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O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, assumiu o cargo criticando sua antecessora por tentar remodelar o maior mercado de títulos do mundo. Na semana passada, porém, ele próprio tentou fazer algo semelhante.
Ao anunciar um programa de recompra de títulos públicos de longo prazo, que exigirá maior emissão de papéis de curto prazo, Bessent afirmou que estava promovendo o que chamou de uma “Treasury Twist”, em referência à famosa estratégia adotada pelo Federal Reserve nos anos 1960 para influenciar a curva de juros dos Treasuries. Segundo ele, os rendimentos dos títulos de longo prazo estariam acima dos níveis de equilíbrio.
Inicialmente, a medida teve efeito. Os rendimentos dos títulos mais longos caíram logo após o anúncio. No entanto, o movimento durou pouco: em seguida, as taxas voltaram a subir. O rendimento do Treasury de 10 anos, referência preferida de Bessent, encerrou a semana em 4,73%, próximo das máximas desde que ele assumiu o cargo, antes de recuar ligeiramente nesta segunda-feira.
O comportamento do mercado sugere que o esforço de Bessent para reduzir os custos de financiamento do governo, especialmente com as eleições legislativas de novembro se aproximando, está esbarrando em fatores estruturais que estão além de seu controle.
Entre esses fatores está o aumento do endividamento público. A dívida dos EUA ultrapassou a marca de US$ 40 trilhões nesta semana, enquanto outros países desenvolvidos também registram crescimento expressivo do passivo público. Além disso, empresas vêm emitindo volumes recordes de dívida para financiar investimentos, especialmente ligados ao avanço da inteligência artificial.
A inflação também voltou a acelerar depois que o presidente Donald Trump provocou turbulências nos mercados de energia ao iniciar um conflito com o Irã. Ao mesmo tempo, investidores demonstram incerteza em relação à estratégia do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh.
Para Matt King, fundador da Satori Insights, qualquer caminho para uma queda sustentável dos juros longos passa por medidas que a administração americana provavelmente não deseja adotar.
“Todas as rotas para um alívio duradouro dos rendimentos de longo prazo exigem algo que o governo não quer”, afirmou. Segundo ele, os juros poderiam cair com uma redução significativa do déficit fiscal, uma queda das bolsas de valores ou um arrefecimento dos investimentos em inteligência artificial.
Juros voltando ao normal?
Nem todos os participantes do mercado acreditam que os rendimentos estejam excessivamente elevados.
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Edward Yardeni, economista conhecido por popularizar o termo “vigilantes dos títulos”, afirmou à Bloomberg TV que os níveis atuais simplesmente refletem uma normalização da economia.
“Estamos voltando a taxas normais de juros. Entre 4% e 5% é algo normal”, disse.
Embora o Tesouro argumente que as recompras de títulos têm como objetivo melhorar a liquidez do mercado, analistas do JPMorgan observaram que o funcionamento do mercado de Treasuries já apresentou melhora significativa ao longo deste ano.
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A visão de Bessent sobre a curva de juros vai além dos títulos públicos. O secretário também apontou para o impacto das chamadas “hyperscalers”, grandes empresas de tecnologia que vêm investindo pesadamente em inteligência artificial e captando recursos no mercado para financiar esses projetos.
No início deste mês, por exemplo, a Alphabet realizou uma emissão de dívida com vencimentos de até 40 anos.
Segundo Bessent, esses investimentos devem resultar futuramente em crescimento econômico mais forte e menos inflacionário. No entanto, no curto prazo, eles intensificam a disputa global por capital.
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“Isso está criando uma competição temporária por recursos”, afirmou. Caso estivesse no lugar dos diretores financeiros dessas empresas, disse, consideraria emissões concentradas em títulos de prazo intermediário, como os de cinco anos.
“Informações erradas”
Ao comentar a recente alta dos rendimentos dos Treasuries, Bessent afirmou que muitos investidores estão agindo com base em “informações erradas” sobre a situação fiscal dos Estados Unidos.
