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Depois de quase cinco décadas no setor automotivo, continuo olhando para a mesma conta: quanto o cliente consegue dar de entrada e qual prestação cabe no orçamento. É nesse ponto que uma boa negociação pode parar.
Os dados apresentados por Rodnei Bernardino no MegaForum Automotivo da MegaDealer, em setembro, ajudam a explicar esse impasse.
O saldo de crédito do Sistema Financeiro Nacional chegou a R$ 7,37 trilhões em julho de 2026, alta nominal de 9,5% em 12 meses. O dinheiro emprestado aumentou. A folga para pagar merece outra análise.
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Crédito cresce, mas a renda continua pressionada
Em junho, o pagamento de dívidas, excluído o financiamento habitacional, comprometia 26,6% da renda das famílias, na série com ajuste sazonal apresentada no encontro. Mais de um quarto da renda absorvido antes de assumir uma nova prestação.
No crédito livre às pessoas físicas, com taxas livremente pactuadas, o juro médio ficou em 60% ao ano em julho. A redução da Selic ajuda, porém chega ao cliente condicionada ao risco de inadimplência e aos custos de cada operação.
Uma família pode manter o emprego e até melhorar a renda, mas continuar sem condições de trocar de carro. As parcelas assumidas anteriormente disputam o mesmo orçamento com alimentação, moradia e transporte. Para o comércio, esse limite aparece na conversão de propostas em vendas.
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Segundo o levantamento apresentado por Rodnei, as concessões para aquisição de veículos por pessoas físicas somaram R$ 146,3 bilhões entre janeiro e julho, avanço de 22,8% sobre igual período de 2025. São valores financeiros que não equivalem ao crescimento da quantidade de veículos vendidos.
Mais prazo para fazer a parcela caber
O automóvel oferece uma garantia ao credor, o que ajuda a explicar juros inferiores à média do crédito livre: cerca de 26,5% ao ano em julho. Mesmo assim, o prazo médio para financiar automóveis e comerciais leves passou de 45,4 para 47,3 meses em um ano, segundo dados da Trillia reproduzidos na apresentação.
Alongar o contrato reduz a prestação, mantidos o valor financiado e a taxa, mas aumenta os juros totais pagos. E mantém o comprador endividado por mais tempo. Esse recurso sustenta negócios, porém exige cuidado para que a próxima troca não encontre um saldo devedor ainda elevado.
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A inadimplência exige uma ressalva
No financiamento de veículos a pessoas físicas, a inadimplência medida passou de 5,4% para 6,6% entre julho de 2025 e julho de 2026. O indicador considera operações com atraso superior a 90 dias.
Há uma ressalva indispensável, destacada no próprio material: desde 2025, novas regras contábeis fizeram com que determinadas operações inadimplentes permanecessem mais tempo nas carteiras antes da baixa a prejuízo. Isso eleva o indicador e dificulta comparações históricas.
O Banco Central estimou que esse efeito explicou cerca de 70% da alta da inadimplência do sistema até junho de 2025. O estudo também identificou piora mesmo sem o efeito contábil. A proporção de 70% não pode ser aplicada automaticamente a 2026 nem ao financiamento de veículos isoladamente.
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Nas empresas, o contraste aparece entre saldo e contratações. O crédito livre cresceu apenas 1,4% em saldo em 12 meses, enquanto as concessões acumuladas de janeiro a julho avançaram 13,7% sobre o mesmo período de 2025.
Essa diferença é compatível com operações mais curtas e renovações frequentes, embora os totais, sozinhos, não comprovem a causa. Uma empresa que troca um empréstimo semestral por contratos trimestrais pode registrar mais contratações sem dispor de mais dinheiro para investir.
O que isso significa para o varejo
No varejo de veículos, isso importa muito. O estoque precisa ser pago enquanto a venda depende da aprovação do financiamento do cliente. Se o carro demora a sair, a despesa financeira aumenta e consome a margem prevista na compra. Mesmo quando o banco assume o risco de inadimplência do comprador, a loja sente o impacto da venda que não se concretiza.
Nos usados, presto atenção ao valor líquido que sobra do carro entregue na troca depois da quitação de eventual financiamento. Essa é a entrada efetivamente disponível. Uma avaliação maior pode facilitar a venda, mas também deixar um usado caro demais no estoque da loja.
Minha leitura é que os potenciais vencedores desse cenário são operações com caixa, estoque ajustado à demanda e acesso a diferentes financiadores. Os potenciais perdedores são negócios muito endividados, com veículos parados e dependência de renovações curtas. Nas locadoras, essa combinação também exige disciplina na compra e na venda da frota.
Para acompanhar a próxima semana, colocaria seis indicadores na mesa: custo efetivo total do financiamento, taxa de aprovação das propostas, inadimplência acima de 90 dias, prazo médio dos contratos, entrada exigida e dias de estoque.
A tese do CarInvest é que a recuperação do poder de compra precisa aparecer na capacidade de assumir e pagar as parcelas. No setor automotivo, expandir o crédito com contratos cada vez mais longos pode preservar vendas hoje e dificultar a troca amanhã. É por isso que acompanho a aprovação das propostas junto com a margem que sobra depois de financiar o estoque.