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Presidente Lula.
O senhor ganhou. Não com meu voto, e não vou fingir o contrário. Mas torço pelo país, e torço de dentro: sou empresário, chefe de família, vivo e trabalho aqui, e não tenho outro lugar para onde ir nem vontade de ter.
É dessa cadeira que venho lhe oferecer um número: há perto de R$ 1 trilhão na mesa até o fim do seu mandato, sem cortar um programa social, sem subir um imposto, e o senhor é a única pessoa no país que pode pegá-lo. O resto desta carta é a conta.
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Começo pelo preço de não pegar. Na segunda-feira, a Bolsa caiu 14% e o dólar subiu 8%, a maior queda num dia desde a pandemia.
O senhor sabe por quê. Em setembro, em campanha, descartou qualquer discussão de ajuste fiscal. Semana passada, o seu ministro da articulação disse que o tema não está em pauta. Quem empresta ouviu as duas coisas e cobrou. Não foi o Brasil que piorou na segunda-feira. Foi a esperança que sumiu.
Sumiu, mas não morreu. O governo paga hoje R$ 1,18 trilhão por ano só de juros da dívida, segundo o Banco Central. Quase 9% do PIB. Esse número não é fixo: ele sobe e desce com a taxa que o mercado cobra para rolar a dívida, e boa parte do que se cobra hoje é prêmio de desconfiança, não custo do dinheiro.
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Desconfiança se desfaz com uma decisão, não com uma década. Convença quem empresta de que a dívida parou de crescer, a taxa cai e a conta de juros cai junto: aproximadamente R$ 300 bilhões a menos por ano no serviço da dívida, sem que um único programa social perca um real. Nenhum ministro consegue isso. Só o presidente.
E deixe-me traduzir o que isso significa fora do Tesouro, porque o número grande esconde o efeito pequeno, o que chega à casa das pessoas. Hoje, a taxa básica está em 13,75%. Com a dívida que para de crescer e uma regra que dura, ela pode voltar para perto de 9,5% em dois anos, sem o Banco Central afrouxar nada; só pelo medo sair do preço.
Quatro pontos de juro a menos não é estatística. É o crediário da loja de móveis que deixa de matar a loja. É a prestação do carro que cabe no salário do mês. É a empresa que trocou investimento por aplicação em título público e volta a investir, porque o título parou de pagar mais que a fábrica. É o governo que gasta menos com juro e mais com o que prometeu.
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Cada um desses ganha fôlego ao mesmo tempo, e o país inteiro desalavanca junto. Não existe plano de crescimento mais barato do que esse, porque ele não custa um real. Custa convencer.
A urgência tem data. Na semana que vem, o Banco Central se reúne para decidir a Selic, com as expectativas de inflação piorando por causa dessa incerteza. A curva de juros já trata como mais provável que a taxa fique onde está, em 13,75%. Na minha leitura, o Copom deve cortar 25 pontos e avisar que os próximos passos dependem sobretudo do fiscal.
A partir daí, a bola sai do Banco Central e cai no seu colo. Só o senhor pode permitir que o BC siga cortando e evitar que o país chegue ao ponto em que o juro alto deixa de conter a inflação e passa a alimentá-la, porque cada ponto a mais engorda a dívida que ninguém acredita que será paga. Isso é chamado pelos economistas de “dominância fiscal”. Para a Selic continuar descendo, o presidente precisa mostrar um plano fiscal coerente. Sem isso, os juros param por aí.
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A alternativa, o senhor também conhece, porque assistiu de perto. Em 2015, a presidente Dilma venceu prometendo uma coisa e, no primeiro dia do mandato, fez o contrário, com o ministro que os adversários queriam, porque a crise escolheu por ela. O ajuste veio do mesmo jeito. Veio sem crédito, sem escolha e sem governo.
O senhor tem o que ela não teve: tempo de escolher antes.
Não existe ajuste indolor. Passei a semana procurando no orçamento o dinheiro que não tem dono, e ele não existe em escala. Cada real tem uma bancada atrás. Ajuste é escolher quem paga. O senhor vai ter que escolher os seus alvos, e a minha sugestão é que escolha os que combinam com a sua história. Por isso, não lhe entrego uma lista, que depois vira cardápio e o governo escolhe o prato mais barato. Peço três coisas e uma quarta que não custa nada. As quatro cabem na sua narrativa, não na minha.