Segundo ele, existe desinformação sobre o tamanho do déficit público e o governo pretende reforçar a comunicação sobre seu programa de consolidação fiscal.
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Nos próximos dias, Bessent afirmou que trabalhará em conjunto com Russ Vought, diretor de orçamento da Casa Branca, para buscar medidas tanto do lado das receitas quanto das despesas.
Entre as iniciativas mencionadas estão o combate a fraudes e possíveis reduções em transferências para governos estaduais.
Ainda assim, analistas permanecem céticos. Sarah Bianchi, estrategista-chefe da Evercore ISI, afirmou que é difícil imaginar ações capazes de produzir impacto relevante sobre o déficit neste momento.
O desafio fiscal é enorme. Além da conta de juros da dívida pública, que já supera US$ 1 trilhão por ano, os principais responsáveis pelo déficit continuam sendo os gastos com Previdência Social, Medicare e Medicaid. Reformar esses programas é considerado politicamente inviável no curto prazo, especialmente se os democratas conquistarem ao menos uma das casas do Congresso após as eleições de novembro.
Divergência com Kevin Warsh
Dentro da esfera de atuação de Bessent está a possibilidade de alterar o perfil das emissões de dívida e ampliar o programa de recompras.
A iniciativa ocorreu poucas semanas depois de mudanças na orientação do Tesouro para futuras emissões, o que, segundo analistas, abriu espaço para uma redução na oferta de títulos de vencimento mais longo, justamente aqueles com rendimentos mais elevados.
A estratégia lembra iniciativas adotadas anteriormente pela ex-secretária do Tesouro Janet Yellen, frequentemente criticadas por Bessent quando ele ainda estava fora do governo.
As medidas também parecem evidenciar uma diferença de visão entre Bessent e Kevin Warsh. Enquanto o secretário considera que os juros de longo prazo estão acima do equilíbrio, o presidente do Fed tem indicado que a alta recente é uma resposta legítima do mercado às condições econômicas.
Em julho, Warsh observou que, embora o Fed não tenha elevado os juros diante da aceleração da inflação, os mercados já fizeram parte desse ajuste por conta própria.
No fim desta semana, investidores acompanharão atentamente o discurso de Warsh no simpósio anual de Jackson Hole, promovido pelo Federal Reserve de Kansas City.
Os mercados esperam mais clareza sobre a estratégia da autoridade monetária após uma coletiva de imprensa considerada decepcionante no mês passado, quando Warsh evitou sinalizar os próximos passos da política monetária e chegou a sugerir mudanças futuras na meta de inflação.
O papel do Fed
Warsh também defende mudanças no balanço patrimonial do Federal Reserve, que atualmente detém cerca de US$ 4,54 trilhões em Treasuries. Além disso, já citou a possibilidade de um novo acordo entre o Fed e o Tesouro, sem detalhar exatamente como isso funcionaria.
O acordo original entre as duas instituições, firmado em 1951, reduziu significativamente a intervenção do banco central no mercado de títulos e encerrou uma política de controle da curva de juros.
Paradoxalmente, alguns especialistas argumentam que, se o objetivo for realmente reduzir os custos de financiamento do governo hoje, poderia ser necessária justamente uma ampliação da atuação do Fed.
Rebecca Patterson, ex-executiva do JPMorgan e da Bridgewater Associates e atualmente pesquisadora do Council on Foreign Relations, afirmou que as recompras de títulos enviam mais um sinal ao mercado do que produzem efeitos concretos.
Segundo ela, mesmo programas maiores dificilmente alterariam de forma relevante a dinâmica dos rendimentos. Uma estratégia mais eficaz e sustentável, afirma, seria a retomada de programas de compra de ativos pelo Fed, conhecidos como afrouxamento quantitativo (quantitative easing).
Sem uma mudança dessa magnitude, a avaliação predominante é que os próprios investidores continuarão determinando o rumo da curva de juros.
“A economia continua resiliente e existe uma competição global por capital”, disse Priya Misra, gestora da JPMorgan Asset Management. “Faz sentido que as taxas de juros estejam subindo.”
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