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TÓQUIO — O amor verdadeiro pode não ter preço. Mas, no Japão, jovens na faixa dos 20 anos estão recorrendo em massa a agências matrimoniais que prometem um caminho rápido até o altar, e cobram caro por isso.
Por centenas de anos, inclusive no período pós-Segunda Guerra Mundial, os casamentos japoneses eram arranjados por meio do omiai, prática na qual casamenteiros, geralmente parentes, amigos da família ou chefes, apresentavam solteiros de seu círculo social. Com o tempo, porém, o costume perdeu força, dando lugar aos relacionamentos que surgem naturalmente e, mais recentemente, à onda dos aplicativos de namoro.
Agora, jovens adultos estão se inscrevendo em números recordes em agências matrimoniais, onde conselheiros atuam como casamenteiros profissionais. Em Tóquio, anúncios espalhados pelo metrô incentivam os passageiros a “deixar os encontros do destino nas mãos dos profissionais”. Outro slogan diz: “Melhor um omiai do que 100 deslizadas na tela”.
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Especialistas afirmam que a mudança é impulsionada por uma reação às frustrações já conhecidas dos usuários de aplicativos de namoro em todo o mundo. Com círculos sociais menores e cansados de práticas como o ghosting, perfis falsos e relacionamentos sem compromisso, muitos jovens japoneses procuram orientação humana mais próxima em busca de eficiência e segurança.
Um dos novos clientes é Taizen Yasuda, de 28 anos. Reservado, ele diz ter perdido a paciência com o romance mediado por algoritmos.
“O processo interminável de dar match, trocar mensagens e finalmente encontrar alguém nos aplicativos era exaustivo”, afirmou Yasuda. As agências matrimoniais, segundo ele, seriam “a maneira mais rápida de encontrar alguém que tenha exatamente o mesmo objetivo: casar”.
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O ressurgimento da prática ocorre em um momento em que o Japão enfrenta uma população em queda e menos famílias jovens. Como o nascimento de filhos no país continua fortemente associado ao casamento, incentivar mais pessoas a se casar tornou-se parte dos esforços para elevar a taxa de natalidade.
Uma empresa se colocou no centro dessa tendência: a IBJ, gigante sediada em Tóquio com uma rede nacional de agências parceiras. Prometendo levar clientes do primeiro encontro ao pedido de casamento em apenas três meses, a companhia viu o número de associados e seus lucros dispararem. Hoje, afirma participar de aproximadamente um em cada 25 casamentos realizados no Japão.
Yasuda faz parte da onda de solteiros que aderiram à IBJ. Em um domingo recente, ele se reuniu com sua conselheira em uma sala reservada, usando um terno impecavelmente passado e os cabelos penteados para o lado. Pouco mais de um mês após ingressar no serviço, já havia reduzido suas opções a duas mulheres. Com uma delas, havia acabado de fazer uma viagem para ver campos floridos de canola.
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A conselheira simulou um encontro romântico para testar como ele reagiria a perguntas desconfortáveis, ao mesmo tempo em que buscava identificar e desenvolver seus “pontos de charme”.
Quando perguntou quais eram suas maiores fontes de estresse, Yasuda respondeu que dar feedback negativo a subordinados costumava ser algo difícil. Recentemente, no entanto, aquilo havia deixado de incomodá-lo. A conselheira interrompeu rapidamente.
“Talvez você precise complementar essa resposta”, disse, alertando que ela poderia soar passiva ou derrotista. Em seguida, acrescentou: “De qualquer forma, acho você maravilhoso. Sempre acho você maravilhoso!”.
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Esse tipo de orientação detalhada está no centro da proposta da IBJ.
Cada associado recebe um consultor responsável por acompanhar minuciosamente o processo de relacionamento. Os profissionais orientam desde aparência pessoal e etiqueta em mensagens até roteiros de encontros.
Quando dois clientes combinam interesses, seus respectivos consultores passam a trabalhar juntos nos bastidores, realizando o que chamam de “trabalho de cupido”: trocam impressões sobre os encontros, filtram feedbacks e ajudam a coordenar cada etapa do relacionamento até uma eventual proposta de casamento.
“Oferecemos o tipo de apoio que apenas seres humanos podem proporcionar para ajudar as pessoas a se casarem o mais rápido possível”, afirmou Shigeru Ishizaka, CEO da IBJ.
