Dos best-sellers à disputa pelo Planalto: a trajetória de Augusto Cury

Escritor e psiquiatra estreia nas urnas pelo Avante e tenta ocupar espaço fora da polarização

(Foto: Jean Carniel / Reuters)

Aos 67 anos, Augusto Cury disputa a primeira eleição de sua vida depois de construir uma carreira distante da política partidária. Médico psiquiatra, escritor e palestrante, o candidato do Avante à Presidência tenta transformar a projeção conquistada nas livrarias em capital eleitoral e se apresentar como uma alternativa à polarização.

Autor de títulos como O Vendedor de Sonhos, Ansiedade – Como Enfrentar o Mal do Século e O Homem Mais Inteligente da História, Cury informa em seu site ter vendido mais de 40 milhões de livros no Brasil e sido publicado em mais de 70 países. Na campanha, passou a associar conceitos presentes em sua obra a propostas para áreas como educação, segurança pública, saúde mental e relações internacionais.

A candidatura, oficializada pelo Avante em agosto, representa sua estreia nas urnas. O vice é o ex-deputado federal Júlio Delgado, também do partido, que já disputou a Prefeitura de Juiz de Fora (MG).

Cury também entrou na eleição com um dos maiores patrimônios declarados à Justiça Eleitoral. Segundo os dados apresentados ao TSE, seus bens somam cerca de R$ 242 milhões, incluindo fazendas, imóveis, investimentos e participações societárias.

“Mente capitalista e coração social”

Cury resume seu posicionamento político em uma expressão repetida desde a pré-campanha: diz ter “uma mente capitalista e um coração social”.

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Na economia, defende redução do tamanho do Estado, maior eficiência da máquina pública, menos burocracia e melhores condições para empreendedores. Em entrevista à CNN Brasil, em abril, elogiou Paulo Guedes, ministro da Economia no governo Jair Bolsonaro, e afirmou que o país precisaria de uma “mente” como a do economista.

Ao mesmo tempo, procura associar a agenda liberal a políticas sociais. Entre os temas aos quais dá maior destaque estão saúde mental, educação, direitos das mulheres e ressocialização de presos.

O candidato rejeita ser classificado apenas como um nome de centro. Para ele, políticas sociais não deveriam ser automaticamente vinculadas à esquerda, assim como propostas liberais na economia não seriam exclusividade da direita.

É nessa combinação que tenta construir uma identidade própria, afastada tanto de Lula quanto de Flávio Bolsonaro.

Mudança no sistema de governo

Uma das propostas mais profundas de Cury envolve a reorganização do presidencialismo brasileiro. O candidato defende a adoção do semipresidencialismo. Pelo modelo apresentado por ele, o presidente ficaria responsável por temas estratégicos, enquanto um primeiro-ministro assumiria a administração cotidiana do governo.

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Ao oficializar sua candidatura, Cury afirmou que pretendia propor a mudança caso chegasse ao Planalto. Também mencionou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como um nome que convidaria para ocupar o posto de primeiro-ministro.

Antes da definição da chapa do Avante, o escritor também conversou com Romeu Zema sobre uma eventual candidatura conjunta, mas a negociação não avançou.

Mandato no STF e menos exposição dos ministros

O Supremo Tribunal Federal também aparece entre os alvos das mudanças institucionais defendidas pelo candidato. Cury propõe acabar com a permanência dos ministros na Corte até a aposentadoria compulsória e estabelecer mandatos com duração limitada. Em diferentes entrevistas, falou em períodos de oito a dez anos.

Ele também defende reduzir a influência direta do presidente da República na composição do Supremo e ampliar a participação de integrantes da magistratura. Outra proposta é estabelecer uma presença mínima de mulheres na Corte.

Cury critica ainda a exposição dos ministros durante os julgamentos e já defendeu o fim das transmissões ao vivo dos votos. Sua justificativa é baseada nos estudos sobre comportamento humano: segundo ele, a exposição constante interfere na forma como os indivíduos reagem.

Educação, empreendedorismo e saúde mental

É na educação que a trajetória profissional do escritor aparece de forma mais direta no programa eleitoral. Cury defende mudanças no ensino médio para que a etapa deixe de ser vista prioritariamente como preparação para o vestibular e passe a oferecer maior formação técnica e profissional. Também propõe clubes de empreendedorismo nas escolas para estimular inovação e criatividade.

Saúde mental é outro eixo central da candidatura. O tema atravessou boa parte da produção literária que o tornou conhecido e agora aparece como política pública em seu programa.

Na segurança, Cury defende rever a lógica do sistema prisional e ampliar políticas de ressocialização. Para ele, o país prende muito sem conseguir impedir a reincidência e acaba transformando presídios em ambientes de recrutamento para o crime.

Da mente humana à diplomacia

O candidato também transporta para a política externa a ideia de que pode aplicar seus estudos sobre conflitos e emoções. Durante a pré-campanha, afirmou que tentaria atuar pessoalmente na mediação de guerras e disse que buscaria conversar com líderes como Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky para contribuir para uma solução para a guerra entre Rússia e Ucrânia.

Cury também defendeu a criação de mecanismos internacionais de financiamento do combate à fome, inclusive com recursos vinculados ao comércio mundial ou à indústria de armas.

No debate da Band, afirmou que buscaria manter uma relação equilibrada com os Estados Unidos de Donald Trump, sem aceitar uma postura de subordinação, e preservaria os vínculos estratégicos do Brasil com a China.

Candidatura sob desconfiança

A passagem de uma carreira consolidada no mercado editorial para uma candidatura presidencial também provocou questionamentos sobre os objetivos do escritor.

Nos bastidores, críticos levantaram a hipótese de que a exposição eleitoral pudesse favorecer a venda de livros, cursos e palestras. Cury rejeita essa interpretação e afirma que pessoas próximas chegaram a alertá-lo para o risco oposto: o de a política prejudicar sua reputação e seus negócios.

Sem mandato anterior ou experiência administrativa, Cury tenta converter reconhecimento pessoal em votos com uma plataforma que mistura liberalismo econômico, políticas sociais, reformas institucionais e conceitos extraídos de seus estudos sobre comportamento humano.

Na disputa contra políticos mais conhecidos do eleitorado, seu desafio será descobrir se a audiência conquistada nas livrarias pode se transformar também em apoio nas urnas.