A primeira não custa um centavo. Uma regra fiscal que funcione sem o senhor: meta de resultado primário que obrigue, gatilho automático quando o gasto obrigatório passar do limite, nada de contingenciamento decidido no humor do dia. O seu ministro da Fazenda já admitiu em público mudar a lei ou a Constituição para cumprir a meta. Faça. E repare no que isso significa para o seu lado: a regra que amarra o seu governo amarra o próximo, seja de quem for. Para o seu partido, é seguro contra 2031. Para quem empresta, é o fim do “depende do presidente”. É a única medida desta carta que muda o juro no dia seguinte.
A segunda é a que o seu partido chama de privilégio há 30 anos e nunca enfrentou de frente. O Brasil abre mão de R$ 434 bilhões por ano em isenções, mais de 3% do PIB. O seu governo já deu o primeiro passo em dezembro, com o corte linear de 10%, e escreveu na lei um teto de 2% do PIB para esse gasto.
Só que o teto, hoje, só proíbe criar isenção nova. Não obriga a cortar a velha. Transforme o teto em trajetória: um quarto de ponto do PIB por ano até chegar aos 2%, com corte linear automático se o Congresso não escolher onde. Quem está fora continua fora: Simples, cesta básica, Zona Franca. O resto cede um pouco todo ano, sem que ninguém precise ser nomeado. Em 2029, serão R$ 60 bilhões a mais por ano, e ninguém no Brasil perde o emprego por isso. Perde a isenção.
A terceira é a briga que o senhor sempre quis e nunca comprou. A Previdência dos militares. Em 2024, o sistema gastou R$ 61,5 bilhões e arrecadou R$ 9,2 bilhões, segundo o Tribunal de Contas. O Tesouro cobre R$ 52 bilhões por ano. A reforma de 2019 passou ao largo da caserna; o pacote de 2024 tirou R$ 2 bilhões dos R$ 52 bilhões. O que falta é o que todo trabalhador brasileiro já aceitou: idade mínima para a reserva, contribuição de inativos nas mesmas regras dos civis, fim da promoção na hora de sair. Quem já está na reserva não perde um centavo. Muda para quem entra. Nunca o custo político de fazer isso foi tão baixo para um presidente, e o senhor sabe por quê.
E há uma quarta, que o senhor faz amanhã sem perder um voto. O teto constitucional de R$ 46 mil existe e não é cumprido: juiz, procurador e desembargador recebem acima dele por verba que mudou de nome. Não é dinheiro grande, cerca de R$ 4 bilhões. Mas é o gesto que torna todo o resto defensável na sua base, porque mostra que o primeiro a ceder foi quem está em cima. O projeto que tramita hoje faz o contrário do que o nome diz e abre 14 exceções novas. Mande um texto de uma página.
Vou estimar o número. As quatro juntas devem render cerca de R$ 40 bilhões em 2028 e passar de R$ 100 bilhões por ano em 2030. É o tamanho do buraco que a Instituição Fiscal Independente calcula para 2027. A conta fecha pelo primário, e os R$ 300 bilhões de juros viram prêmio, não premissa. Somados até 2030, primário e juros, é o “trilhão” do título. A maior parte vem do juro, e o juro responde rápido.
O que ficou de fora, a trava nas emendas, custa mais caro ao senhor do que rende, e eu sei disso. Deixo onde está. Mas, se fizer só estas quatro, já é mais do que o mercado espera, que hoje é zero. E, quando a expectativa é zero, surpreender é barato.
O senhor tem quatro anos, um Congresso que não controla e um fiscal que não fecha sozinho. Pode atravessar isso tapando buraco e torcendo para não chover, e em 2030 entregar ao sucessor a mesma conta, maior. Ou pode fazer agora o que ninguém espera e descobrir que o vento vira. Com juro caindo, crédito voltando, investimento saindo do título e indo para a fábrica.
Um governo que navega com o vento a favor governa com folga, aprova o que quer e chega ao fim do mandato com a economia crescendo e a dívida parada.
E há um efeito que nenhum marqueteiro entrega: quando a família paga menos pelo crediário, a empresa paga menos pelo capital de giro e o governo paga menos pela dívida, todo mundo desalavanca ao mesmo tempo, e o alívio chega ao bolso antes de chegar à estatística. Popularidade não se compra com programa. Se constrói com juro baixo.
O senhor sabe disso melhor do que eu: foi o que lhe deu 80% de aprovação em 2010. Nenhum presidente desde o Real teve essa chance com tanta clareza na mão. A escolha é sua. O vento também.
Respeitosamente,
Walter Maciel, CEO da AZ Quest