Tráfico humano e violação de direitos: como funciona a indústria russa de drones

Complexo de produção de drones em Alabuga, no Tartaristão, adota prática de tráfico humano similar ao de esquemas de trabalho escravo praticados em países asiáticos

•

Publicidade

Desde 2022, quando iniciou a invasão do território da Ucrânia, a Rússia tem disparado indiscriminadamente milhares de drones todos os meses contra cidades e redes elétricas ucranianas, matando e ferindo tanto soldados como a população civil. Para manter essa parte da máquina de guerra funcionando, a estratégia russa passa pela produção massiva desses veículos aéreos não tripulados (VANTs) – e usando meios como tráfico humano, violações de direitos e jornadas de trabalho exaustivas.

Um estudo divulgado nesta semana — produzido em conjunto pelo George W. Bush Institute e pelo Center for Strategic and International Studies (CSIS) — aponta como funciona o recrutamento da força de trabalho do grande complexo de fabricações de drones em Alabuga, no Tartaristão, localizado a 800 quilômetros de Moscou.

Leia também: ‘Hora de Zelenski ir embora’, diz Musk em nova crítica ao líder ucraniano

A Ucrânia estima que a Rússia atualmente pode produzir mais de 36.000 drones do tipo kamikaze, conhecidos como “Gerans”, uma adaptação dos Shaheds iranianos. Acredita-se que ao menos 5 mil desses VANTs saiam de Alabuga.

O relatório conta que, em apenas alguns anos, a fábrica na zona econômica especial de Alabuga cresceu para abranger cerca de 17 instalações e até 116 edifícios, tornando-se capaz de produzir mais de 5,5 mil drones por mês.

O Irã inicialmente forneceu à Rússia grandes carregamentos de drones Shahed completos, mas posteriormente o regime de Vladimir Putin conquistou capacidade, tecnologia e expertise para fabricar sua própria versão dos drones domesticamente, após localizar e garantir uma cadeia de suprimentos.

Continua depois da publicidade

Os trabalhadores do complexo vêm da Coreia do Norte, África, América Latina (incluindo Brasil), Ásia Meridional e Eurásia. Eles são atraídos por ofertas de emprego falsas ou coagidos por seus governos, como no caso do regime norte-coreano.

Os recrutadores prometem empregos em catering e hospitalidade, oportunidades educacionais ou uma oportunidade “europeia”. Mas ao chegar, os trabalhadores são colocados em uma linha de montagem para construir armas.

O relatório diz que mulheres estrangeiras têm sido enganadas para trabalhar em linhas de produção de armas e tiveram seus passaportes tomados, enquanto adolescentes russos foram colocados para trabalhar na montagem de drones de ataque sob o rótulo de “experiência profissional”. Além disso, trabalhadores norte-coreanos têm seus salários confiscados pelo Estado que os enviou.

Continua depois da publicidade

O relatório diz que a Coreia do Norte especificamente está vendendo a mão de obra de seus cidadãos sob um acordo estatal, controlando se eles podem sair e recolhendo a maior parte de seus salários.

Um porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos disse que as ações da Rússia em Alabuga “poderiam potencialmente preencher os critérios de tráfico humano se o recrutamento for fraudulento e o propósito for a exploração”.

As Nações Unidas definem tráfico humano como o “recrutamento, transporte, transferência, abrigo ou recebimento de pessoas por meio de força, fraude ou engano, com o objetivo de explorá-las para obter lucro”.

Continua depois da publicidade

Ou seja, o processo de recrutamento de mão de obra para a fábrica de drones de Alabuga atende a esta definição, conforme avaliações independentes citadas no estudo.

Os salários ganhos pelos trabalhadores norte-coreanos, em última análise, fluem de volta para Pyongyang e para o mesmo regime que impõe o trabalho.

Vista aérea do complexo de fabricação de drones de Alabuga, no Tartaristão (Foto: Reprodução/CSIS)

Quem são as vítimas do tráfico?

Os trabalhadores em Alabuga pertencem a três grandes grupos, segundo o relatório: jovens russos; trabalhadores estrangeiros; e trabalhadores norte-coreanos.

Continua depois da publicidade

Jovens russos — Esse grupo é formado majoritariamente por milhares de estudantes a partir de 15 anos, que são recrutados pela faculdade politécnica de Alabuga sob o rótulo de “experiência profissional”. No local, eles enfrentam, turnos de trabalho de até 12 horas, pagamento atrelado a cotas rigorosas e ameaças de multa se contarem às suas famílias o que constroem.

