social e maior precariedade de referências culturais, no mesmo patamar que uma escola que está no centro de uma cidade.
Mesmo nas periferias você tem as diferentes regiões, o centro das periferias, em geral, são centros bem desenvolvidos, com muitos equipamentos e atividade econômica, e a periferia da periferia são territórios de alta vulnerabilidade social, via de regra. Cada periferia com suas características. São políticas que podem trazer bons resultados desde que você consiga dar as condições para que as escolas que estão nesses territórios de maior vulnerabilidade também tenham condições para dar uma boa educação. Em geral, isso não acontece.
RB – De que modo os educadores são capazes de fazer com que os alunos se interessem por esse tipo de conteúdo, por essa dinâmica próxima à discussão de sustentabilidade, no momento em que esses jovens, sobretudo das gerações X, Y e Z, são cada vez mais dispersos? Estou mencionando também uma discussão que está sendo travada por diversos especialistas e educadores. É possível estabelecermos essa combinação entre interesses de um lado e de outro?
NS – Eu acho que, sem dúvida, no caso dos jovens, diferente dos professores, esse tema tem uma rápida motivação muito direta. Eu acho que os jovens hoje são muito ligados na questão da sustentabilidade, nas questões ambientais, nessa problemática.
A gente vê muitos projetos que tem esse foco de trabalhar com jovens que desenvolvam algum projeto de intervenção nas suas comunidades. Essas questões ambientais, em geral, permeiam a maioria dos projetos que os próprios jovens escolhem, e aí eles têm uma enorme motivação. Uma das coisas boas de ser um educador ver esse trabalho. Nós temos também, aqui no Cenpec, um trabalho junto com o Ministério da Educação, que é a Olimpíada da Língua portuguesa, no qual os alunos têm que escrever um texto, mas com todo um direcionamento dos professores.
Não é um texto que ele vai escrever redação do Enem, não. Ele tem todo um trabalho de 15 oficinas em que os professores vão fazendo. Ele vai escrevendo esse texto com o apoio dos professores e com o apoio dos colegas, e são os diferentes gêneros. Tem poesia, um texto sobre memória, um texto de crônicas e um texto para os jovens mais velhos do ensino médio, o artigo de opinião. Todos eles têm o tema “O lugar onde eu vivo”. E no artigo de opinião, todo o trabalho do professor é mostrar para os jovens argumentação, escolher um problema e aí conseguir olhar e entrevistar os dois lados, enfim… Um pouco jornalístico. E o tema meio ambiente é um dos que eles mais escolhem para escolher um problema da sua localidade e para desenvolver toda uma argumentação.
Com os professores, já é mais difícil. Os professores já têm uma maior distância desses problemas, já são mais velhos, essa temática está no horizonte, mas não foi uma questão em que ele foi formado. O professor tem essa dificuldade pela falta de formação dele. Quem deveria ter trabalhado essas questões de tecnologia, de sustentabilidade, meio ambiente e tudo isso são as escolas de formação de professores, as escolas de educação, as faculdades. Isso é uma lacuna cuja culpa não é do professor, é da escola que não trabalhou essas questões.
RB – Na sua avaliação, essas escolas estão mais preocupadas em relação ao conteúdo das disciplinas diretamente?
NS – Eu acho que é um tema que está sendo muito debatido hoje no Brasil, que é a formação inicial dos professores, é a distâncias que as faculdades de educação, em geral, obviamente tem exceções, em São Paulo, a USP, Unesp, Unicamp, estão fazendo toda uma reformulação, mas estamos generalizando.
No geral, as faculdades são muito distantes das escolas, aumentamos muito a diplomação em pedagogia, licenciaturas, mas cursos à distância ou cursos noturnos, o que traz um problema seríssimo, que é o estágio. Como você vai resolver o estágio em um curso à distância? É possível, mas não existe tanto acompanhamento, a regulação, a fiscalização de que isso está sendo atendido, como é e tal… Você tem problemas graves.
O Conselho Nacional de Educação divulgou agora uma portaria de diretrizes de formação do ensino docente aumentando o número de horas que são necessárias para formação das licenciaturas e de pedagogia. Então, acredito que ano que vem vai haver uma certa reformulação nessa direção das diretrizes apontadas pelo Conselho Nacional de Educação.
RB – Você não teme, da maneira como estão concebidas essas propostas, que essa agenda seja confundida com a bandeira política ou partidária? E se essa conexão for feita, isso, necessariamente, é ruim?
NS – Não, eu acho bom, porque ela enseja, traz no seu bojo, a discussão da sustentabilidade de uma visão de mundo. Eu cito no livro a Marina Silva: “Sustentabilidade é um modo de ser na vida.” É uma visão de mundo e de sociedade. Então, é uma visão de sociedade que busca um desenvolvimento. Não existe uma oposição, como se tenta falar, entre sustentabilidade e desenvolvimento. Existe um conceito possível de desenvolvimento sustentável.
Acho que vários países do mundo estão se direcionando nessa busca do que seria uma sociedade sustentável, do que seria o desenvolvimento sustentável, com diferentes formas de energia, com diferentes restrições ao consumo, com a questão da separação dos resíduos sólidos, com o trabalho de restauro florestal, com o trabalho com a água e com várias tecnologias e inovações na indústria, desde o carro elétrico e outras questões que você começa a apoiar, a direcionar seu desenvolvimento nessa direção.
Não é a opção que o Brasil teve até agora, mas é uma opção que o mundo está tendo. Quando você fala que é uma opção política, é sim, mas é uma de estar olhando para o futuro e que será o futuro. Todos esses problemas que estamos tendo mostram isso. Se o Brasil não se der conta de que é fundamental que a gente comece a fazer uma transição do nosso modelo para um desenvolvimento sustentável, que possamos apoiar inovações nessa direção e empresas que estão apostando nessa direção, nós vamos, novamente, perder o bonde da história, porque a história está indo, a sociedade está evoluindo nessa direção.
Pensar educação e sustentabilidade é pensar nessa direção. É uma postura política, mas é pensar na educação dessas crianças que vão atuar nessa sociedade. Daqui a dez, vinte anos, será essa sociedade, independente do Brasil querer ou não. Nós vamos nos deparar com uma sociedade onde a questão do meio ambiente e da sustentabilidade serão fundamentais para vivência e convivência e permanência no planeta.
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