Ibovespa tem 2ª queda seguida com EUA, China e rumor sobre “réveillon sem Levy”

Em meio ao clima de alta de juros do Fed em dezembro, China em apuros e deterioração doméstica, índice fecha a 46.194 pontos e acumula 3,9% de queda em 2 dias; dólar sobe 1%

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SÃO PAULO – Em continuidade ao movimento de pessimismo da última sexta-feira, o Ibovespa fechou o pregão desta segunda-feira (9) em queda de 1,54%, a 46.194 pontos, acompanhado o clima desfavorável no plano internacional com dados ruins da China e ainda respirando a possibilidade de alta de juros nos Estados Unidos. No plano doméstico, a deterioração das projeções do mercado sobre a economia pesou novamente, além de novos rumores sobre uma saída precoce do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. O giro financeiro negociado na Bovespa foi de R$ 4,69 bilhões. Acompanhando o clima de aversão a riscos, o dólar comercial subiu 0,99% e fechou cotado a R$ 3,7997 na venda.

Em queda durante boa parte do dia, o Ibovespa chegou a acentuar as perdas na proximidade do fechamento, após rumores divulgados pela plataforma de notícias Valor Pro apontarem para o fato de o governo já ter estudos avançados para substituir o ministro da Fazenda Joaquim Levy do cargo e modificar a orientação da política econômica na virada do ano. Em vinte minutos, o índice chegou a cair 200 pontos, para a mínima de 1,84% do dia (46.057 pontos), mas logo voltou aos patamares anteriores. Às 16h55 (horário de Brasília), o benchmark da Bolsa brasileira caía 1,61%, a 46.162 pontos.

Segundo matéria das jornalistas Rosângela Bittar e Andrea Jubé, isso poderia acontecer a qualquer momento, mas o prazo trabalhado pelo governo e direção do PT é janeiro de 2016. Se confirmado, o episódio representaria uma nova vitória do ex-presidente Lula sobre o processo de tomada de decisão no Planalto. Recentemente, o antecessor da presidente Dilma Rousseff conquistou importantes espaços com a nomeação dos ministros Ricardo Berzoini e Jaques Wagner no núcleo político da gestão.

Uma mudança no remédio aplicado contra a crise econômica, dizem as jornalistas, caminharia no sentido de maior liberação de crédito – coisa que Levy se recusa a fazer, mas fortemente defendida por Lula. A leitura é que, até o momento, o atual ministro não conseguiu executar o que era esperado dele e a recuperação da economia nacional pouco teria avançado. Players importantes do mercado financeiro, no entanto, culpam o governo e o Congresso como grandes responsáveis pelo manutenção do cenário e das dificuldades na aprovação de medidas para o ajuste fiscal.

Analistas ouvidos pelo InfoMoney, porém, foram cautelosos com relação aos impactos dos rumores sobre o mercado. De acordo com o diretor de operações da Mirae Asset, Pablo Spyer, o movimento deste pregão se deve mais ao compasso de espera do mercado após os dados fortes do mercado de trabalho nos EUA. Visão similar foi apresentada pelo trader Ari Santos, da H.Commcor. Ele lembra que, em momentos negativo e de considerável instabilidade, qualquer informação pode ser suficiente para que o investidor cético use de pretexto para zerar posição. Além disso, levando em consideração que o ajuste fiscal desejado pelo mercado pouco saiu do papel, os efeitos de uma saída de Levy ainda seriam incertos, a depender também de qual seria o nome a ocupar a Fazenda em seu lugar.

Dia de pessimismo
Conforme visto nos pregões anteriores, o movimento do Ibovespa ganhou mais definição com a abertura das bolsas americanas. Por lá, os três principais índices acionários desenhavam trajetória de queda, acompanhando o noticiário negativo no exterior e também depois de dados superiores às expectativas sobre o nível de emprego no país – o que tende a elevar a pressão sobre uma alta de juros do Federal Reserve ainda em dezembro deste ano. Vale lembrar que altas nos juros costumam gerar efeitos negativos ao mercado acionário, já que tornam a renda fixa mais atraente para os investidores.

