Empresa anuncia corte de dividendos e ações disparam; faz sentido?

Essa semana a Cemig anunciou que reduziu o pagamento dos dividendos de 50% para 25% do seu lucro líquido; em contrapartida, as ações dispararam 10% na Bolsa

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SÃO PAULO – Algumas das motivações para investidores comprarem ações na Bolsa são expectativas por dividendos futuros e retornos no mercado. Pois, afinal, quem não gostaria de ver pingar trimestralmente um dinheiro a mais na conta sem para isso precisar fazer nada? Não para menos alguns investidores têm como filosofia aplicar basicamente em ações boas pagadoras de dividendos, usualmente empresas de perfil defensivo, como elétricas. Pois bem, agora, imagine se uma dessas empresas anuncia que vai cortar pela metade os seus dividendos? Se você fosse acionista, iria gostar da novidade?

Olhando à grosso modo, o natural seria que respondesse que não, já que a torneira do “retorno fácil” começaria a secar. Mas a história nem sempre ocorre dessa maneira na prática.

A Cemig (CMIG4) esclareceu no começo desta semana que, embora seu estatuto estabeleça a distribuição de 50% do lucro líquido em forma de dividendos, seus acionistas aprovaram, em assembleia ocorrida dia 30 de abril, a proposta do conselho de administração para redução para 25% (a fatia obrigatória que todas as companhias de capital aberto têm que pagar aos seus acionistas em forma de dividendos) – percentual que corresponde ao payout (dividendos/lucro líquido). Diferentemente do que espera-se em um anúncio desse tipo, as ações da companhia só sobem na Bolsa. Nos quatro pregões desta semana, as ações dispararam em três. Só recuaram hoje em meio ao movimento corretivo do mercado em geral. Mas ainda assim acumulam alta de 10% na semana. 

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Mas o que exatamente faz o papel disparar? A princípio, o mercado, que já esperava por dividendos menores esse ano, entendeu que seria melhor (mesmo que machucasse seus rendimentos inicialmente) a empresa reduzir os dividendos, dado o momento complicado que o setor elétrico passa, assolado por incertezas e com alavancagem maior. Ou seja, é melhor segurar recursos e reforçar o caixa para enfrentar mais um ano considerado bastante complicado para o setor do que agradar, primeiramente, os acionistas. 

No setor, não foi só a Cemig que pisou no freio esse ano. A CPFL Energia (CPFE3), que costuma distribuir praticamente todo o seu lucro, optou por pagar 44,5% do resultado. A Tractebel (TBLE3) deixou, pela primeira vez desde 2010, de distribuir totalidade do lucro aos acionistas. Na mesma linha da Cemig, a Light (LIGT3) cortou de 50% para o mínimo de 25%. Já no caso da Eletropaulo (ELPL4), nem lucro houve para ser distribuído.

No caso da Cemig, no comunicado divulgado ao mercado, a empresa traz o cenário difícil de forma bem clara: “o pagamento de dividendos de 50% do lucro no exercício não seriam compatíveis com a atual situação financeira da companhia, em função, principalmente, do baixo nível dos reservatórios de energia elétrica, o que poderia ocasionar redução significativa de energia disponível para venda pelas usinas hidrelétricas da companhia, com efeitos sobre receita e o caixa”.

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O mercado parece que comprou essa ideia, porque não deixa de ser uma verdade esse momento delicado para as elétricas e seguiu comprador nos papéis, disse Alexandre Montes, analista da Lopes Filho. Além disso, aparece no radar da empresa as novas regras para as concessões das distribuidoras. As concessões vencem em julho e a Cemig está entre as companhias que terão que renovar. “Aparentemente, as novas medidas parecem favoráveis às distribuidoras”, disse. 

Mas no passado nem sempre foi assim…  

No ano passado, as ações da Cemig desabaram na Bolsa com a mudança no governo de Minas Gerais e a entrada de Fernando Pimentel (PT). Atualmente, o governo mineiro é controlador da empresa e recebe 22% dos dividendos. Na época, já especulava-se sobre a possibilidade da empresa cortar seus dividendos, que seriam “altos demais”, na visão do atual governador. Uma postura que vinha ainda com sinalizações de que Pimentel iria usar a estatal para beneficiar os consumidores-eleitores, com redução das tarifas de energia. 

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Todo o burburinho penalizou as ações na época, que caíram 40% de setembro do ano passado (quando pesquisas eleitorais começaram a indicar que Pimentel estaria na frente na disputa pelo governo) até fevereiro desse ano. 

“Na época três coisas assustaram: redução dos dividendos, não repasse das tarifas e investimentos em “qualidade”, que o mercado sabe muito bem que é investir em coisas que não dão retorno”, comentou Montes. Mas passado esse “susto” o governo veio conseguindo fazer o que ele chama de “bom trabalho de marketing”, mantendo dois diretores da antiga na administração da empresa, o que passou credibilidade ao mercado. “A impressão que tem é que ele quer falar a linguagem do mercado”, diz. 

Não para menos, desde fevereiro, as ações da Cemig praticamente só sobem na Bolsa. De lá até maio, os papéis registram ganhos de 43% (como pode ser visto no gráfico abaixo). 

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Gráfico das ações da Cemig nos últimos meses:

*Fonte: ProfitChart