Guilherme Benchimol: “Você só tem um negócio de verdade quando se torna substituível”

Em entrevista durante a B55 Conference, fundador da XP fala sobre sucessão, meritocracia, inteligência artificial e os desafios de transformar empreendedores em gestores

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(Foto: Fabio Rizzato / Infomoney)
(Foto: Fabio Rizzato / Infomoney)

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Depois de mais de duas décadas como CEO da XP, Guilherme Benchimol passou a desempenhar um papel diferente na companhia que fundou, a partir de 2021. Hoje, como presidente do Conselho de Administração da XP Inc., concentra-se em estratégia, governança e desenvolvimento de lideranças, enquanto reflete sobre um dos maiores desafios enfrentados por empreendedores: a transição de executor para gestor.

Para o fundador da XP, o sucesso de uma empresa depende não só da figura do empreendedor, mas principalmente da capacidade de formar equipes fortes, criar uma cultura de meritocracia e desenvolver profissionais capazes de assumir responsabilidades cada vez maiores. Na sua visão, é justamente quando o negócio deixa de depender exclusivamente do fundador que alcança um novo patamar de maturidade.

Em entrevista ao InfoMoney durante a B55 Conference, Benchimol também falou sobre os erros mais frequentes de empresários em fase de crescimento, o uso da inteligência artificial para aumentar eficiência e produtividade, sua experiência após deixar o cargo de CEO da XP e o trabalho realizado pelo Instituto B55, iniciativa sem fins lucrativos voltada ao desenvolvimento de empreendedores.

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Confira os principais trechos da entrevista:

InfoMoney: Você passou mais de duas décadas à frente da XP e hoje exerce um papel diferente na companhia. O que mudou depois que você deixou o cargo de CEO?

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Guilherme Benchimol: Você só tem um negócio de verdade quando se torna substituível. Se a empresa depende exclusivamente de você, não tem um negócio; tem um superemprego.

Quando você constrói uma estrutura em que a meritocracia funciona, garantindo que os bons profissionais cresçam e que aqueles que não se encaixam saiam, começa a formar um time forte. E, com o tempo, percebe que há pessoas melhores do que você para conduzir a companhia. É preciso saber mudar de fase.

Há cerca de sete anos, tive uma conversa com Jorge Paulo Lemann. Ele falou: “Você nunca tem tempo. Eu vou conversar com você e você já está correndo”. E disse: “Pensa que, quando você é dono, em algum momento a cadeira de CEO fica pequena”. Eu só entendi o significado disso depois.

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Hoje, estou mais focado no conselho, no longo prazo e no desenvolvimento de pessoas. Tenho mais tempo de qualidade para me aprofundar em determinados assuntos, sem a pressão da rotina de um CEO.

InfoMoney: Você criou o B55 para ajudar outros empreendedores. O que faltou para você no início da XP que hoje pode oferecer aos empresários que participam do instituto?

Benchimol: A vida do empreendedor é muito solitária. Muitas vezes, é ele sozinho ou ele e o sócio tomando decisões. Ter um ambiente de confiança, no qual você pode conversar com grandes empreendedores que já passaram por situações parecidas, faz muita diferença.

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O que queremos é que os empreendedores saiam do Instituto B55 mais fortes, identifiquem os erros que estão cometendo e implementem mudanças para construir negócios melhores e maiores. Queremos que o Brasil dê certo, e isso passa por ter mais empreendedores, mais empresas e mais geração de empregos e renda.

InfoMoney: Você também falou sobre as dificuldades de gestão dos empreendedores. Qual é o erro mais comum entre aqueles que procuram o B55?

Benchimol: Muitos empreendedores já tiveram algum sucesso, mas não conseguem mudar a forma de trabalhar. Chegaram até ali porque eram pessoas que faziam acontecer, mas não estão conseguindo se transformar em gestores.

Depois que você começa a ter sucesso, precisa aprender a gerir pessoas. Tem de deixar de ser apenas um executor e aprender a colocar gente boa nas posições certas, construir uma visão e um plano sólidos e fazer a meritocracia funcionar. Isso significa aprender a demitir quem não combina com a empresa e separar quem é competente de quem é comprometido.

InfoMoney: Se você fosse começar a XP hoje, com a IA disponível desde o primeiro dia, o que faria de diferente?

Benchimol: A inteligência artificial permite empreender em um nível mais alto. Você consegue ter uma estrutura de custos muito mais eficiente e entregar mais qualidade ao cliente. Há muitas tarefas operacionais que podem ser automatizadas, permitindo fazer mais com menos.

A tecnologia permite melhorar a qualidade do atendimento e aumentar a eficiência interna. As empresas que já nascem nesse ambiente têm uma vantagem, porque são mais nativas nessa tecnologia.

InfoMoney: Você contou que começou a empreender depois de ser demitido. No painel da B55 Conference, também defendeu que os empresários precisam desligar profissionais que não estão alinhados à cultura da empresa. Hoje, você entende por que foi demitido? Teria tomado a mesma decisão?

Benchimol: Eu era muito questionador e trabalhava em uma empresa em que esse tipo de cultura não era tão comum. Acho que criava mais confusão do que trazia soluções. O que me deixou frustrado na época foi não haver regras muito claras.

A meritocracia não pode valer só para cima; precisa valer para baixo também. É preciso ter a possibilidade de desligar as pessoas quando necessário e dar a elas a oportunidade de encontrar um lugar onde possam dar certo. Não é porque alguém não deu certo em uma empresa que essa pessoa é incompetente. No meu caso, não deu certo na corretora em que trabalhava, mas encontrei meu lugar em outro lugar.

Acredito que a meritocracia deve considerar duas dimensões: metade é performance e metade são comportamento e cultura. Não basta atingir metas. Você pode ser brilhante, muito competente e alcançar resultados extraordinários, mas destruir o time no processo, sendo arrogante ou deixando de pensar nas outras pessoas. Isso não serve.

Da mesma forma, não basta ser um embaixador da cultura se você não entrega resultados. O ideal é reunir as duas coisas: atingir metas e agir de acordo com a cultura da companhia.

Se eu fosse o dono da empresa em que trabalhava, com aquela cultura, me demitiria. A cultura daquela empresa não combinava comigo. Era um ambiente em que se esperava que as pessoas cumprissem ordens, e não foi assim que construí a XP.

Na XP, evidentemente, existe hierarquia, mas acreditamos no potencial das pessoas. Gostamos de gente corajosa, que critica, desafia e pensa fora da caixa.

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Maria Luiza Dourado
Minhas Finanças | Carreira | Consumo

Repórter de Finanças do InfoMoney. É formada pela Cásper Líbero e possui especialização em Economia pela Fipe - Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas.