Secretário do Tesouro dos EUA testa credibilidade ao defender agenda econômica no G20

Scott Bessent chega ao encontro sob críticas após intervenções em mercados e nova escalada comercial de Washington

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O verão intervencionista do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, já provocou reações e levantou dúvidas sobre sua credibilidade nos mercados financeiros. Agora, ele enfrenta um novo teste diante de seus pares globais.

Antes da reunião dos ministros de Finanças do G20 em Asheville, na Carolina do Norte, nesta segunda-feira, Bessent prometeu recolocar no centro das discussões entre os principais formuladores de política econômica do mundo o tema do crescimento. “Estamos realmente promovendo uma agenda americana de crescimento para o resto do mundo”, disse à CNBC neste mês.

O desafio para Bessent ao defender essa mensagem é que as maiores ameaças ao crescimento global neste ano vieram justamente da alta dos preços da energia e de outras consequências da guerra do presidente Donald Trump contra o Irã. Soma-se a isso o impacto das tarifas dos EUA, que voltaram ao foco com o início de uma nova guerra comercial contra o Canadá, também integrante do G20.

Em comunicado divulgado antes do encontro, o ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil, afirmou que pretende defender o fim de conflitos economicamente prejudiciais, incluindo disputas tarifárias e as guerras no Irã e na Ucrânia.

“Tudo isso é veneno para o desenvolvimento econômico mundial”, disse Klingbeil.

Enquanto Bessent vê a desregulamentação ao estilo americano como a chave para impulsionar o crescimento, uma autoridade europeia ouvida pela Bloomberg afirmou que medidas desse tipo teriam impacto limitado em um mundo cada vez mais instável por causa das ações dos próprios Estados Unidos.

Também estão no radar de muitos dos colegas de Bessent suas intervenções recentes para fortalecer o iene, reduzir os custos de financiamento de longo prazo e ameaçar com novas sanções qualquer um que faça negócios com o Irã. Os mercados ainda têm dúvidas sobre a eficácia das duas primeiras medidas, enquanto a terceira pode atingir integrantes do G20, como China e Índia, além de instituições financeiras europeias.

‘Provavelmente imprudente’

Sushil Wadhwani, gestor de investimentos e ex-diretor do Banco da Inglaterra, afirmou que a intervenção de Bessent no mercado de títulos, considerada pouco convincente, pode ter consequências.

“Tentar enfrentar o mercado com uma pistola de água provavelmente é imprudente”, disse Wadhwani. “Secretários do Tesouro precisam preservar a credibilidade junto aos mercados para os momentos difíceis.”

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Representantes do Tesouro americano não responderam aos pedidos de comentário.

O iene já devolveu parte dos ganhos obtidos após a intervenção de Bessent no fim de julho e, na sexta-feira, voltou a atingir o nível de 160 por dólar pela primeira vez desde então. Ainda assim, para países como Japão e Argentina, que se beneficiaram das medidas, o secretário do Tesouro é visto como um aliado importante.

“Ele é muito importante para o Japão”, afirmou Takahide Kiuchi, economista-chefe executivo do Nomura Research Institute e ex-membro do conselho do Banco do Japão. Segundo ele, o apoio dos EUA ao fortalecimento do iene reforçou os laços entre Washington e Tóquio.

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Na Europa, porém, a percepção é diferente. Autoridades europeias ficaram incomodadas com as vendas de euros realizadas pelos EUA para comprar ienes sem aviso prévio.

Segundo uma autoridade europeia, a intervenção foi vista mais como um gesto político em favor do Japão do que como uma estratégia econômica eficaz. Já a volatilidade recente do mercado de Treasuries estaria ligada principalmente a fatores domésticos, como os elevados níveis de endividamento dos EUA e dúvidas sobre a velocidade com que os ganhos de produtividade da inteligência artificial se materializarão.

‘Situação um pouco desconfortável’

O problema para outros membros do G20 é que a política americana inevitavelmente afeta a economia global.

