Brasil mostra a sua cara: o aplauso do mercado é a razão da embriaguez dos governantes?

O resultado eleitoral surpreendeu e os mercados reagiram muito positivamente. Brasil se revelou e a imagem é diferente daquela que se pensava

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Os eventos eleitorais, tal como os de mercado, invariavelmente surpreendem. Por mais pesquisa e previsão que possa haver, o resultado costuma ser inesperado. Por isso mesmo, os participantes do mercado falam desse coletivo do qual fazem parte numa respeitosa terceira pessoa. O mercado pensa assim, ou assado. Foi para um lado, ou para o outro, e as pessoas podem ter soprado a favor ou contra.

Mas o indivíduo tem pouca importância diante do conjunto, que parece ter uma vontade toda própria, impossível de antecipar, até porque os coletivos não precisam ser racionais mesmo sendo a soma de muitas mentes muito racionais, inteligentes e bem-informadas.

Com as eleições parece se dar algo muito semelhante.

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Pois bem, o resultado eleitoral surpreendeu e os mercados financeiros reagiram muito positivamente ao que se passou. Muita gente ficou feliz, outros ficaram contrariados. O Brasil se revelou e a imagem é diferente daquela que se pensava. E é sempre assim.

O lado perdedor poderá sempre repetir a máxima de que o veredito do mercado é uma conspiração de financistas e que nada mais expressa que a visão da “Faria Lima”. E com isso misturam o resultado da eleição com a sua repercussão. O fato é que é sempre ruim descobrir que o Brasil é diferente do que a gente pensava.

Sim, há enorme resistência a se considerar que os mercados, na sua infinita volubilidade, representem a coletividade ou a opinião pública. O debate é antigo, não é preciso trazer mais lenha para essa fogueira. Vamos aos fatos sobre a eleição e sobre como a economia afetou os resultados.

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Na verdade, vamos a uma tese sobre essa eleição ocorrida no dia 4 de outubro, o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. A tese é simples: o pleito foi um plebicito sobre o presidente Lula, que disputa o seu quarto mandato, em sua sétima eleição, do alto de seus 80 anos.

É como se fosse uma eleição dele com ele, pouco importa quem está do outro lado. Perdão, claro que importa. Mas antes de ganhar da oposição é preciso ganhar de si mesmo.

É provável que tudo já tenha sido falado sobre a política e sobre os resultados dessa eleição. Me restam apenas um dedo e meio de prosa sobre o debate econômico, assunto que talvez merecesse mais atenção. Há uma parte saudável nesse desinteresse, e que tem a ver com a política monetária ter sido subtraída do ciclo político pelo novo arranjo institucional que governa a escolha dos dirigentes do Banco Central.

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Com os mandatos fixos dos dirigentes do BCB, descasados do mandato do presidente da República, temos que o novo presidente herda dois anos do presidente do BCB escolhido pelo presidente anterior. Lula herdou Roberto Campos Neto durante dois anos. Reclamava dos juros dia sim, dia também, até nomear o seu presidente do BCB, que vai ser herdado pelo próximo presidente da República, e segue o jogo.

Com isso, o Banco Central não faz parte da eleição, o que é muito bom. Eleições polarizadas podem ocorrer sem gerar volatilidade financeira.

Nesse arranjo, o BCB funciona como agência reguladora independente que faz o que é preciso fazer, ou seja, temos uma atuação técnica que tem se mostrado imune aos alvoroços eleitorais. Claro que muita gente reclamou dos juros, da dívida pública e da dívida das pessoas. Inclusive o governo.

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Mas não houve nenhuma movimentação para terminar com a política de metas para a inflação, nem mesmo para mudar a meta de 3%, ou para instrumentalizar o Banco Central. E não é porque seja necessária uma emenda constitucional ou uma decisão da Suprema Corte estabelecendo que o juro é inconstitucional: bastava uma resolução do Conselho Monetário para mudar a meta e um decreto presidencial para alterar o regime de metas.

