Ataques houthis expõem fragilidade da defesa saudita apesar de gastos bilionários

Mesmo com um dos maiores orçamentos militares do mundo e arsenal sofisticado dos EUA, Arábia Saudita enfrenta dificuldades para conter drones e mísseis lançados pelo grupo apoiado pelo Irã

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A Arábia Saudita opera centenas de caças F-15

Foto: Ryan Olson/Bloomberg
A Arábia Saudita opera centenas de caças F-15 Foto: Ryan Olson/Bloomberg

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Os ataques dos houthis à Arábia Saudita estão expondo os limites da capacidade militar do reino, apesar de seus gastos com defesa superarem com folga os dos demais vizinhos da região.

Mísseis e drones lançados pelo grupo apoiado pelo Irã a partir do Iêmen provocaram destruição em território saudita nos últimos dias, matando ao menos 18 pessoas e forçando o fechamento do principal aeroporto internacional do país, em Riad. Os houthis não dão sinais de que pretendem reduzir a ofensiva e continuaram atacando diversas cidades sauditas ao longo desta semana.

A Arábia Saudita destinou entre US$ 64 bilhões e US$ 96 bilhões para defesa neste ano, segundo dados compilados pela Bloomberg Economics. No topo da estimativa, o valor é mais que o dobro do gasto de Israel, o segundo maior orçamento militar do Oriente Médio.

O reino opera baterias antimísseis Patriot, da Raytheon, equipadas com os mais modernos interceptadores PAC-3 da Lockheed Martin, utiliza centenas de caças F-15 da Boeing adaptados para sua força aérea e é o único país do Golfo com aeronaves de reabastecimento em voo.

Ainda assim, os houthis vêm conseguindo causar danos consideráveis com equipamentos muito menos sofisticados.

Uma das razões é o tamanho do território saudita. O país ocupa mais de 2,1 milhões de quilômetros quadrados e possui uma enorme quantidade de ativos estratégicos a serem protegidos, incluindo instalações petrolíferas, bases aéreas e grandes centros urbanos.

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Defender-se de mísseis balísticos já é uma tarefa complexa quando há apenas um alvo principal. Em um país de dimensões continentais, o desafio é muito maior. Durante a fase inicial da guerra travada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, milhares de ataques iranianos foram interceptados pelos sistemas de defesa da região. Mas mesmo uma taxa de sucesso de 90% pode resultar em danos significativos quando o volume de disparos é elevado.

Além disso, as Forças Armadas sauditas ainda passam por um processo de modernização e continuam altamente dependentes dos Estados Unidos, especialmente na área de inteligência militar.

Adversário adaptável

Os ataques recentes dos houthis misturam diferentes tipos de armamentos, tornando a defesa ainda mais difícil. O grupo emprega drones, mísseis de cruzeiro de baixo voo e baixo custo e também mísseis balísticos.

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Apoiado pelo Irã, o movimento desenvolveu uma capacidade de adaptação que surpreende analistas militares. Após anos de combate no Iêmen, os houthis acumularam experiência de guerra e resistiram a sucessivas campanhas militares destinadas a derrotá-los.

“Os houthis se beneficiaram de alguma sorte, mas demonstram uma capacidade impressionante de adaptação”, disse Ankit Panda, pesquisador da Carnegie Endowment for International Peace. “Um atacante determinado e armado com mísseis continua sendo extremamente difícil de neutralizar.”

O arsenal do grupo evoluiu a ponto de permitir a fabricação de drones relativamente precisos e de mísseis balísticos, alguns deles produzidos com componentes de empresas chinesas.

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Essas armas custam milhares ou centenas de milhares de dólares, muito menos do que os interceptadores antiaéreos utilizados para abatê-las, cujo preço pode chegar a vários milhões de dólares.

Isso significa que mesmo quando os ataques são neutralizados, eles impõem custos significativos à Arábia Saudita e pressionam seus estoques de defesa.

Limitações dos sistemas de defesa

Outro problema é que as baterias Patriot possuem cobertura direcional. Elas não protegem uma área completa de 360 graus.