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A guerra no Irã e o choque nos preços da energia contribuíram para fortalecer o dólar mais cedo neste ano. Já as intervenções recentes de Bessent vieram acompanhadas de uma desvalorização da moeda americana.

Isso coloca os formuladores de política econômica da China em uma “situação um pouco desconfortável”, segundo Christopher Beddor, diretor-adjunto de pesquisa para a China na Gavekal Dragonomics.

De acordo com ele, o Banco do Povo da China sinalizou que não deseja uma valorização muito maior do renminbi e está próximo do limite de sua tolerância. “Mantidas as demais condições, autoridades chinesas provavelmente prefeririam que a política econômica dos EUA fosse mais clara e levasse a uma recuperação do dólar”, afirmou.

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Para a China, o principal obstáculo ao crescimento no curto prazo continua sendo a guerra no Irã e a necessidade de uma reabertura completa do Estreito de Hormuz, ao mesmo tempo em que os EUA buscam aumentar a pressão econômica sobre Teerã e seus parceiros comerciais, como os chineses.

‘Inegociável’

Bessent fala abertamente sobre o uso do status do dólar como moeda de reserva global como instrumento de pressão econômica para levar aliados e adversários a atender aos interesses de Washington.

Os mercados profundos e dinâmicos dos EUA e a predominância internacional do dólar geram benefícios relevantes para parceiros, mas “não são mais incondicionais”, afirmou ele em junho. “Nossa parceria agora traz expectativas. E, em alguns casos, obrigações inegociáveis.”

As ações recentes do secretário levantaram dúvidas sobre sua influência crescente em Washington, especialmente em um momento em que o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, ainda busca consolidar sua posição após um início considerado vacilante.

Nathan Sheets, ex-integrante do Fed e do Tesouro e atualmente economista-chefe global do Citigroup, afirma que o ativismo de Bessent, combinado com o perfil mais discreto de Warsh, criou uma situação incomum em que o secretário do Tesouro se tornou a figura econômica dominante.

“Parece que, neste momento, Bessent é o irmão mais velho e Warsh é o irmão mais novo”, disse.

Os dois, porém, parecem divergir em suas prioridades. Bessent, responsável por administrar uma dívida pública de US$ 40 trilhões, busca reduzir os custos de financiamento. Warsh afirma estar concentrado em controlar uma inflação que segue elevada, mensagem reforçada na sexta-feira durante o simpósio de Jackson Hole, em meio ao debate dentro do Fed sobre a necessidade de juros mais altos.

‘Fortes ventos contrários’

A relação entre os dois é observada de perto fora dos EUA e pode ter implicações na disputa de longo prazo pela predominância do dólar.

A divergência entre Bessent e Warsh “enfraqueceu a credibilidade das instituições americanas”, afirmou Jacqueline Rong, economista-chefe para a China no BNP Paribas. Segundo ela, isso reforça a determinação das autoridades chinesas de diversificar suas reservas internacionais e acelerar a internacionalização do renminbi.

Para investidores que acompanham a reunião desta semana dos principais formuladores de política econômica do mundo, uma questão central é saber se as ações recentes de Bessent são apenas táticas ou parte de uma mudança estratégica mais ampla.

Até agora, a economia global tem resistido ao choque energético provocado por Hormuz e recebido impulso dos investimentos maciços em datacenters e infraestrutura de inteligência artificial.

Esse ciclo de expansão começou nos Estados Unidos, mas está se transformando em um motor de crescimento mais amplo, afirmou a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, na semana passada.

O Fundo Monetário Internacional projeta crescimento global de 3% em 2026, mas alerta que os riscos continuam inclinados para uma desaceleração. Para ilustrar os desafios, Georgieva comparou a economia mundial ao navio resiliente retratado por Christopher Nolan em A Odisseia, que segue navegando apesar das adversidades.

Por enquanto, disse ela, a economia global se parece com essa embarcação: avançando em mares agitados e “resistindo a fortes ventos contrários”.

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