O fato é que o regime está assentado e isso retirou um assunto complexo dos debates eleitorais. Claro que há outros assuntos interessantes e difíceis no terreno da economia, mas esses temas não frequentaram os debates anteriores ao pleito de 4 de outubro, senão de forma meio oblíqua.

Talvez mesmo porque foram poucos espaços e poucos debates. O eleitor jamais esquecerá o rocambolesco cancelamento do debate da Globo, normalmente o ponto culminante dos debates eleitorais. Resta evidente que há muita teatralidade nesses debates televisivos, em que, de verdade, não se debate mesmo muita coisa. Ainda mais as coisas complicadas da economia.

Mas ficou o não dito.

Bem, tratando-se de uma espécie de plebiscito, como já observado, é bem clara a impressão de que Lula é o ministro da Fazenda de si mesmo, um tema repetidamente tratado neste informativo. Fernando Haddad se adaptou disciplinada e fielmente a este papel. Os erros sucessivos dos economistas do PT da geração anterior possivelmente foram decisivos para o presidente Lula firmar uma ideia negativa sobre seus economistas e sobre economia. O fato é que Lula não trabalha com o conceito de um economista que lhe diga o que fazer na economia.

É um caso claro de automedicação.

Isso fica particularmente flagrante nesses últimos meses antes de 4 de outubro, quando o amontoado de medidas parece responder diretamente às demandas do candidato, ou do marqueteiro do candidato. Há páginas inteiras de jornais com programas instagramáveis, com logo, site, comercial na TV e tudo: Pé de Meia, Gás do Povo, Farmácia Popular, Mais Médicos, Agora com Especialistas, além do Minha Casa, Minha Vida e do Bolsa Família.

Há também a abolição da escala 6×1, o reajuste da faixa de isenção do IR, a taxação dos super-ricos (na verdade dos dividendos), o reajuste do Bolsa Família 17 dias antes da eleição, as manobras que levaram ao cancelamento do debate na Globo, as canetas emagrecedoras no SUS e a inesquecível declaração sobre a babaquice do superávit primário.

Esse conjunto possui uma lógica eleitoreira que não é consistente com a ideia de responsabilidade fiscal e não há necessidade de nenhum economista ir para a televisão explicar. As pessoas entendem, sabem fazer conta, sabem ver que não há nenhum plano econômico que dê liga a esse conjunto.

Os especialistas usam palavras mais complicadas: inconsistência, por exemplo. O governo fixa a meta para a inflação em 3%, mas faz uma política fiscal que levaria a uma inflação muito mais alta. A agência reguladora da Moeda fez o seu serviço, como a da Saúde fez o seu durante a pandemia. Claro que as pessoas entendem o que é uma inconsistência, ainda que com outro nome.

Os candidatos de oposição jogaram parados nesse primeiro turno: Lula perdeu a eleição para si mesmo, ele e sua hubris. Talvez o segundo turno seja diferente. Ou não. O fato é que os mercados gostaram do desfecho.

Há entretanto, ao menos um problema: o aplauso do mercado pode ser a exata razão da embriaguez dos governantes.


Gustavo começou sua carreira no setor público em maio de 1993, como Secretário Adjunto de Política Econômica quando Fernando Henrique Cardoso assumiu o Ministério da Fazenda. Foi diretor de Assuntos Internacionais e presidente do Banco Central do Brasil entre 1993 e 1999. Gustavo teve participação central na formulação e operacionalização do Plano Real, bem como nos debates associados à estabilização e às reformas que se seguiram. Depois de deixar o Banco Central, Gustavo fundou a Rio Bravo Investimentos, instituição líder em investimentos alternativos no Brasil, com destaque para sua atuação na área de fundos imobiliários, renda fixa, crédito, renda variável e infraestrutura. Com cerca de R$ 13 bilhões sob gestão, a Rio Bravo está associada, desde 2016, à Fosun, um dos mais destacados grupos privados chineses. Tem dezessete livros publicados não apenas sobre economia, mas também sobre temas econômicos em Machado de Assis, Fernando Pessoa, Goethe e Shakespeare. É bacharel (1979) e mestre (1982) em economia pela PUC do Rio de Janeiro e PhD (1986) pela Universidade de Harvard. ​