As taxas de juros elevadas são cíclicas ou estruturais?

A alta das expectativas para os juros de longo prazo reacende o debate sobre a taxa neutra e sobre quanto do problema brasileiro é conjuntural ou estrutural

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A resposta à provocação acima é: provavelmente, os dois!

Em forte contraste com o início do ano, quando ventos favoráveis do ciclo econômico contribuíam para condições monetárias domésticas mais frouxas e, de fato, para o início de um ciclo de cortes de juros, a combinação de inflação global mais elevada, juros internacionais mais altos e um novo impulso fiscal doméstico interromperam abruptamente o avanço do ciclo.

Os mercados ainda precificam a possibilidade de um corte adicional da Selic em agosto, mas esse cenário está longe de ser garantido: os riscos externos continuam abundantes e o resultado das eleições permanece uma grande incógnita.

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No entanto, a interrupção dos fatores cíclicos domésticos tem implicações muito mais amplas do que apenas para a política monetária de curto prazo.

As expectativas para a política monetária de longo prazo também vêm aumentando, inclusive para horizontes de três a quatro anos à frente, um bom indicador empírico da taxa nominal de juros de equilíbrio — ou taxa neutra — esperada para a economia.

Na pesquisa Focus, a expectativa para a Selic em 2028 e 2029 já supera 10%, atingindo os níveis mais elevados desde 2014–2015. O que esse dado revela sobre as características estruturais da economia brasileira?

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Inflação e risco fiscal pressionam as expectativas

Uma possibilidade é que a elevação das expectativas para os juros seja simplesmente um reflexo do aumento das projeções de inflação de longo prazo na própria pesquisa Focus.

Deixando de lado eventuais vieses comportamentais nas respostas à pesquisa — por exemplo, a tendência dos analistas de extrapolar para o longo prazo a dinâmica inflacionária observada no presente — juros nominais mais elevados podem muito bem refletir a fragilidade da ancoragem das expectativas de inflação no Brasil.

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Choques inflacionários e principalmente dúvidas quanto à sustentabilidade fiscal — ambos elementos centrais do cenário atual — atuam conjuntamente para deslocar as expectativas de inflação de longo prazo.

Ou seja, na medida em que a política fiscal expansionista passa a ser percebida como mais perene, os prêmios de risco também aumentam para prazos mais longos, demonstrando uma maior dúvida pelos agentes econômicos da capacidade de convergirmos para a meta do BC.

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E se a taxa neutra também estiver mais alta?

Outra possibilidade é que a meta efetiva de inflação perseguida pelo Banco Central esteja subindo.

Um amplo conjunto de indicadores sugere que a meta efetiva de inflação do BCB — isto é, o nível de inflação em torno do qual a economia tende a convergir no longo prazo — situa-se acima de 3%.

Não apenas os dados observados e as expectativas permanecem sistematicamente superiores a esse patamar ao longo do tempo, como uma parcela crescente dos analistas já considera uma inflação de 4% como um cenário plausível. Isso denota uma menor crença de que as condições efetivas para o cumprimento da meta estejam presentes no ambiente.

Dito de outra forma, o conjunto de políticas implementadas pelo governo tem tornado muito mais desafiador para a política monetária alcançar seu objetivo

Dito isso, é difícil justificar uma Selic superior a 10% no longo prazo sem admitir que parte dessa elevação decorra de uma taxa real neutra (r*) mais alta.

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Mesmo supondo expectativas de inflação de longo prazo de 4%, seja em função de uma meta efetiva mais elevada ou de outros fatores, isso implicaria uma taxa real neutra superior a 6%.

Esse resultado cria um certo paradoxo, uma vez que as estimativas baseadas em modelos costumam apontar valores inferiores.

No Relatório de Política Monetária, o Banco Central estimou a taxa neutra em 5%, patamar inalterado desde sua avaliação de 2024 baseada em diferentes metodologias.

As explicações mais usuais para uma elevação da taxa neutra seriam:

O limite entre ciclo e estrutura

Um ponto mais sutil é que a separação entre fatores cíclicos e estruturais que determinam a taxa nominal de juros de longo prazo nem sempre é clara.

Tome-se como exemplo um impulso fiscal persistentemente elevado.

Por um lado, o aumento dos gastos públicos possui uma assinatura claramente cíclica: fortalece o mercado de trabalho e mantém a inflação corrente acima da meta, fenômeno que o Banco Central procura combater por meio de uma política monetária restritiva, mantendo a Selic elevada por um período prolongado.

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Por outro lado, na ata da reunião de março de 2026, o Copom destacou explicitamente o enfraquecimento das reformas estruturais e da disciplina fiscal, o crescimento do crédito direcionado e a incerteza quanto à estabilização da dívida pública como fatores de alta para a própria taxa neutra.

O risco de políticas em direções opostas

No final das contas, no que diz respeito à taxa neutra, trata-se de uma distinção sutil entre um banco central crível, contrapondo-se a pressões fiscais persistentes e a “dominância fiscal” da autoridade monetária.

Em outras palavras, a alta da taxa neutra pode ser o antídoto para uma política procíclica ou uma função menos benigna de um prêmio de risco-país em ascensão.

Qual dos dois cenários irá prevalecer ainda está por se determinar.

Mas um ponto é claro, enquanto tivermos as políticas fiscal e monetária andando em direções opostas as taxas de juros continuarão bastante elevadas.


Graduado em Administração de Empresas pela FAAP, com especialização em Finanças, construiu carreira no mercado financeiro desde os 18 anos. Foi Diretor do Banco Central do Brasil entre 1999 e 2003, Conselheiro e Coordenador do Comitê de Risco e Financeiro e membro do Comitê do Setor de Emissores da B3, além de um dos fundadores da Gávea Investimentos. Atuou como Sócio e Diretor-Tesoureiro do Banco BBA, ocupando também posições de liderança no Banco Nacional, no JP Morgan e em corretoras locais. É fundador e Presidente da AMEC e foi Diretor da ANBIMA por 18 anos. Fundador da Mauá Capital, liderou a união da gestora com a Jive Investments em 2022, tornando-se Chairman da JiveMauá até dezembro de 2025, quando vendeu o restante de sua posição acionária. Em 2018, fundou o Instituto Fefig de Educação, Cultura e Esportes, focado em iniciativas de alto impacto em Educação. Mais recentemente, tornou-se sócio e membro do conselho consultivo da Jubarte Capital, além de sócio da Klavi, onde atua como conselheiro e senior advisor, e, na área social, é Conselheiro da Associação Parceiros da Educação e do IDIS.