Guerra colide com ambições da Arábia Saudita em encontro de potências do petróleo

O clima no Congresso Mundial de Energia, realizado em Riad nesta semana, foi de resistência, mesmo com participantes obrigados a alterar planos de viagem ou acompanhar o evento à distância

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Participantes acompanham a abertura da 25ª edição do Congresso Mundial de Energia (WPC Energy Congress), em Riad, na Arábia Saudita, em 12 de outubro de 2026. Foto: WPC Energy Congress/Divulgação via Reuters
Participantes acompanham a abertura da 25ª edição do Congresso Mundial de Energia (WPC Energy Congress), em Riad, na Arábia Saudita, em 12 de outubro de 2026. Foto: WPC Energy Congress/Divulgação via Reuters

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RIAD, Arábia Saudita — Do lado de fora do gigantesco centro de exposições de Riad, onde centenas de executivos do setor de petróleo e gás participavam nesta semana de uma conferência internacional de energia, diplomatas estrangeiros receberam um alerta sobre um possível míssil rumo à capital saudita.

Dentro do pavilhão, o aviso era outro: os participantes deveriam ocupar seus lugares, pois o ministro da Energia da Arábia Saudita, príncipe Abdulaziz bin Salman, estava prestes a subir ao palco.

A Arábia Saudita enfrenta uma forte escalada de ataques com mísseis e drones lançados pelos rebeldes houthis do Iêmen, aliados do Irã. Ataques ao Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riad, mataram ao menos 17 pessoas e deixaram centenas de feridos. As autoridades suspenderam as operações comerciais do terminal por tempo indeterminado.

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O contraste foi impossível de ignorar. Participantes do Congresso Mundial de Energia (WPC Energy Congress), iniciado no domingo, precisaram redirecionar voos para outros aeroportos e até outros países da região. Alguns executivos, incluindo os CEOs da Exxon, Shell, Chevron e BP, cancelaram suas participações.

Apesar das ameaças, as autoridades sauditas tentaram transmitir uma mensagem de normalidade durante o evento, programado para seguir até sexta-feira (16).

“A palavra ‘medo’ não existe no dicionário saudita”, afirmou Abdulaziz em tom desafiador na segunda-feira.

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A guerra envolvendo o Irã, agora em seu oitavo mês, provocou mudanças profundas na ordem econômica e de segurança do Oriente Médio. Portos dos Emirados Árabes Unidos essenciais para o comércio global ficaram expostos a uma nova frente marítima do conflito. No Catar, instalações estratégicas de gás natural liquefeito sofreram danos significativos.

Poucos países foram tão testados quanto a Arábia Saudita, maior exportadora de petróleo da região.

Os sauditas perderam grande parte do acesso ao Estreito de Ormuz, principal rota para exportação de petróleo, depois que o Irã passou a controlar militarmente a passagem. Quando tentaram redirecionar os embarques por um oleoduto até o Mar Vermelho, milícias apoiadas por Teerã no Iraque atacaram a infraestrutura.

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Ao longo da crise, o governo saudita e a estatal Aramco conseguiram manter o fluxo de petróleo para os mercados internacionais. O processo foi caro, mas compensado pela disparada dos preços do petróleo.

Os ataques dos últimos dias, porém, expuseram riscos crescentes não apenas para a segurança do reino, mas também para o projeto saudita de se consolidar como um centro financeiro global.

Ainda neste mês, Riad sediará um evento considerado ainda mais importante para o governo: a conferência anual de investimentos promovida pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. Conhecida como Future Investment Initiative (FII) e apelidada de “Davos do Deserto”, a reunião costuma atrair chefes de Estado, bilionários e líderes empresariais do mundo todo.

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O evento é uma das principais vitrines da Vision 2030, programa criado para reduzir a dependência da economia saudita do petróleo e expandir setores como tecnologia, turismo, esportes e cultura.

Os organizadores confirmaram nesta terça-feira que a conferência será realizada conforme o planejado e prometeram medidas reforçadas de segurança e apoio logístico aos participantes.

Ainda assim, o impacto dos ataques sobre o Congresso Mundial de Energia serviu como alerta para os riscos enfrentados pelo reino. Darren Woods, CEO da Exxon Mobil, e Meg O’Neill, da BP, ficaram de fora do evento. Diversos representantes governamentais, incluindo o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, participaram por videoconferência.

Analistas afirmam que manter grandes eventos em funcionamento, apesar das ameaças, é tanto uma decisão econômica quanto estratégica.

“Apesar de toda a confusão que acontece na região, eles mantiveram a programação porque é isso que preserva a confiança”, disse Yousef Alshammari, presidente do London College of Energy Economics.

“Sem confiança, seria difícil atrair investimentos estrangeiros”, acrescentou.

Além do aspecto econômico, especialistas avaliam que cancelar eventos emblemáticos em Riad representaria uma vitória psicológica para os houthis.

“Isso sugeriria que os ataques estão conseguindo interromper a transformação econômica do país e prejudicar sua posição internacional”, afirmou Neil Quilliam, especialista em política energética do Oriente Médio no instituto Chatham House.

Para a Arábia Saudita, projetar estabilidade também é fundamental para preservar sua reputação como principal fornecedor global de petróleo.

No congresso, a mensagem central do governo foi justamente a segurança energética. Abdulaziz procurou tranquilizar os mercados, classificando Riad como “a capital da segurança energética” e apresentando o país como um fornecedor confiável, apesar do conflito crescente na região.

O ministro destacou a rápida recuperação do oleoduto Leste-Oeste, temporariamente interrompido em setembro após um ataque com drones lançado a partir do território iraquiano.

A infraestrutura leva petróleo dos campos do leste saudita até um terminal no Mar Vermelho e tem sido considerada vital para o país nos últimos meses por contornar o Estreito de Ormuz.

Segundo Abdulaziz, o governo planeja ampliar a capacidade do oleoduto para cerca de 10 milhões de barris por dia, ante o limite atual de 7 milhões.

“A segurança energética não pode ser considerada garantida”, afirmou. “Essas circunstâncias testaram nossa infraestrutura, nossas instituições, nosso povo e nossa resiliência. Mas também colocaram à prova decisões tomadas muito antes das crises atuais, porque a resiliência é construída antes de a crise começar.”

c.2026 The New York Times Company