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“Estamos com spread de 2h30 lá fora”, afirmou Bruno Madruga, assessor de investimentos da Monte Bravo. Na última sexta-feira (6), o balanço de apurações da BM&FBovespa referente a outubro mostrou que a participação de investidores estrangeiros nas operações subiu de 52,32% para 55,13%, reforçando a influência do humor internacional sobre o desempenho das ações no mercado brasileiro. “Quando as bolsas abrem lá fora é que temos uma definição melhor de como vai ser o dia por aqui”. Para ele, a tendência desses dias é de queda, mas a médio e longo prazo, o Ibovespa ainda não definiu uma trajetória altista ou baixista. “O andar ainda é lateral”, observou Madruga.

O economista-chefe da Leme Investimentos, João Pedro Brugger, aponta ainda que esta é uma semana com bem menos indicadores relevantes que a semana passada, quando tivemos números americanos que mexeram bastante com o mercado e que, hoje, a piora se relaciona muito com o mercado externo. “Do lado doméstico, temos poucas notícias que faça o Ibovespa deixar esse movimento lateral, mantendo-se na zona atual”, somando-se ainda ao noticiário corporativo e o clima político, que ainda segue de tensão. “Não há boas notícias que justifiquem mudança de patamar”, afirma Brugger.

Nesta sessão, o clima foi de temor também por conta de dados abaixo do que o mercado esperava na China – maior parceiro comercial do Brasil. Os dados do comércio do gigante asiático desapontaram os analistas por ampla margem em outubro, reforçando as opiniões de que a segunda maior economia mundial terá que fazer mais para estimular a demanda doméstica dada a fraqueza dos mercados internacionais. As exportações do mês passado caíram 6,9% comparado com o mesmo período em 2015, em queda pelo quarto mês, enquanto as importações escorregaram 18,8%, deixando o país com um superávit comercial recorde de US$ 61,64 bilhões, afirmou a Administração Geral das Alfândegas neste domingo.

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Ainda sobre a China, o gigante asiático está fazendo da taxa de 6,5% um piso ou nível mínimo para o crescimento econômico anual entre 2016 e 2020, afirmou nesta segunda-feira uma autoridade sênior do país, acrescentando que o número será uma base para determinar a meta para o período. Apesar de os dados pressionarem o grosso das ações brasileiras para baixo, eles abriram margens para expectativas de que novos estímulos aconteçam no gigante asiático, o que, em tese, poderia impulsionar os papéis das siderúrgicas. Para analistas do Credit Suisse, os números indicam que o governo chinês está diante de uma situação em que deve ficar com poucas opções, além de anunciar novos programas de estímulos, principalmente os que buscam fortalecer a demanda doméstica.

Voltando ao noticiário nacional, destaque para o Focus. A previsão de retração do PIB (Produto Interno Bruto) em 2015 foi de 3,05% para 3,10%. Para 2016, os economistas cortaram a projeção do crescimento do PIB de -1,51% para queda de 1,90%. De acordo com o documento divulgado hoje pelo BC, a mediana das previsões do mercado financeiro para o IPCA de 2015 subiu de 9,91%, para 9,99%, bem acima do teto da meta estabelecida pela autoridade monetária de 6,5% ao ano. Já para 2016, a previsão subiu de 6,29% para 6,47%.

Em linha com o Focus, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) alertou para a desaceleração dos países emergentes e o enfraquecimento do comércio global devem reduzir o crescimento da economia mundial para cerca de 2,9% este ano, taxa que está bem abaixo da média histórica.

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Em relação a outras grandes economias emergentes, a OCDE projeta que Brasil e Rússia vão se manter em recessão no próximo ano e somente voltarão a crescer em 2017. “A recessão (no Brasil) deve continuar em 2016, devido ao ajuste fiscal necessário, ao aperto da política monetária para conter a inflação e à falta de confiança relacionada a incertezas políticas”, avaliou a OCDE. “Uma lenta recuperação deverá ocorrer em 2017, uma vez que a confiança nas políticas macroeconômicas melhorar.”

Vale destacar a notícia do jornal Valor Econômico de hoje, disputas entre os ministros Jaques Wagner (Casa Civil) e Ricardo Berzoini (Secretaria de Governo) já estão entravando negociações com o Congresso. Assim, além da base com pouco apoio, que custou derrotas nas últimas semanas, disputa entre Jaques Wagner e Ricardo Berzoini gera ainda mais dificuldades. Isso porque Wagner foi escolha de Lula e é uma das alternativas do PT para a sucessão em 2018. Enquanto isso, Berzoini já reclama aos mais próximos que se sente desprestigiado. Há uma compartimentação da coordenação e da articulação política que é vista como problemática, já que a orientação do governo deve ser única em relação aos conteúdos.

