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Medo quase faz Paulo Muzy desistir antes da primeira largada na Porsche Cup

Uma entrada dos boxes perdida impediu a desistência e levou Muzy a enxergar o medo como parte do aprendizado

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Uma volta de apresentação bastou para que a confiança desse lugar a uma pergunta incômoda: o que estou fazendo aqui?

Prestes a enfrentar sua primeira corrida, o médico especialista em medicina do esporte procurou a entrada dos boxes decidido a abandonar o desafio antes mesmo de receber a bandeira verde.

Paulo Muzy foi o convidado do episódio 14 da 4ª temporada do programa Mapa Mental, no canal GainCast. Ele explicou como uma sensação que quase o tirou da pista se tornou uma ferramenta para desenvolver prudência e habilidade.

Decidido a desistir

A experiência nas pistas devolveu ao médico uma sensação que havia desaparecido de sua rotina. Frear um carro de 260 km/h para 90 km/h em apenas 75 metros colocou diante dele uma ameaça concreta, diferente das preocupações cotidianas.

“Fazia muito tempo que eu não tinha medo de nada”, admite.

Na primeira participação, entretanto, a reação imediata foi procurar uma saída. Muzy havia entrado no carro, completado a volta de apresentação e enfrentava dificuldade até para acompanhar o pelotão.

“Entrei no carro pela primeira vez. Eu queria desistir. Falei: ‘Que que eu tô fazendo aqui?’”, relata.

Além disso, a idade apareceu em seu diálogo interno como argumento para abandonar a tentativa. Aos 45 anos, ele duvidou que ainda pudesse desenvolver a capacidade necessária para competir em alto nível.

“Eu não vou aprender pilotar com 45 anos de idade”, recorda.

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Contudo, a sequência de pensamentos fez Muzy perder o momento em que ainda poderia entrar nos boxes. Quando percebeu, já havia avançado em direção à largada e precisava tomar outra decisão. “Estava conversando tanto comigo que passei a entrada dos boxes e me vi na bandeira verde”, conta.

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Medo não é pânico

Para Muzy, aquela reação não deveria ser eliminada. Pelo contrário, o sentimento cumpria a função de alertá-lo sobre a dimensão do desafio e sobre a necessidade de se preparar.

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“O medo é fundamental para nossa vida”, afirma.

Nesse sentido, o problema surgiria quando nenhuma experiência concreta provocar receio. Sem um desafio real a enfrentar, a mente poderia começar a produzir ameaças desconectadas da situação vivida.

“Se você não tem alguma coisa que você tem medo, você cria. Só que, quando você cria coisas que você tem medo, você está criando do irracional”, explica.

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Por isso, o médico separa o medo provocado por um perigo identificável das reações que não correspondem à ameaça existente. A distinção ajuda a compreender quando a cautela orienta a ação e quando passa a paralisá-la. “O pânico é o irracional”, diferencia.

Ao mesmo tempo, Muzy argumenta que evitar qualquer situação desafiadora não impede o surgimento dessas reações.

Em sua avaliação, a ausência de um receio concreto abre espaço para preocupações sem a mesma utilidade prática. “Só que, quando você para de ter medo, você começa a criar os seus medos. E aí vem pânico”, alerta.

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Da hesitação à ação 

Após perder a entrada dos boxes, Muzy reinterpretou a sensação. Em vez de abandonar a prova, decidiu enfrentar o desafio.

“Preciso estar aqui porque nunca mais tive esse medo. Preciso dar um jeito de vencer isso, porque se eu vencer isso daqui eu passo qualquer coisa”, revela.

Em seguida, a decisão exigiu uma atitude objetiva, pois a corrida começaria. Sem outra preparação disponível naquele instante, escolheu continuar. “A única reação que eu tive foi acelerar e falar: ‘Não, agora vamos’”, relata.

Assim, a preocupação o levou a estudar e aperfeiçoar o trabalho até transformar insegurança em capacidade técnica. O medo estimulou a preparação.

“Esse medo fez com que eu me colocasse naquilo para aprender a fazer aquilo melhor impossível”, reconhece.

Por fim, as pistas mostraram que disposição sem preparo não basta. O aprendizado exige enfrentar o receio e desenvolver a capacidade de agir com segurança.

“Correr é coragem e habilidade. Se você não tiver coragem, você não arranca com o carro. Se você não tiver habilidade, você não passa da primeira curva”, conclui.

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Bruno Nadai
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