Tem oportunidade na Bolsa, dizem gestores de ações

“Sempre tem algum papel subindo ou com perspectiva de alta. Especialmente quando você olha no detalhe”, afirmou João Braga, da XP Gestão de Recursos

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SÃO PAULO – Mesmo diante de um cenário desafiador, com uma economia fraca e muitas ações sofrendo na Bolsa de Valores, existem oportunidades para os investidores que fazem uma boa seleção e olham as empresas no detalhe, afirmam os gestores de ações João Braga e Marcos Peixoto, da XP Gestão de Recursos.

“Sempre tem algum papel subindo ou com perspectiva de alta. Especialmente quando você olha o ‘micro’ da empresa. Daí a importância de analisar no detalhe”, afirmou Braga, durante evento promovido pela XP Gestão de Recursos em São Paulo. Marcos Peixoto lembrou que além de selecionar muito bem as empresas que vão fazer parte da carteira, o investidor deve o olhar para um horizonte um pouco mais longo. “A indústria de fundos de renda variável tem mostrado bons resultados no longo prazo. Nos últimos 10 anos essa categoria trouxe 400% de retorno, enquanto o CDI (certificado de depósito interbancário) rendeu 200% e o Ibovespa 100%. Então tem oportunidade na Bolsa, se você olhar o conceito de qualidade, bom ‘management’, execução”, destaca.

Eles apontam que existem ações que estão longe de ser um consenso, mas que fazem parte de seus portfólios justamente por conta das boas perspectivas após análises detalhadas. “Um bom exemplo é Renner. Acho difícil alguém estar otimista com consumo no Brasil, no cenário em que vivemos. Ainda assim, a Renner entregou 25% de crescimento de receita no pior natal desde 2013. É obviamente resultado de uma boa execução. Então quando se olha casos específicos tem oportunidade”, afirmou Braga.

Outra empresa que agrada ao gestor da XP é a Qualicorp. “Esta também passa longe de ser consenso”, afirma. Ele diz que o mercado atribui um risco maior do que ele e a equipe para o papel e afirma que a companhia deve crescer 25% este ano, apesar do cenário ruim. “18% [do crescimento] é só em aumento de preço. O preço sobe 18% e a venda não desaba. Isso é muito bom. A empresa é resiliente e atua na área de saúde complementar. A opção da saúde pública é ruim. A Qualicorp tem claramente uma veia um pouco mais oligopolista e um mercado protegido”, diz o gestor.

Os gestores também afirmam que é normal que haja alguma concentração nas carteiras de grande parte das assets. Isso acontece porque a Bolsa brasileira tem uma quantidade pequena de empresas listadas, principalmente se comparada a outras bolsas mundiais. “É característica da nossa Bolsa. Temos hoje apenas 150 ações que negociam mais de R$ 2 milhões de reais [por dia]. Então é natural que haja alguma concentração”, aponta Peixoto.

Segundo ele, uma maneira de não cair nesta “armadilha” [da concentração nas mesmas ações] é criando uma gestão eficiente do portfólio. “Precisa saber a hora certa de montar a posição e concentrar. Tem que ter muita convicção do ‘case’, a ponto de conseguir aumentar a alocação quando outros gestores estão diminuindo por conta de algum estresse ou motivo pontual. Se você está acompanhando os detalhes, tem toda a cadeia mapeada, consegue ser mais eficiente do que muitos investidores que não estão olhando neste nível de detalhe”, diz.

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Empresas e setores regulados
Marcos Peixoto destaca que uma das dificuldades dos gestores de ações no Brasil é lidar com as questões regulatórias de setores e empresas. Por isso, a equipe procura ficar o mais próximo possível dos reguladores, para entender o que está acontecendo nos setores. “Tentamos ir a Brasília ou visitar o regulador pelo menos a cada 15 dias ou mensalmente”, diz.

Ele cita como exemplo o setor de educação, que trouxe bons retornos nos últimos anos, mas que vem sofrendo desde o início de 2015 principalmente por conta da mudanças no Fies. “Sempre soubemos que deveria ter mudanças no setor de educação, que cresceu de forma muito rápida e até desordenada. Só não esperávamos que fossem feitas agora e desta forma. Isso foi a parte ruim”, diz. Peixoto ressalta que o pior problema para um gestor de fundos de ações é não ter previsibilidade. “Hoje não sabemos o que pode acontecer no setor. Pode ser que tenha uma queda abrupta de captação das empresas ou pode ser que fique no meio termo. É melhor saber logo que vai ser ruim do que não saber nada. Então, a gente prefere zerar, olhar de fora, e entrar com mais convicção, mesmo que perca a alta inicial. Gestor com pouca convicção é oportunidade para fazer besteira. Vende na mínima, compra na máxima”, afirma.

João Braga afirma que um dos maiores erros de um investidor é ir “contra” o governo. “Tem que tomar cuidado para não ficar na frente do governo. Um exemplo foram os bancos em 2012. Com o discurso da Dilma de jogar o spread para baixo, era um ano para não ficar na frente neste setor. Também tem o outro lado: nos últimos 3 anos não dava para ficar ‘short’ (vendido) no setor de educação. Você também não pode ir contra o governo quando eles querem fazer algo bom para o setor”, diz.


Coordenador de conteúdo educacional do InfoMoney, ganhou 3 vezes o prêmio de jornalismo da Abecip