Para Krugman, fantasma da “década perdida” pode se tornar realidade nos EUA

Com enfraquecimento de bancos e economia, economista não descarta chance de déjà vu do cenário japonês dos anos 1990

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SÃO PAULO – Às vezes, certos fatos históricos podem se repetir no horizonte. “A minha maior preocupação é que os EUA e a Zona do Euro vivenciem décadas perdidas, parecidas com a do Japão”, afirmou Paul Krugman, ganhador do prêmio Nobel de economia no ano passado, ao comparar a situação corrente com a década de 1990, em que o Japão necessitou de vários anos para emergir da crise.

“Fazemos medidas pela metade, que ajudam a economia caminhar com dificuldades, sem recuperação completa”, observou o economista de Princeton, afirmando ainda que o Estado faz movimentos para a sobrevivência dos bancos, mas que estes “não dependem do sucesso deles”, o que torna o processo paternalista e protetor, reduzindo sua eficiência na recuperação do sistema.

Nesse sentido, o acadêmico clama por mais iniciativas de Washington, que por sua vez repete as medidas tomadas no Japão durante a década passada. “Um segundo pacote de estímulo econômico está se tornando claramente urgente. Precisa-se de um estímulo muito, muito forte”, completou Krugman, na crença de que o Tesouro dos EUA necessita intervir novamente na economia.

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Desemprego e bancos

Quanto à maior taxa de desemprego dos últimos 25 anos, o economista espera que a proporção da PEA (População Economicamente Ativa) sem ocupação permaneça inalterada neste ano e no próximo, ou com leves incrementos no período. Conforme dados do Departamento do Trabalho dos EUA, a taxa de desemprego atingiu 8,9% no decorrer de abril.

Já no tocante aos resultados do teste de estresse, o acadêmico acredita que a simulação do Federal Reserve trouxe tempo para a administração Obama decidir quais serão os próximos passos no cuidado ao setor financeiro. Contudo, sob a apreciação crítica de Krugman, o exame não respondeu à questão-chave: será que os bancos detêm capital suficiente para exercerem seu principal papel na economia?

Enquanto a resposta não é dada, “está claro que a administração não tomará ações radicais no curto prazo para fortalecer os bancos”. Para ele, o governo poderia realizar a estatização, de forma temporária, do Citigroup e, talvez, também do Bank of America; visando fortalecer o sistema financeiro, além de controlar o ritmo de expansão do crédito diretamente e a tomada de novos riscos.

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De olho nas reservas

Talvez por conceder a entrevista em viagem a Pequim, o ganhador do Nobel revelou seu viés sobre a terceira maior economia do mundo. Krugman elogiou as recentes medidas estatais na China, dada a forte expansão de crédito neste ano, mas enxerga com certo ar de preocupação a inexistência da mudança do modelo de crescimento do país, que é direcionado para fora.

Para o economista de Princeton, a China deveria focar na sua demanda doméstica, o que reduziria suas reservas excessivas. “É muito difícil enxergar como o mundo terá uma recuperação completa se a China continuar com sua conta corrente na proporção de 10% do PIB (Produto Interno Bruto)”, afirmou, destacando ainda que o país não precisa ter pressa pra liberalizar sua conta capital.

“Não tenho certeza se temos um yuan com cambio livre”, observa Krugman. “Mas uma apreciação do yuan, apesar da China não querer no momento, será necessária no futuro”.