De 3 caminhões aos R$ 2 bi: como nasceu a maior transportadora de grãos do mundo

A história da G10 começa em 1986, passa pela decisão de abandonar outros negócios e se unir a concorrentes – e chega a uma fase em que saber quando parar de investir virou parte da estratégia

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Em 1986, Claudio Adamuccio tinha 19 anos e seu irmão Valdecir, 16, quando o pai reuniu os dois para fazer uma proposta.

Ele tinha três caminhões pequenos e queria se dedicar mais à igreja. Aos filhos, entregaria os veículos e uma responsabilidade.

“Ele disse: ‘Gostaria de lançar um desafio. Eu passo para vocês esses três caminhões e vocês têm o compromisso de cuidar da família, porque quero me dedicar à Igreja’”, conta Claudio, hoje diretor-presidente da G10 Transportes, à Mariana Amaro, apresentadora do podcast Do Zero ao Topo.

“Falei: aceito o desafio. E fomos para a estrada.”

Quatro décadas depois, o negócio se transformou na maior transportadora rodoviária de grãos do mundo, com mais de 2.200 caminhões, 120 milhões de quilômetros percorridos por ano e faturamento superior a R$ 4 bilhões.

O crescimento, porém, não foi uma estrada em linha reta.

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A trajetória inclui uma fase em que transporte, serraria, carvão e exportação conviviam dentro do mesmo negócio; a decisão de concentrar tudo no transporte; a união com concorrentes; crises como a greve dos caminhoneiros e a pandemia; e, mais recentemente, a escolha de interromper um ciclo de expansão da frota.

Antes da G10, os caminhões eram apenas parte do negócio

Claudio e Valdecir começaram a operar no Mato Grosso do Sul, ainda como pessoas físicas e de maneira informal.

Em 1986, fundaram a Transpanorama.

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Naquele momento, porém, transportar cargas era apenas uma das atividades.

“Os caminhões eram o meio”, lembra Adamuccio.

Os irmãos compraram uma serraria, passaram a exportar madeira para a Itália e forneciam resíduos como carvão para a siderurgia.

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Ao mesmo tempo, a frota evoluía.

Os caminhões pequenos deram lugar a carretas – entre elas os modelos conhecidos como “jacaré”, os Scania bicudos de cor laranja.

As cargas também mudaram. Milho, soja e algodão ganharam espaço na carreta.

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Em 1996, a empresa se mudou para Maringá. No ano seguinte, uma decisão de um banco levaria Adamuccio a rever a própria estratégia.

Um banco recusou a empresa – e isso mudou o negócio

A Transpanorama mantinha conta no Bamerindus. Em 1997, o banco foi vendido ao HSBC, que passou a aplicar critérios diferentes aos clientes.

“Um belo dia, me disseram que não queriam ter empresas com atividades ligadas a carvão ou a madeira”, conta Adamuccio.

Em vez de mudar de banco, ele decidiu mudar o modelo de negócio.

“Eu olhei aquilo e pensei: como alguém recusa cliente? Fui entender que ninguém domina, que ninguém consegue ser único numa atividade, e que você deve fazer escolhas de acordo com o teu propósito, com o legado que você quer deixar.”

A conclusão foi abandonar as demais atividades e concentrar a empresa no transporte.

“Eu vejo no transporte algo muito bonito: você transportar as riquezas do teu país, conectar o produtor ao porto, às indústrias. Algo que ficaria para a história, como contribuição com o desenvolvimento do país.”

Serraria, carvoaria e exportação de madeira saíram da operação.

A empresa fechou o foco no transporte de cargas.

Por que a Transpanorama resolveu se juntar aos concorrentes

Depois da decisão de focar no transporte, surgiu outro problema: escala.

Em 1998 e 1999, discussões sobre a regulamentação de novos tipos de implementos fizeram Adamuccio viajar com frequência a Brasília.

Nesse caminho de idas e vindas, ele percebeu a dificuldade de uma empresa pequena defender seus interesses sozinha.

“Nós éramos pequenos. A Transpanorama, que saiu de três caminhões em 1986, estava com 27 no ano 2000. Vimos a necessidade de fazer o inimaginável: se juntar com concorrentes diretos para juntar força”, afirma.

A proposta era reunir transportadoras de Maringá que disputavam os mesmos mercados.

Dez empresas aceitaram.

Nascia a Associação Grupo dos Dez, que mais tarde daria origem ao G10 Transportes.

“Começamos a nos reunir para fazer compras juntos e oferecer ao cliente uma empresa mais estruturada, com mais capacidade”, explica.

A união começou com pouco mais de 120 caminhões.

Ao longo dos anos, divergências de opinião e de valores reduziram o número de integrantes. Desde 2007, o grupo opera com cinco empresas.

Juntas, elas somam hoje mais de 2.200 conjuntos e formam a maior transportadora rodoviária de grãos do mundo.

“Como no mundo só o Brasil transporta grãos em distâncias continentais com esse volume, faz-nos imaginar que não há nenhuma outra transportadora rodoviária de cargas tão grande quanto a G10 em grãos”, afirma Adamuccio.

