70% dos empresários veem sistema tributário como entrave da indústria

Pesquisa Infor Reports 2026 aponta ainda que o "custo Brasil" vem aumentando nos últimos anos, e também é uma barreira para o crescimento do setor

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A indústria de transformação está retomando a trajetória de crescimento, com avanço de 3,4% em 2024 e de 0,6% em 2025, impulsionada pelos setores de bens de consumo duráveis e intermediários. Mas a complexidade do sistema tributário brasileiro se mostra como o maior desafio, obrigando as empresas a navegarem por um cenário de elevação contínua nos custos de produção.

Segundo a pesquisa Infor Reports 2026, divulgada com exclusividade para o InfoMoney, 70% dos empresários industriais veem a burocracia do sistema de impostos como entrave para o crescimento, enquanto 64% apontam que o custo de se produzir no país, o chamado “custo Brasil”, aumentou nos últimos anos. Além dos tributos, entram nesta conta a infraestrutura insuficiente, o custo de capital elevado, a insegurança jurídica e regulatória, e a baixa produtividade.

O peso no caixa das indústrias também é dividido com a falta de mão de obra qualificada, citada por 62%, e pelas dificuldades de financiamento e acesso restrito ao crédito, apontadas por 27%. 

Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Custo Brasil chega a R$ 1,7 trilhão ao ano, quase 20% do Produto Interno Bruto (PIB). Esta conta afasta o país dos líderes da competitividade global. O Brasil ocupa a última posição em um ranking de competitividade global com 18 países, perdendo para vizinhos sul-americanos como Argentina, Colômbia, Peru e Chile, além do México. Isso reflete na produtividade da indústria que caiu quase 1% nos últimos 30 anos.

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Ameaça à competitividade

O impacto dessa conjuntura afeta a capacidade de competição das indústrias e comprime as margens de lucro. A infraestrutura inadequada do país eleva o frete, aumenta o tempo de entrega, amplia a necessidade de estoques de segurança e reduz a confiabilidade de toda a cadeia logística. 

No caso dos impostos, as empresas enfrentam um alto custo administrativo para lidar com as complexidades do sistema tributário, o que acaba levando a distorções na formação de preços e decisões de investimento.

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“Isso pressiona o custo de produção, reduz a margem e frequentemente obriga a empresa a repassar preço ou perder competitividade”, afirma Roberto Borges, diretor financeiro e administrativo da Colson Rodas e Rodízios.

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A reforma tributária, elaborada para unificar tributos, deve mitigar essa distorção e melhorar o ambiente de negócios a longo prazo. Mas o período de transição exigirá cautela e liquidez, destaca Waldir Bertolino, vice-presidente e Country Manager da Infor Brasil e Latam. Ele explica que, durante a migração de regimes, as companhias precisarão investir fortemente na revisão de processos, em sistemas de gestão integrados em nuvem (ERP), adequações de conformidade fiscal e treinamento de equipes para evitar que as despesas operacionais disparem.

Para ele, a mudança deve desencadear uma reestruturação da distribuição fabril e da infraestrutura logística em território nacional. “A questão é que esta transformação vai demorar quase uma década para se estabelecer de fato”, ressalta Bertolino.

“Para a indústria, a reforma tributária pode influenciar decisões sobre onde produzir, como organizar a cadeia de suprimentos e como estruturar a distribuição. É uma transformação que não acontece de um dia para o outro e vai exigir das empresas capacidade de planejamento e adaptação ao longo dos próximos anos”, afirma.

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Como tentativa de reverter esse quadro de desindustrialização e apoiar as empresas na transição, o setor passou a contar com o programa Nova Indústria Brasil (NIB). A política governamental soma R$ 3,4 trilhões em investimentos contratados e já direcionou R$ 472 bilhões em recursos para financiar mais de 168 mil projetos de modernização produtiva no país. Como resposta a essa urgência por eficiência, 73% das grandes indústrias mantêm planos ativos de investimento produtivo em 2024 para não perderem ainda mais espaço internacional. 

Avanço rumo à Inteligência Artificial

Esse cenário impõe ainda mais rigor na escolha dos investimentos de capital, especialmente diante de um contexto macroeconômico em que o setor precisa requalificar 14 milhões de trabalhadores até 2027 e integrar recursos avançados de inteligência artificial e automação para estancar as perdas de produtividade e garantir sua sobrevivência na nova manufatura global.

A pesquisa aponta que, para 88%, a escassez de mão de obra capacitada é um dos principais entraves para a modernização da indústria, uma lacuna que reduz a adoção de tecnologias avançadas e compromete o crescimento de setores estratégicos. 

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Enquanto o uso de IA no parque industrial brasileiro saltou de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024, ajudando o Brasil a subir 15 posições no Índice de Prontidão Digital (NRI) e ocupar a 44ª posição global, mais de 30% das indústrias nacionais sequer implementaram as tecnologias básicas da Indústria 4.0, aponta o relatório. 

“Quando falamos em qualificar 14 milhões de trabalhadores, estamos falando de preparar a força de trabalho para uma mudança mais ampla na indústria, que envolve automação, digitalização e diferentes tecnologias emergentes”, diz Bertolino. “A reindustrialização não pode significar apenas produzir mais, mas produzir melhor”, afirma. 

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Juros altos

O avanço tecnológico, a adaptação à reforma tributária, a capacitação de mão de obra e as tentativas de redução do Custo Brasil devem ocorrer em meio a um cenário de juros elevados que freiam a capacidade de investimento.

“Quando temos juros elevados e maior incerteza, o custo do capital aumenta e os investimentos passam a ser avaliados com ainda mais rigor. Isso pode impactar desde a expansão de uma fábrica até decisões relacionadas à modernização tecnológica”, diz Bertolino.

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Élida Oliveira
Economia | Investimentos | Mercados