Em uma sociedade cada vez mais digitalizada, existe um forte desejo de contar com alguém que oriente todo o processo amoroso, avalia Junko Yamada, pesquisadora da Universidade Tokai especializada na psicologia dos relacionamentos. Segundo ela, da mesma forma que acontecia no omiai tradicional, ter um especialista selecionando potenciais parceiros transmite sensação de segurança psicológica.
Yamada afirma que os jovens atuais parecem obcecados por eficiência em praticamente todas as áreas da vida. As agências atendem perfeitamente a essa lógica porque eliminam pessoas que não estão realmente interessadas em casamento.
A rede da IBJ possui diferentes regras e faixas de preço. Em geral, os clientes pagam entre US$ 30 e US$ 100 por mês, além de uma taxa de adesão de US$ 650 a US$ 1.300. Caso o casal fique noivo, há ainda uma taxa adicional de aproximadamente US$ 1.300.
A empresa também cobra uma multa de US$ 1.300 de casais que descumpram regras internas que proíbem relações sexuais antes do casamento e coabitação. A IBJ afirma que seus conselheiros acompanham de perto a evolução dos relacionamentos dos clientes.
A adesão geralmente é limitada a candidatos com renda estável. Na principal agência operada diretamente pela empresa, mulheres entre 20 e 39 anos e homens entre 25 e 49 anos podem se inscrever.
Críticos argumentam que empresas como a IBJ transformaram o matchmaking em negócio, retirando a alma da prática tradicional e impondo cronogramas rígidos a jovens ansiosos.
Entre os céticos está Ikuko Kato, casamenteira veterana que trabalha em sua residência nos arredores de Tóquio. Cercada por centenas de fotografias de casais que ajudou a formar, ela afirma ter unido mais de 1.300 casais ao longo de 44 anos e diz que nenhum deles se divorciou.
“Eles estão focados demais nos negócios”, diz Kato. “Meus pais eram casamenteiros do bairro. Está no meu sangue. Os agentes corporativos modernos não conseguem fazer o que eu faço.”
Ela conta o caso de um homem de apenas 1,47 metro de altura que passou três anos em uma agência sem conseguir marcar encontros. Segundo Kato, em apenas três meses ele estava casado.
Mas seu trabalho não parou aí.
Ao telefonar para o casal algum tempo depois, descobriu que os dois dormiam em quartos separados.
“Quando ouvi isso, gritei: ‘Seus tolos! Como pretendem ter um bebê?’”, relembrou. “Ordenei que dormissem na mesma cama naquela noite.”
“Com os jovens de hoje em dia, é preciso ensinar até esse tipo de coisa”, afirmou.
A IBJ representa uma evolução corporativa de uma tradição historicamente pessoal.
Diferentemente dos antigos casamenteiros de bairro, a empresa conduz os clientes por um programa completo e altamente lucrativo. Além do matchmaking, empresas do grupo oferecem organização de casamentos, consultoria financeira, serviços imobiliários e indicações para negócios parceiros, como salões especializados em design de sobrancelhas.
O número de associados cresceu cerca de 50% nos últimos cinco anos. Neste ano, a companhia reportou aumento de 44% na receita do primeiro semestre, para aproximadamente US$ 91 milhões.
Ishizaka afirma que sua missão vai além do lucro. Quando deixou o setor bancário para entrar na indústria de relacionamentos, em 2000, seu objetivo era ajudar a reverter o declínio demográfico do Japão.
“Como a sociedade japonesa raramente tem filhos fora do casamento, percebi que um serviço voltado especificamente para matrimônios teria um futuro importante”, disse.
Recentemente, a missão recebeu uma notícia animadora. Nos primeiros seis meses de 2026, o número de nascimentos no Japão cresceu 0,8%, a primeira alta para o período em 11 anos, segundo o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar. O avanço veio após dois anos consecutivos de aumento nos casamentos.
Yasuda espera contribuir para essas estatísticas. Ele diz que parte de sua pressa para casar está relacionada ao desejo de começar cedo uma família com três ou quatro filhos.
Para Ishizaka, clientes como ele mostram que uma geração frequentemente retratada como distante do casamento talvez esteja apenas procurando uma forma mais eficiente de chegar até ele.
“Pesquisas mostram consistentemente que mais de 80% dos jovens dizem que querem se casar se encontrarem a pessoa certa”, afirmou. “Tenho certeza de que cada casal que ajudamos a formar contribui diretamente para reverter a queda da taxa de natalidade.”
c.2026 The New York Times Company