Trabalhadores estrangeiros — Após promessas de trabalho em hospitalidade, eles passam a ser designados para produção de armas. Passagens aéreas, moradia e aulas de idioma são descontadas do pagamento e os passaportes são confiscados na chegada. Acredita-se que havia cerca de 200 desses trabalhadores no local em 2024 — cerca de 90% estavam na montagem de drones. O relatório afirma que parte dessa mão de obra vem da América do Sul, de países como Brasil, Colômbia, Equador e Venezuela.

Norte-coreanos: Trabalhadores e técnicos enviados pelo governo da Coreia do Norte . O supervisores desse contingente, calculado em até 12 mil trabalhadores, restringem a circulação e o regime retém de 70% a 90% dos seus salários. A relação de trabalho é tratada por meio de uma rede sancionada — uma empresa de fachada da Green Pine Associated Corporation, a principal casa de comércio de armas da Coreia do Norte. A Inteligência ucraniana estima que os cerca de 12 mil trabalhadores norte-coreanos ganham aproximadamente US$ 2,50 por hora. E o Departamento de Estado dos EUA informou que o governo norte-coreano retém até 90% dos ganhos dos trabalhadores no exterior, gerando centenas de milhões de dólares em receita para o regime.

Como funciona o processo de tráfico de pessoas nos países do Sul Global?

Recrutamento: Anúncios em redes sociais e influenciadores pagos prometem passagem aérea gratuita, salário inicial acima de US$ 500 por mês e oportunidades de trabalho em catering, hospitalidade e operação de produção. Os recrutadores miram mulheres de 16 a 22 anos em países com alto desemprego juvenil. A publicidade em vários países ganha credibilidade a partir de avisos de recrutamento publicados em contas governamentais.

Teste: Os candidatos entram em um canal do Telegram e recebem um recrutador. Completam uma triagem curta, incluindo um jogo de computador e um teste de vocabulário de 100 palavras em russo ou inglês, e fornecem documentos ao RH, incluindo cópia do passaporte e prontuário médico.

Liberação: Os arquivos dos candidatos são encaminhados ao Ministério de Relações Exteriores da Rússia e depois à embaixada russa no país de origem da candidata. O Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB), a principal agência de segurança interna e contrainteligência do país, libera os potenciais trabalhadores com uma verificação de segurança. Contratos de trabalho são prometidos dentro de três semanas após a aprovação no processo de entrevista.

Dívida: O ministério russo emite um convite para o candidato; o recrutado paga pela consulta do visto, e o programa reserva a passagem aérea.

Chegada: Funcionários de Alabuga recebem cada recrutado e os escoltam até a zona econômica especial, onde o novo trabalhador ou trabalhadora é alojado em um albergue da empresa e matriculada em um curso obrigatório de língua russa.

Trabalho: Cerca de 90% dos recrutados estrangeiros são designados para a produção de drones, onde montam fuselagens, manipulam produtos químicos corrosivos e pintam diferentes tipos de drones.

Restrições: A empresa desconta os custos de passagem aérea, moradia, assistência médica e aulas de idioma do pagamento dos trabalhadores. Seus passaportes são confiscados e sua circulação é restrita. Eles são multados ou ameaçados se discutirem o trabalho com drones. Remeter dinheiro pode ser difícil devido às sanções bancárias.

A participação da China em Alabuga

Se o Irã fornece o design original, a Rússia constrói a fábrica e a Coreia do Norte contribui com mão de obra forçada patrocinada pelo Estado, a China, por meio de uma rede de suprimentos que facilita, fornece os meios para a Rússia produzir em massa os drones.

Segundo o estudo, a participação da China agrava os abusos de direitos humanos ao permitir que a Rússia industrialize e expanda rapidamente a fábrica de drones. Pequim estaria fazendo isso de três maneiras:

– Como principal fornecedora de componentes de dupla utilização, incluindo baterias, eletrônicos, motores e peças de motor, e sistemas de navegação;

– Como financiadora indireta, movimentando dinheiro para a Rússia por meio de redes de pagamento resistentes a sanções;

– Como rota de trânsito para componentes de drones, incluindo produtos ocidentais, que são enviados através da China e de Hong Kong;

Não está claro se a China está financiando diretamente as fábricas de drones de Alabuga com dinheiro tradicional ou investimentos monetários. No entanto, a Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China documenta o papel da China em facilitar transações financeiras que permitem à Rússia e ao Irã evadir sanções.

Mas é certo que a China fornece infraestrutura financeira que autoriza e liquida pagamentos entre Rússia e Irã, permitindo assim a evasão de sanções.