Destaques do pregão
Entre os poucos destaques de alta dessa sessão, chamaram atenção as ações da CSN (CSNA3, R$ 5,06, +1,20%), que chegaram a liderar os ganhos dentro do índice durante boa parte do dia. O desempenho dos papéis da companhia se descolaram dos pares do setor, que fecharam no campo negativo – destaque para Usiminas (USIM5, R$ 2,72, -1,81%) e Gerdau (GGBR4, R$ 5,56, -1,77%). Além da siderúrgica, apenas outras três das 64 ações subiram mais de 1% nesta segunda-feira: Smiles (SMLE3, R$ 32,91, +4,08%), Energias do Brasil (ENBR3, R$ 12,45; +1,72%), e MRV Engenharia (MRVE3, R$ 8,06, +1,51%).

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As maiores baixas, dentre as ações que compõem o Índice Bovespa, foram:

 Cód. Ativo Cot R$ % Dia % Ano Vol1
 BBSE3 BBSEGURIDADE ON 27,50 -3,64 -9,65 55,93M
 PETR3 PETROBRAS ON 9,27 -3,24 -3,34 134,46M
 LREN3 LOJAS RENNER ON 18,09 -3,16 +20,23 34,14M
 RENT3 LOCALIZA ON 28,13 -3,00 -19,57 28,25M
 ECOR3 ECORODOVIAS ON 5,92 -2,95 -41,59 6,16M

Contribuíram para o dia negativo, dentre as 51 ações dentro do índice que fecharam abaixo do preço de abertura, principalmente Petrobras (PETR3, R$ 9,27, -3,24%; PETR4, R$ 7,64, -2,30%), bancos – Itaú Unibanco (ITUB4, R$ 27,42, -2,56%), Banco do Brasil (BBAS3, R$ 16,98, -2,41%) e Bradesco (BBDC3, R$ 23,79, -2,90%; BBDC4, R$ 21,43, -2,24%) -, companhias do setor elétrico e a Vale (), dando continuidade ao movimento de forte queda de sexta-feira (6), após o desastre envolvendo a Samarco, em Minas Gerais.

As maiores altas, dentre os papéis que compõem o Ibovespa, foram:

 Cód. Ativo Cot R$ % Dia % Ano Vol1
 SMLE3 SMILES ON 32,91 +4,08 -25,79 15,61M
 ENBR3 ENERGIAS BR ON 12,45 +1,72 +40,52 15,02M
 MRVE3 MRV ON 8,06 +1,51 +12,77 15,81M
 CSNA3 SID NACIONAL ON 5,06 +1,20 -2,09 31,93M
 GOAU4 GERDAU MET PN 2,63 +0,77 -76,35 14,44M

As ações mais negociadas, dentre as que compõem o Ibovespa, foram:

 Código Ativo Cot R$ Var % Vol1 Vol 30d1 Neg 
 BBDC4 BRADESCO PN EJ 21,43 -2,24 306,35M 314,06M 25.286 
 ITUB4 ITAUUNIBANCO PN ED 27,42 -2,56 300,77M 522,43M 21.071 
 PETR4 PETROBRAS PN 7,64 -2,30 274,08M 451,65M 32.206 
 VALE5 VALE PNA 12,90 -1,23 182,65M 345,33M 22.996 
 BRFS3 BRF SA ON 55,70 -0,54 152,54M 253,70M 11.563 
 ABEV3 AMBEV S/A ON 18,70 -1,42 148,46M 263,52M 18.303 
 PETR3 PETROBRAS ON 9,27 -3,24 134,46M 147,94M 16.027 
 CIEL3 CIELO ON 36,62 -2,24 109,34M 177,97M 10.886 
 BBAS3 BRASIL ON 16,98 -2,41 92,55M 153,87M 12.702 
 ITSA4 ITAUSA PN 7,35 -2,00 92,18M 173,45M 22.723 

* – Lote de mil ações
1 – Em reais (K – Mil | M – Milhão | B – Bilhão) 


Responsável pela cobertura de política do InfoMoney, coordena o levantamento Barômetro do Poder, apresenta o programa Conexão Brasília e o podcast Frequência Política.