Greve e pandemia colocaram a operação à prova

Ao longo da trajetória da G10, dois episódios colocaram em evidência a dependência do país do transporte rodoviário – e obrigaram a empresa a operar em situações para as quais não havia referência pronta.

O primeiro foi a greve dos caminhoneiros de 2018.

Adamuccio diz que grandes empresas como a G10 não se envolveram diretamente no movimento, mas lembra que a mobilização dos autônomos ganhou proporções difíceis de controlar.

“Nós, como grandes empresas, não podemos nos envolver diretamente”, afirma.

Segundo ele, a fragmentação entre os caminhoneiros autônomos ajudava a tornar o movimento menos previsível.

“Temos perto de 500 mil caminhoneiros autônomos independentes, que não têm uma liderança unificada. Cada um tem sua mente e, se sente prejudicado, toma suas atitudes. Então, é um estopim que, quando estoura, é difícil ser controlado.”

A paralisação chegou ao desabastecimento de combustíveis e alimentos.

Para Adamuccio, aquele episódio mostrou de forma concreta o peso do transporte rodoviário no funcionamento do país.

“O Brasil viu que o transporte é um elefante amarrado por um barbante, pela força, pela capacidade de alimentar o país, mover o Brasil ou não.”

Dois anos depois, a pandemia de Covid-19 trouxe um problema diferente.

Motoristas e mecânicos precisavam continuar trabalhando, enquanto postos, restaurantes e outros pontos de apoio nas estradas estavam fechados ou operavam com restrições.

Ao mesmo tempo, ainda havia pouca clareza sobre as melhores formas de proteção contra o vírus.

“Foi algo muito complicado”, diz Adamuccio. “Ninguém sabia realmente como se proteger.”

A G10 adotou uma série de medidas para reduzir os riscos dentro da operação.

Funcionários usavam equipamentos de proteção para descontaminar os caminhões quando eles entravam para manutenção, de forma a proteger também os mecânicos.

Nas áreas administrativas, foram instaladas placas de acrílico, além de medidas para separar e distanciar as pessoas.

A empresa também precisou lidar com um problema mais básico: a alimentação dos motoristas na estrada.

Com restaurantes fechados, o posto de combustível da companhia passou a preparar alimentos para retirada sem contato. Ficavam disponíveis gratuitamente aos motoristas, inclusive aos que não trabalhavam para a G10.

“Como a proximidade era o maior medo, então eram colocados frutas, iogurtes e lanches em volume, que os motoristas passavam e retiravam gratuitamente, porque eles não tinham acesso a restaurantes”, afirma.

A G10 também participou de ações realizadas em parceria com clientes. Em alguns casos, transportou gratuitamente cargas de álcool em gel destinadas a doação.

Adamuccio afirma que praticamente não houve recusa dos motoristas em continuar trabalhando durante aquele período.

Segundo ele, nenhum motorista da G10 morreu em decorrência da Covid-19.

“A pandemia mostrou a nobreza e a força dos caminhoneiros”, afirma.

Mais recentemente, o principal desafio da G10 mudou de natureza.

Por que a G10 decidiu parar de comprar caminhões

O transporte rodoviário exige capital continuamente, sobretudo para a renovação da frota, mas opera com margens apertadas.

Adamuccio resume o setor como “pura gestão de custos o tempo todo”.

Com a Selic em patamar elevado por um período prolongado, financiar o crescimento passou a exigir mais cautela.

“No Brasil, com as taxas de juros reais mais altas do mundo, não dá para ser muito alavancado”, afirma.

Em setembro de 2024, a G10 mantinha um ritmo intenso de investimentos.

“Eu estava num ciclo de muito capex, crescendo. Mas entendi que ia honrar os pedidos que já tinha feito e não faria pedidos novos tão cedo.”

Depois disso, Adamuccio diz ter observado grandes empresas recorrendo a venda de ativos, pedidos de recuperação extrajudicial e cortes de investimento para reorganizar o caixa.

“Quem investiu menos nos últimos dois anos está em uma situação mais tranquila. Quem não entendeu o movimento, agora pode acabar perdendo metade do patrimônio”, afirma.

Para a G10, a decisão mais recente não foi acelerar a expansão, mas preservar caixa e reduzir a exposição a um ciclo de juros elevados. Andar mais devagar, para não ficar pelo caminho por falta de combustível.

Para saber mais detalhes sobre o sucesso e estratégia da G10 Transportes, veja o episódio completo no Do Zero ao Topo. O programa está disponível em vídeo no YouTube e em sua versão de podcast nas principais plataformas de streaming como ApplePodcasts, Spotify, Deezer,  Spreaker,  Castbox  e  Amazon Music.

Sobre o Do Zero ao Topo

O podcast Do Zero ao Topo é uma produção do InfoMoney. A cada semana, convida mulheres e homens de destaque no mercado brasileiro para contar suas histórias, compartilhar os maiores desafios enfrentados ao longo do caminho e as principais estratégias usadas na construção do negócio.