Colunista InfoMoney: BRIC Começa com B

Na década de 90 a China disparou com crescimento de dois dígitos; a maré baixou com a crise, e de repente o quadro mudou
Quando surgiu a denominação dos BRICs para especificar os países em desenvolvimento de forte crescimento e volume de PIB, a sigla resumia-se a cinco países, começando com o Brasil e terminando com a China, mantendo em posição mediana a Índia e a Rússia.

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Na década de 90 a China disparou com crescimento de dois dígitos, enquanto o Brasil mantinha posições muito abaixo dos 3%. A Índia ensaiava seu crescimento acima de 6% e a Rússia, após estabilizar-se e privatizar uma boa parte de seu parque, crescia com o avanço do preço dos energéticos. Portanto, a sigla deveria na realidade ser lida de trás para frente, com o Brasil no final, e muitas vezes nem aparecendo no radar do investidor, mas no rol dos “demais países”.

A maré baixou com a crise, e de repente o quadro mudou. A China permanece com crescimentos elevados de 7 a 8%, mas teve uma queda acentuada, e o que não sabemos ao certo é quão sustentável é este crescimento. Se de um lado estão incentivando o consumo, com juros e spreads baixos, mantendo os investimentos elevados em infraestrutura, por outro lado não sabemos ao certo quantos destes créditos que os bancos chineses tem em carteira são créditos bons. A contabilidade deles não é nenhuma Basiléia I ou II, portanto não sabemos ao certo se esta estratégia poderá perdurar por muito tempo. Estamos felizes que a China mantém o crescimento e ameniza a crise geral, mas os investidores estão mais cautelosos.

“Os sinais estão melhorando para o Brasil em velocidade acentuada”

A Rússia recebeu o impacto por duas vezes, uma pelo crédito e outra pelos preços do petróleo, de tal forma que teve uma queda muito forte de seu PIB e dificilmente neste ano haverá uma recuperação para um PIB positivo. Sobrou a Índia e nós. A Índia, porque ao que tudo indica, conseguirá manter um crescimento de 7% ou mais e estará restabelecendo sua economia. O problema lá será também o funding para seus investimentos de longo prazo, em uma economia muito mais fechada que a nossa e com diferenças sociais acentuadas. A atual eleição dá razão a uma tranquilidade para o investidor.

Sobrou o Brasil, que recebeu o impacto pela porta do crédito internacional no momento da decolagem do crescimento e teve que fazer uma operação de resgate no início deste crescimento, que não é nada fácil. A economia brasileira é mais aberta do que a média mundial, com mais de 26%, o que a afetou no comércio logo de início na crise e nos financiamentos, especialmente industriais e nos projetos de longo curso. A bolsa brasileira teve uma retirada pelos investidores internacionais para suprirem posições em aberto em outras bolsas ou aplicações, o que resultou em uma forte desvalorização dos papéis brasileiros, muito menos em função do novo valor da empresa, mas mais pela oferta gerada por esta atitude de retirada.

Passados seis meses e acalmando-se o mercado internacional, desponta o Brasil como uma economia menos afetada e em franca recuperação interna. Investidores observam que papéis de empresas brasileiras estão baratos e que os juros oferecidos em aplicações em fundos são bem atrativos. O Brasil mantém a política aberta sem entrar em modificações de regras no mercado de capitais, o que assegura a confiança do investimento no Brasil. Consequência? Os investidores voltam e se posicionam na bolsa e em fundos, o que causa pressão sobre a valorização do real.

Nos EUA, as ações começam a ter um contorno um pouco mais claro e as medidas da administração Obama começam a acalmar os mercados. As primeiras andorinhas anunciando um possível verão já estão surgindo, mas as consequências das medidas serão tempos difíceis no mínimo para 2009 e uma parte de 2010. Pressão sobre a desvalorização do dólar norte-americano, o que convém muito ao atual governo norte-americano porque segura as importações e melhora a competitividade externa.

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Para o Brasil este cenário significa uma pressão maior sobre a valorização do real e reforça a sensação de que o Brasil está despontando para dar continuidade ao crescimento sustentável, aumentando a atratividade. Já internamente, começamos a nos preocupar com o dólar abaixo da linha dos R$ 2,- o que poderá facilitar as importações, que estão bem mais agressivas do que antes e a dificuldade na exportação em um ambiente de preços em queda.

Temos alguns espaços ainda a conquistar, como baixar os juros e os spreads, manter e ampliar estímulos aos investimentos e aos setores que empregam mão-de-obra. Os sinais estão melhorando para o Brasil em velocidade acentuada, em relação aos seus competidores BRICs. Enfim, quem está conquistando de novo uma pole position tem que levar em conta que outros se aproveitarão do vácuo para tentar uma ultrapassada. Seria uma boa corrida, desde que mantenhamos firmes as reformas tão necessárias e não nos vangloriemos por estar neste momento na frente.

Mas, mais que tudo, é muito bom saber que BRICs começa novamente com B!

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Ingo Plöger é empresário, engenheiro economista, conselheiro de empresas nacionais e internacionais e presidente da IP Desenvolvimento Empresarial Institucional. Escreve mensalmente na InfoMoney, às sextas-feiras.
ingo.ploger@infomoney.com.br