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Existe um velho ditado que diz: “só acredito vendo”. Durante muito tempo, ver foi a nossa prova de que algo realmente aconteceu.
Uma fotografia confirmava um acontecimento, uma gravação comprovava uma fala, reconhecer a voz de alguém ao telefone era suficiente para saber com quem estávamos conversando.
Talvez isso esteja deixando de ser realidade.
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Imagens podem ser criadas, vozes podem ser clonadas, vídeos podem mostrar pessoas dizendo coisas que nunca disseram. Em poucos anos, a tecnologia começou a colocar em dúvida algo que sempre consideramos uma evidência: nossos próprios olhos e ouvidos.
Os deepfakes não são novidade. A manipulação de imagens existe há décadas e a falsificação de informações é tão antiga quanto a própria comunicação. O que mudou foi a combinação entre qualidade, velocidade e acessibilidade.
Antigamente, produzir um conteúdo falso convincente exigia conhecimento técnico e ferramentas especializadas. Hoje, isso pode ser feito por praticamente qualquer um, e isso muda profundamente a natureza do problema.
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Até pouco tempo, identificar uma fraude digital muitas vezes significava procurar alguma inconsistência.
Um endereço de e-mail estranho, uma mensagem mal escrita, uma página diferente da original ou uma solicitação fora do padrão, o senso crítico funcionava como uma espécie de última barreira de proteção.
Agora, a fraude pode ter o rosto de alguém que você conhece, pode falar com a voz dessa pessoa e até aparecer em uma videoconferência.
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Quando a fraude ganha rosto e voz
Em 2024, um funcionário da área financeira de uma multinacional britânica de engenharia, participou de uma videoconferência na qual acreditava estar conversando com o diretor financeiro e outros colegas da empresa. As imagens e vozes eram falsas.
Criminosos utilizaram deepfakes para criar a reunião e convencer o funcionário a realizar transferências que totalizaram aproximadamente US$ 25 milhões.
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Nenhum sistema interno precisou ser invadido. Nenhuma senha precisou ser quebrada. A tecnologia atacou algo muito mais básico: a confiança.
A confiança também virou superfície de ataque
Esse caso revela uma mudança importante para as empresas. Durante anos, segurança digital esteve concentrada principalmente em proteger sistemas, dispositivos, identidades e informações.
Continuaremos precisando fazer tudo isso, mas uma nova camada começa a ganhar importância, verificar se aquilo que parece verdadeiro realmente é. Isso exige rever alguns comportamentos que sempre consideramos naturais.
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Se o diretor financeiro aparece em uma chamada solicitando uma transferência, vê-lo talvez já não seja suficiente. Se o CEO envia um áudio pedindo uma informação confidencial, reconhecer sua voz pode deixar de ser uma confirmação de identidade.
Até mesmo uma videoconferência, que intuitivamente consideramos mais confiável do que um e-mail ou uma mensagem, passa a exigir algum grau de verificação.
A reputação de uma empresa ou pessoa pode ser afetada por um vídeo falso. Uma declaração inexistente pode circular nas redes sociais antes que a organização tenha tempo de desmenti-la.
Clientes, investidores e colaboradores podem tomar decisões com base em conteúdos que nunca existiram no mundo real.
Estamos caminhando para um ambiente no qual produzir uma evidência será cada vez mais fácil, enquanto provar sua autenticidade será cada vez mais importante.
O risco de duvidar do que é verdadeiro
Talvez exista uma consequência ainda mais profunda. O maior risco das deepfakes não é apenas fazer alguém acreditar em algo falso. É criar uma sociedade na qual começamos a duvidar também daquilo que é verdadeiro.
Quando sabemos que qualquer voz pode ser clonada e qualquer vídeo pode ser manipulado, uma gravação real perde parte da força que possuía como evidência.
Um conteúdo legítimo pode ser descartado simplesmente sob a alegação de que foi produzido artificialmente. Nesse cenário, a própria dúvida passa a ser uma ferramenta de manipulação.
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Esse é o ponto em que a discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser econômica, jurídica e social. A confiança está presente em praticamente todas as relações de negócios, empresas fecham contratos, aprovam pagamentos, delegam responsabilidades e constroem relacionamentos porque confiam, de alguma forma, nas pessoas e organizações com as quais estão lidando.
Se essa confiança deixa de poder ser sustentada apenas por aquilo que vemos e ouvimos, precisaremos criar novas formas de confirmá-la.
Como reconstruir a confiança digital
Para as empresas, isso significa que processos de segurança terão de acompanhar essa mudança. Transações críticas não deveriam depender exclusivamente de uma ligação, de um áudio ou mesmo de uma videoconferência.
Validações por canais independentes, múltiplas aprovações e procedimentos claros para situações fora do padrão deixam de parecer burocracia e passam a funcionar como mecanismos de proteção.
Mas tecnologia e processos resolvem apenas parte do problema, a outra parte continua sendo humana.
Durante muito tempo ensinamos as pessoas a desconfiar de mensagens estranhas, agora precisaremos aprender a desconfiar também de mensagens extremamente convincentes.
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Isso não significa viver em um estado permanente de desconfiança.
Significa aceitar que os sinais que utilizávamos para estabelecer confiança estão mudando. Talvez o velho “só acredito vendo” precise ser atualizado.
Em um mundo no qual imagens, vozes e vídeos podem ser produzidos artificialmente com cada vez mais realismo, ver deixou de ser suficiente.
O próximo desafio da segurança digital não será apenas proteger aquilo que é verdadeiro. Será conseguir provar o que é.