Colunista InfoMoney: A outra face

Parece que desde o aprofundamento da crise, o comportamento do petróleo e da bolsa dos EUA foi semelhante. Mas nem sempre foi assim
A economia mundial vive um momento crítico. Desde o dia 9 de março, o mercado comprou a recuperação financeira e econômica, depois de 18 meses da mais forte crise desde a Grande Depressão.

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Motivado por surpreendentes dados macroeconômicos positivos de vendas no varejo, associado ao novo plano de resgate financeiro do secretário do Tesouro norte-americano, Timothy Geithner, a bolsa de valores subiu quase 25%, no maior rali em duas semanas desde os anos 30.

As commodities foram na esteira dessa expectativa e subiram fortemente neste mesmo período: CRB subiu 8,5%, a cotação do petróleo, pela medida do WTI, subiu 8% e o cobre elevou fortemente seu preço em 16%.

O que isso quer dizer? Será que as commodities estão “seguindo” a bolsa norte-americana? De outra forma, se você quiser apostar em uma alta do petróleo, ou de outra commodity, basta apostar na alta da bolsa e vice-versa?

Parece que desde o aprofundamento da crise, em meados de setembro (pós falência da Lehman Brothers), o comportamento dos preços do petróleo e da bolsa norte-americana foi bastante semelhante. Mas nem sempre foi assim (veja gráfico abaixo).

Acho que para compreender perfeitamente o comportamento da correlação dessas duas variáveis, vale observar que entre junho de 2007 e setembro de 2008, a correlação era exatamente contrária: a bolsa norte-americana começava sua trajetória rumo ao abismo, e o petróleo continuava sua caminhada rumo ao topo do mundo. Por que houve essa inversão?

Lembremos de um assunto que abordamos na coluna passada: a infundada crença do mercado no decoupling. A crise se iniciou em julho nos EUA e só alcançou os emergentes com toda sua força após a falência da Lehman Brothers, em setembro de 2008. O consumo da China seria a panaceia para o petróleo e as outras commodities.

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“Aparentemente o mercado está com saudades de comprar”

Os EUA continuariam sofrendo sozinhos e, ainda mais errôneo, o consumo chinês poderia suprir a ausência norte-americana no comércio internacional. Deslumbros à parte, o petróleo convergiu para a trajetória da economia mundial, seja ele mensurado no comércio, nas vendas, nos estoques, na produção ou na bolsa.

Desde setembro do ano passado, caiu a ficha de que não haveria crescimento no mundo, seja dos norte-americanos, europeus ou chineses, para consumir tanta commodity quanto antes da crise.

A trajetória recente, desde 9 de março, chama a atenção, pois a bolsa norte-americana recuperou 25% e o petróleo ficou 8% mais caro. Isso é um sinal de que a alta da bolsa pode ser mais do que um rali técnico? Talvez. O lastro da economia real nos deixa em dúvida.

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A minha crença ainda é de que estamos apenas passando aquela fase da ressaca, em que qualquer copo d´água é consumido em menos de 10 segundos. Ou seja, qualquer notícia positiva, ou plano econômico, é absorvida rapidamente pelo mercado e elevada à condição de salvação da lavoura. Aparentemente o mercado está com saudades de comprar. O problema é saber o que. O risco é estar comprando gato por lebre.

Ivo Chermont é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney, às terças-feiras.
ivo.chermont@infomoney.com.br