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Segundo Becca Wasser, especialista em defesa da Bloomberg Economics, caso radares e lançadores tenham sido posicionados para interceptar possíveis ataques vindos do Irã, podem ter tido dificuldade para responder rapidamente a disparos lançados pelos houthis a partir do sul.

Embora as capacidades aéreas e de defesa antimísseis tenham evoluído nos últimos anos, os militares sauditas ainda dependem fortemente dos EUA para obtenção de dados de inteligência e designação de alvos.

“A modernização avançou desde as reformas iniciadas pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, mas o processo é lento e concentrado em áreas específicas, e não em toda a força”, afirmou Wasser.

Dinheiro e armas não bastam

Apesar de possuir mais de 200 caças F-15, quase tantos quanto a própria Força Aérea dos Estados Unidos, a Arábia Saudita não conseguiu utilizá-los de forma decisiva ao longo de mais de uma década de bombardeios contra os houthis.

A guerra começou em 2015, quando o grupo tomou o controle da capital do Iêmen, Sanaa. Os combates diminuíram após uma trégua em 2022, mas voltaram a escalar recentemente.

“Equipamentos e dinheiro não vencem guerras”, disse Wolf-Christian Paes, pesquisador do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS). “Treinamento, motivação e liderança fazem a diferença.”

Segundo especialistas, décadas de dependência da proteção militar americana reduziram os incentivos para que países do Oriente Médio desenvolvessem plenamente suas capacidades próprias.

A Arábia Saudita não escapou dessa chamada “maldição da proteção”, afirma David Roberts, professor de Segurança Internacional do King’s College London.

Ataques anteriores, como o ataque de drones contra as instalações petrolíferas de Abqaiq em 2019, já haviam demonstrado as limitações desse modelo.

Uma ameaça difícil de neutralizar

Até agora, Donald Trump evitou uma intervenção militar direta no conflito. Em publicação na rede Truth Social nesta semana, afirmou apenas que os houthis estão “se comportando muito mal”, sem detalhar possíveis ações.

Já o ministro da Energia saudita, príncipe Abdul Aziz bin Salman, classificou os acontecimentos recentes como “graves” e afirmou que a resposta do reino deverá ter a mesma seriedade.

Os houthis ganharam destaque internacional após ameaçarem o tráfego marítimo no Mar Vermelho durante a guerra em Gaza. Em resposta, os Estados Unidos realizaram mais de mil ataques aéreos ao longo de três meses.

Mesmo assim, destruir lançadores móveis escondidos em áreas montanhosas e eliminar instalações subterrâneas de produção mostrou-se extremamente difícil.

“Os houthis demonstram de forma clara os limites do que uma campanha aérea pode alcançar”, afirmou April Longley Alley, pesquisadora do Washington Institute.

O ex-secretário de Defesa dos EUA Lloyd Austin também avalia que a Arábia Saudita dificilmente conterá a ameaça sozinha.

“Haverá um esforço coordenado para controlar os houthis”, afirmou. “Mas não será fácil. Eles são muito mais resilientes do que a maioria das pessoas imagina.”

Os conflitos recentes no Irã e na Ucrânia também reforçaram uma conclusão crescente entre especialistas: mísseis balísticos de longo alcance permitem que mesmo forças militares relativamente mais fracas imponham custos elevados e causem sérios problemas a adversários muito mais poderosos.

Os houthis dispõem hoje de mísseis de cruzeiro Quds-1, com alcance estimado em 750 quilômetros, além dos mísseis balísticos Burkan-1, Burkan-2 e Burkan-3, capazes de atingir alvos a até 1.200 quilômetros de distância, colocando praticamente todo o território saudita ao alcance de seus ataques.

Para muitos analistas, as dificuldades enfrentadas por Riad refletem um problema maior.

“O Iêmen é uma fortaleza difícil de conquistar. Os Estados Unidos não conseguiram resolver esse problema”, disse Longley Alley. “Essa é uma questão que não pode ser solucionada apenas com instrumentos militares.”

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