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Imagine receber uma vídeo chamada do gerente do seu banco, com o rosto, a voz e até o jeito de falar que você conhece há anos, pedindo para confirmar uma transferência “por segurança”.
Até pouco tempo, bastava confiar nos próprios olhos e ouvidos. Hoje essa certeza não existe mais, e é justamente aí que mora o negócio mais lucrativo do crime organizado contemporâneo.
É possível chamar esse fenômeno de industrialização da confiança: o alvo do crime deixou de ser o sistema e passou a ser a certeza que sustenta qualquer relação financeira.
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A edição mais recente do relatório global de fraude da INTERPOL, divulgada em março, estima que a fraude bancária com inteligência artificial movimentou US$ 442 bilhões só em 2025, com alta de 54% nas notificações internacionais desde 2024.
O motivo do salto interessa mais do que o valor: fraudes desenhadas com apoio de inteligência artificial chegam a ser 4,5 vezes mais lucrativas que os métodos tradicionais de engenharia social.
Não é uma questão de volume, é uma questão de eficiência, a mesma lógica que uma fábrica aplicaria a qualquer linha de produção, agora aplicada ao engano.
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A fábrica que aprendeu a imitar pessoas
O crime deixou de depender de um golpista mirando uma vítima de cada vez. A INTERPOL já descreve sistemas de IA agêntica capazes de conduzir sozinhos uma fraude inteira, do mapeamento da vítima à cobrança da extorsão.
O acesso a essas ferramentas também deixou de ser privilégio de quem entende de tecnologia: na Febraban Tech 2026, especialistas do setor mostraram que já é possível montar um deepfake convincente gastando cerca de R$ 50 em ferramentas públicas e legítimas.
No Brasil, essa fatia saltou de 0,1% das fraudes detectadas em março de 2025 para 6,5% um ano depois, e a inteligência artificial já aparece em 42,5% de todas as ocorrências de fraude financeira registradas no país.
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O que muda agora não é mais só o tamanho da ameaça. É o tamanho da resposta.
Os bilhões que tentam repor a confiança
Para enfrentar um adversário industrializado, o setor bancário resolveu industrializar também a própria defesa.
A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 mostra que os bancos brasileiros pretendem investir R$ 3 bilhões em inteligência artificial, analytics e big data neste ano, 8% a mais que no ciclo anterior, dentro de um orçamento total de tecnologia de R$ 50 bilhões. Outros R$ 3,9 bilhões vão para infraestrutura em nuvem, com crescimento de 30%.
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O dado mais revelador dessa pesquisa não é o valor total, mas onde ele cresce mais rápido.
O investimento em capacitar equipes em IA e IA generativa subiu 31%, para R$29,4 milhões, dentro de um total de R$100,4 milhões aplicados em treinar mais de 226 mil profissionais em 2025.
Um setor que apenas comprasse ferramentas estaria apostando na tecnologia. Um setor que investe pesado em treinar quem interpreta o alerta da ferramenta está apostando em outra coisa: na pessoa que decide se aquele alerta é real.
Quando o rosto e a senha deixam de bastar
A biometria facial e a senha, por muito tempo tratadas como barreiras seguras, viraram alvo fácil justamente por dependerem de algo que a IA aprendeu a imitar. A resposta do setor foi trocar a verificação pontual, aquela que acontece uma vez, no login, por um monitoramento contínuo.
Seis em cada dez bancos brasileiros já tratam a biometria comportamental como prioridade na prevenção a fraudes bancárias: o sistema aprende como cada cliente digita, em que velocidade desliza a tela, que caminho costuma seguir dentro do aplicativo, e desconfia quando esse padrão muda, mesmo com a senha e o rosto certos.
É a tentativa de vigiar o comportamento, já que o rosto e a senha, sozinhos, pararam de provar alguma coisa.
Da sala de TI para o conselho, e para além das fronteiras
A mudança também é de lugar, não só de ferramenta. Em 58% dos bancos brasileiros já existe pelo menos um especialista em cibersegurança bancária no conselho de administração.
Em 88% deles, as áreas de cibersegurança, prevenção a fraudes e prevenção à lavagem de dinheiro passaram a trabalhar de forma integrada, trocando dados e respondendo juntas a incidentes.
É a industrialização da confiança do outro lado do balcão: ninguém mais trata isso como um problema isolado de TI, porque o problema nunca foi só de TI.
A cooperação também atravessou fronteiras. A INTERPOL mantém um mecanismo batizado de I-GRIP (Global Rapid Intervention of Payments), criado para interromper transferências internacionais assim que uma fraude é identificada.
Já foi usado, por exemplo, para barrar um golpe de comprometimento de e-mail corporativo de US$ 42 milhões antes que o dinheiro desaparecesse de vez. Se o crime não respeita fronteiras, a resposta também não pode.
No fim, a disputa bilionária entre bancos e criminosos é só a versão mais visível de um problema que já chegou à sala de casa. A chamada de vídeo do início deste texto pode ser sua mãe, seu filho, seu chefe.
E a pergunta que fica não é se a tecnologia vai continuar enganando os nossos sentidos (ela vai), mas se um dia vamos aprender a desconfiar do que vemos e ouvimos com a mesma naturalidade com que hoje desconfiamos de um e-mail suspeito.