Errar para acertar: como a Olist se transformou em uma solução completa para PMEs

A trajetória da Olist mostra como abandonar produtos, testar novos caminhos e investir em tecnologia pode transformar erros e mudanças de rota em vantagem competitiva

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Eu escrevi um texto-desabafo em minhas redes sociais seis anos atrás e decidi resgatá-lo para a introdução do artigo de hoje.

Abre aspas.

“Errar não é feio. Feio é não tentar. E mais feio ainda é desencorajar os outros a não tentarem.

Se você está começando a empreender ou tomando coragem para começar, saiba de uma coisa: um empreendedor só irá acertar depois de errar muito.

Pode até parecer mais uma frase pronta e batida — e é bem provável que seja —, mas ela é muito mais verdadeira do que o ceticismo sobre clichês que está rodeando a sua cabeça enquanto você lê esta frase.

Explico.

Não é errar por errar. É o errar PARA acertar (não esqueça do “PARA” em caixa alta). Como os verbos “errar” e “acertar” são antônimos, inconscientemente, no nosso dia a dia, pensamos: “ou um ou outro”. A verdade é que o “errar” e o “acertar” não são tão inimigos assim.

Pelo contrário.

A maioria dos acertos só acontece por consequência de um erro cometido anteriormente. Sim, quase uma relação condicional.

Lembre-se disso: empreender é a construção de uma trajetória e não a realização de uma prova múltipla-escolha (já perdeu o ceticismo com as frases prontas?).

Também é a quebra de tabus. Da desconstrução do sucesso e do fracasso, do certo e errado (olha eles aí de novo).”

Fecha aspas.

Breve contexto

Me lembrei dessa antiga reflexão após conversar com o pessoal da Olist (uma plataforma de gestão que oferece soluções para PMEs no varejo). Ao olhar para o tamanho da operação que eles têm hoje, com pompa de unicórnio, é fácil supor que o plano sempre foi esse.

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Mas, segundo o próprio Tiago Dalvi, CEO e fundador da empresa, foram ao menos cinco ajustes de rotas ao longo dos anos até a consolidação do formato atual de negócio.

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Há quem defenda que a pivotagem é o atestado de óbito de um plano fracassado.

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Eu prefiro enxergar de uma forma completamente diferente — e bem mais otimista. Acredito inclusive que, na maioria dos casos, os “caminhos certos” só surgiram justamente porque outros caminhos “errados” existiram antes.

Ou seja, na minha visão de mundo, a pivotagem representa um ato de coragem de quem decide colocar em prática o aprendizado adquirido.

A famosa ferramenta de comunicação Slack, por exemplo, não nasceu como um software corporativo.

Ela começou como um jogo de videogame chamado Glitch, que foi um fracasso comercial.

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No entanto, a ferramenta de comunicação interna que os desenvolvedores criaram para conversar entre si enquanto programavam o jogo era tão boa que eles decidiram pivotar o negócio.

O jogo morreu para que uma empresa multibilionária pudesse nascer.

De volta ao case

No caso da Olist, essa capacidade de leitura e adaptação contínua explica muito de onde a empresa chegou.

Mais de dez anos após a fundação, a companhia registra hoje um crescimento de 65% ano contra ano — o maior ritmo de expansão dos últimos cinco anos.

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Esse salto não veio da insistência em um modelo antigo, mas de uma virada estratégica iniciada há cerca de meia década, quando eles começaram a migrar de um simples integrador de marketplaces para um ecossistema completo focado em PMEs.

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Para que essa evolução acontecesse, foi preciso desapegar. A descontinuidade da “Loja Olist”, o produto que deu origem à própria empresa há 11 anos, é a prova disso.

Tirar o produto-raiz da prateleira não significou apagar a própria história, mas sim entender que era hora de focar em soluções com mais escalabilidade e impacto real na vida dos clientes.

A nova rota

O novo direcionamento adotado pela Olist colocou a Inteligência Artificial não apenas como um acessório, mas como infraestrutura central do negócio.

Hoje, mais de 50% dos 60 mil clientes da base já utilizam recursos de IA no dia a dia.

Com a “Lis”, a IA proprietária da plataforma, o lojista deixou de usar o software apenas para entender o que deve fazer e passou a utilizá-lo para que ele, de fato, execute tarefas operacionais.

Essa virada foi estruturada por meio de aportes que superam R$ 100 milhões no desenvolvimento de novas soluções nos últimos anos.

O “Envios da Olist”, a frente logística da companhia, é outra inovação que ilustra esse novo momento. Nos últimos 12 meses, a plataforma ultrapassou a marca de 800 mil pacotes entregues.

Mais do que volume, a solução reduziu os custos de frete em até 50% em comparação às opções tradicionais, mantendo 97% das entregas dentro do prazo.

Como consequência, apenas no primeiro semestre de 2026, a operação já movimentou um volume 60% maior do que o registrado ao longo de todo o ano de 2025.

A necessidade de recalcular rotas, no entanto, nem sempre se limita aos negócios. Em algum momento, ela esbarra no CPF.

Tiago Dalvi relata que a chegada da paternidade foi um marco para que ele próprio precisasse reavaliar o uso do seu tempo. A busca por equilibrar o trabalho com a presença na vida dos filhos o forçou a mudar suas prioridades.

O saldo dessa mudança, segundo ele, foi um aumento de produtividade, já que passou a focar nas decisões que realmente geram valor, entendendo que o sucesso não se mede apenas pelos balanços financeiros da empresa.

No final do dia, os negócios que fecharam as portas não são, necessariamente, aqueles que mais cometeram erros. Mas, sim, os que não tiveram a agilidade para aprender com os próprios tombos e pivotarem para novos formatos.

A Olist errou, pivotou várias vezes e, hoje, colhe os frutos de não ter tido medo de mudar. O erro, como sempre defendo, costuma ser o melhor rascunho para um acerto consistente.


Jornalista, empreendedor, fundador da agência Made In Moon e professor da Link School Of Business