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Antes de existir uma Medida Provisória sobre o tema, o povo já discutia bets.
Em 17 de setembro, quando clubes das séries A e B publicaram uma nota contra as primeiras sinalizações do governo, as menções em português no X e no Instagram saltaram de uma média combinada de 504 menções por dia para 13.687 num único dia, no monitoramento do Claritor.
Uma conta com 1.103 seguidores, @acervogarrito, teve mais retuítes que o perfil oficial do presidente. Guarde esse nome, ele volta a aparecer daqui a pouco, mas do lado de fora do debate.
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Depois disso, o assunto quase sumiu. Entre 19 e 24 de setembro, a média combinada caiu para 47 menções por dia, quase silêncio.
Na sexta-feira, 25 de setembro, o governo assinou a MP que proíbe as bets. No sábado seguinte, foram 58.723 menções somando as duas redes, mais de 1.250 vezes a média da semana de silêncio anterior.
Fomos ao topo desse novo pico, os 100 posts de maior impacto e os 100 mais retuitados em cada rede, para ver quem estava lá desta vez. O torcedor de 1.103 seguidores tinha sumido.
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Quem discute a MP quando tem dinheiro em jogo
No lugar dele, encontramos duas listas, e as duas têm interesse financeiro no meio.
A primeira é institucional. Imprensa, páginas de futebol e os próprios políticos:
- Imprensa (NewsLiberdade, g1, jornalnacional, cnnpolitica, metropoles, entre outros): cerca de 19,3 milhões de impacto combinado, a fatia mais forte do debate real
- Futebol institucional (páginas de dados como DataFutebol e futebol_info, torcidas organizadas com operação profissional, clubes oficiais como o próprio Flamengo): cerca de 10,2 milhões
- Políticos (Lula, Guilherme Boulos, Nikolas Ferreira): cerca de 1,9 milhão, a menor fatia entre os três, mesmo sendo o autor e os críticos diretos da medida
Cada grupo tinha incentivos diferentes para falar sobre a MP: audiência para veículos, exposição para clubes e capital político para quem apoiou ou criticou a medida.
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A segunda lista é maior em volume e vive de outra coisa inteiramente. São contas de entretenimento, como a que publica sob a marca PortalBabados, ou a Bunklr, que se descreve publicamente como negócio de “entretenimento, cultura pop, charts, cinema, humor”.
No X, 77 dos 100 posts de maior impacto vieram desse tipo de conta, concentrando 81% de todo o impacto do ranking. Nos 100 mais retuitados, o padrão se repete: 82 vinham desse tipo de conta.
Não são pessoas comentando a MP por engano. São empresas de conteúdo monitorando picos de busca para vender alcance, e “bets” virou um deles porque a palavra também é gíria de concordância entre jovens, sem relação nenhuma com jogo ou dinheiro.
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O torcedor saiu do debate e virou audiência
Aqui está o contraste que sustenta a coluna inteira. O perfil oficial do presidente Lula, falando da própria MP que ele assinou, variou entre 143 mil e 276 mil de impacto por post. Um único post viral de entretenimento chegou a 6,3 milhões de visualizações, mais de vinte vezes o melhor post do autor da medida.
E o torcedor de 1.103 seguidores? Ele não desapareceu da internet, só não aparece mais discutindo a MP. Dentro do oportunismo de entretenimento também há contas pequenas e pessoais, não só empresas, usando a palavra como gíria ou aproveitando o pico sem saber do que ele é.
O povo continua nas redes, só que espalhado dentro do ruído de quem lucra com cliques, não organizado dentro do debate de quem lucra com a política ou com o futebol.
Menção não é sinônimo de debate
Antes da MP, o torcedor discutia bets de graça, por opinião. Depois da MP, só sobrou no topo quem tinha algo a faturar com o assunto, seja político, clube, imprensa ou empresa de conteúdo, e o povo virou audiência do próprio barulho que ele mesmo tinha começado.
A explosão de menções depois da MP não é debate público, é modelo de negócio.
Enquanto imprensa, futebol e políticos disputavam o debate real por interesse próprio, as contas de oportunismo somaram sozinhas mais impacto do que todo esse debate junto, incluindo um post que superou em vinte vezes o alcance do próprio autor da medida que todo mundo dizia estar comentando.
Se você é gestor de marca, assessor de imprensa ou só um leitor tentando entender por que um assunto “viralizou”, fica o alerta: um gráfico de menções subindo não é sinônimo de debate subindo.
É preciso descer ao post, ver quem fala e por quê, para distinguir opinião de oportunidade de negócio.
O Claritor fez exatamente essa descida nesta coluna, e o que apareceu lá embaixo foi menos gente discutindo e mais gente faturando.