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De obra afetada pela Lava Jato a taxista e trader: a trajetória de Robert Machado

Analista relembra a reconstrução profissional e explica por que pressa por ganhar dinheiro pode atrapalhar quem busca viver de day trade

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Uma crise no setor de petróleo interrompeu uma trajetória profissional e impôs uma mudança de rota quando havia uma filha de apenas dois meses em casa.

Sem saber qual seria o próximo passo, a saída foi comprar um táxi e começar de novo. Anos depois, aquela decisão abriria caminho para uma reconstrução profissional no mercado financeiro.

Robert Machado, trader e analista CNPI, foi o convidado do episódio 260 do programa GainCast.

Ele relembra a mudança de carreira, os erros do começo e a construção de uma filosofia que trata o day trade como profissão — não como jogo — e coloca estudo, disciplina e responsabilidade acima da pressa para ganhar dinheiro.

Do táxi ao mercado

Formado em Administração pela Mackenzie, Machado trabalhava como encarregado administrativo em uma obra ligada à Petrobras, no Rio Grande do Sul.

Com a paralisação das obras em meio à crise econômica e à Lava Jato, voltou ao Rio de Janeiro com uma filha de apenas dois meses e precisou buscar outra fonte de renda. “Comprei um táxi e fui ser taxista”, relata.

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Apesar da mudança brusca de trajetória, o interesse pelo mercado financeiro não surgiu naquele momento. Machado já havia trabalhado no banco e começado a comprar ações como Petrobras e Vale.

Em 2020, porém, decidiu transformar a curiosidade em profissão. “Cara, eu vou começar a estudar isso aqui de verdade, eu vou fazer isso aqui minha profissão”, recorda.

A partir daí, ele procurou referências, estudou para a certificação CNPI e se aproximou de profissionais mais experientes. Porém, em vez de tratar a mudança como atalho para renda rápida, passou a enxergá-la como reconstrução profissional.

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“Procure bons profissionais, aprenda com eles, tenha a humildade de entender”, recomenda.

Além disso, Machado afirma que a transição exigiu organização financeira familiar. O apoio da esposa, segundo ele, permitiu dedicar tempo ao estudo sem depender imediatamente do resultado das operações para sustentar a casa.

“Um processo de migração de carreira precisa de um planejamento, um planejamento financeiro, um planejamento de estudo e reavaliação desse processo”, explica.

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Por isso, experiência acumulada em outra área não elimina etapas no mercado. Para Machado, quem chega ao day trade precisa aceitar uma posição de aprendizado, independentemente do cargo que ocupava antes.

“Lá você era diretor. Aqui você é estagiário. Estagiário não opera muito. Estagiário não opera grande”, afirma.

Leia também: De empresário a trader: a virada que levou Henrique Pena ao mercado financeiro

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Comece como estagiário

A imagem do “estagiário” se tornou uma das bases de sua visão sobre formação de traders. Assim, os primeiros meses não deveriam ser avaliados apenas pelo dinheiro obtido, mas pelo aprendizado, pelos erros identificados e pela evolução do processo.

“Estagiário não está ali para ganhar dinheiro. Estagiário está ali para ganhar conhecimento”, sustenta.

Nesse sentido, até o erro ganha outra função. Em vez de representar apenas perda ou fracasso, ele deveria indicar o ponto que precisa ser corrigido antes que o comportamento volte a aparecer em operações futuras.

“O erro, em qualquer área da nossa vida, é uma seta que aponta para onde a gente precisa melhorar”, comenta.

Ao mesmo tempo, simplificar o operacional fez parte da evolução. No começo, indicadores podem transmitir a sensação de que mais ferramentas reduzirão stops.

Com experiência, porém, Machado passou a valorizar uma leitura mais limpa do preço e uma lógica que consiga explicar com clareza. “O simples é o último estágio do avançado”, destaca.

Consequentemente, o operacional atual pouco se parece com aquele que utilizava no início. Técnicas mudaram, referências foram incorporadas e novas formas de leitura foram testadas. Ainda assim, a premissa permaneceu intacta na trajetória.

“O que ficou do início, que foi sensacional, é a mentalidade profissional”, ressalta.

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Operar menos, operar melhor

Essa mentalidade aparece com força quando Machado fala sobre ficar fora do mercado.

Para ele, o trader não deveria operar apenas porque está diante da tela ou porque sente necessidade de clicar. Se o padrão esperado não apareceu, a decisão profissional pode ser simplesmente esperar. “Tem momentos que não tem trade”, alerta.

Por outro lado, quando uma condição técnica surge, o trabalho está em reconhecê-la, não em inventar uma justificativa para entrar. Dessa forma, a espera deixa de ser ociosidade e passa a integrar o método.

“O analista não está ali para criar a operação. O analista está lá para identificar a operação”, explica.

Machado também relembra um episódio que marcou seu início: um amigo, depois de alguns dias positivos, aumentou a exposição e perdeu toda a rescisão do trabalho.

O prejuízo chegou a afetar as despesas da família e ainda provocou o afastamento entre os dois.

“Isso me custou muito, porque ele me fez um pedido muito caro. “Robert, eu preciso ficar longe de você. A culpa é minha, mas eu olho para você, eu lembro do que eu fiz”, recorda sobre o pedido do amigo.

Portanto, ansiedade, adrenalina e compulsão por permanecer posicionado viram ameaças à sobrevivência do trader. Na visão de Machado, quem transforma a plataforma em entretenimento e ignora critérios técnicos tende a pagar caro por isso.

“Infelizmente você vai ter vida curta no mercado, sendo bem franco, bem honesto”, adverte.

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Consistência exige repetição

Para desenvolver a leitura, Machado coloca o tempo de tela no centro do processo. A experiência ajuda a reconhecer padrões, perceber quando o mercado confirma uma hipótese e identificar quando aquilo que justificou a entrada deixou de acontecer.

“Eu tenho mais de 10 mil horas de tela. Isso faz muita diferença”, revela.

Entretanto, observar gráficos não basta. Ele defende testar ideias, fazer backtests e questionar até ensinamentos de profissionais mais experientes. Assim, a crença cede espaço à validação e a convicção operacional passa a depender de evidência.

“Duvide de tudo que eu estou falando, mas seja maduro o suficiente para ir lá e testar isso”, recomenda.

Com isso, a disciplina também aparece na saída. Se o mercado deixar de fazer aquilo que justificou a entrada, encerrar a posição pode ser correto mesmo quando o preço volta a favor depois. O critério principal é cumprir o plano estabelecido.

“Você venceu, você fez o que você combinou com você mesmo. Ponto”, enfatiza.

No fim, a diferença entre profissional e jogador não está em acertar todas as operações, mas em repetir um processo, respeitar limites e aceitar fases ruins sem trocar de método a cada sequência negativa.

Para Machado, antes de vencer qualquer candle, existe uma disputa interna. “Se você não vencer você mesmo, você não vai vencer o mercado”, conclui.

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Bruno Nadai
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