Quem é a Avibras, fabricante de armas de guerra na mira dos irmãos Batista

Criada há mais de 60 anos por engenheiros do ITA, fabricante brasileira de equipamentos militares já passou por tentativas frustradas de venda

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Os irmãos Joesley e Wesley Batista, da JBS, estão prestes a ampliar novamente o campo de atuação de seus negócios. O Grupo J&F, holding da família, está fechando a compra de 100% da Avibras, uma das principais empresas brasileiras dos setores de defesa e aeroespacial, apurou a coluna Capital. A aquisição ocorre poucos meses depois de Joesley participar de um aporte de R$ 300 milhões na companhia.

A chegada dos Batista acontece depois de um dos períodos mais turbulentos da história da Avibras. A companhia entrou em recuperação judicial em 2022, com uma dívida de cerca de R$ 600 milhões, e passou mais de três anos com a produção paralisada. Os trabalhadores chegaram a ficar 1.281 dias em greve, em um movimento iniciado em setembro de 2022. As atividades foram retomadas em maio deste ano, depois de um acordo para o pagamento de cerca de R$ 230 milhões em dívidas trabalhistas.

A empresa também voltou a ocupar espaço na agenda do governo federal. Em julho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a fábrica da Avibras em Jacareí, no interior de São Paulo, já com a produção retomada. Durante a visita, Lula defendeu o aumento dos investimentos brasileiros em defesa e afirmou que o país precisa estar preparado diante de um cenário internacional de conflitos.

Fundada em 1961 por engenheiros formados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a Avibras nasceu no Vale do Paraíba, região que se tornou um dos principais polos aeroespaciais e de defesa do país. Nesse período, a companhia desenvolveu produtos e sistemas de alta complexidade para as Forças Armadas brasileiras e para clientes estrangeiros. Entre eles está o Sistema Astros, um sistema de artilharia de foguetes e mísseis desenvolvido pela empresa e utilizado pelo Exército Brasileiro. A companhia também desenvolveu foguetes, mísseis de cruzeiro, motores para diferentes tipos de mísseis, sistemas de comando e controle e veículos especiais.

O histórico da empresa também se estende ao setor espacial. A Avibras participa do Programa Espacial Brasileiro e, em 2020, recebeu autorização para produzir e comercializar o VSB-30, veículo suborbital desenvolvido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE). O foguete já havia realizado dezenas de lançamentos no Brasil e na Suécia.

A companhia mantém instalações industriais em Jacareí e Lorena, no interior paulista. Em relatório publicado pela própria empresa, a Avibras descreveu seu complexo como formado por áreas fabris, laboratórios, centros de desenvolvimento, áreas de testes e estruturas de armazenagem.

Nos últimos anos, muitas negociações. Em 2024, a Avibras anunciou que estava em negociações avançadas com a australiana DefendTex para um possível investimento na companhia. Segundo a própria Avibras, o objetivo era recuperar financeiramente a empresa, manter as instalações industriais no Brasil e retomar as operações.

A possibilidade de venda para uma empresa estrangeira provocou reação entre políticos, especialistas e sindicalistas. O temor era que a operação levasse à desnacionalização de uma companhia considerada estratégica para o setor de defesa.

Na época, o Ministério da Defesa afirmou que, por se tratar de uma empresa privada, a negociação comercial não dependia de autorização prévia da pasta. O governo avaliaria posteriormente se a Avibras continuaria enquadrada como Empresa Estratégica de Defesa. A operação com a DefendTex, porém, não avançou. A própria Avibras informou posteriormente que a empresa australiana não havia cumprido, dentro do prazo, as condições estabelecidas para a negociação.

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Enquanto a negociação com os australianos avançava, outro interessado surgiu no radar: a chinesa Norinco, estatal do setor de defesa. Em 2024, uma delegação de executivos da companhia chinesa visitou a sede da Avibras, segundo o colunista Lauro Jardim. Meses antes, a Norinco havia manifestado oficialmente interesse na aquisição da empresa ao Ministério da Defesa.

A possibilidade de a Avibras passar para o controle chinês aumentou a pressão sobre o governo brasileiro para encontrar uma alternativa. O presidente Lula mobilizou o BNDES para buscar uma solução que evitasse a venda da empresa a um grupo estrangeiro.

Apesar da crise, a Avibras vinha tentando ampliar sua presença no mercado internacional. Um dos movimentos foi uma parceria com a espanhola NTGS para disputar projetos de defesa na Espanha utilizando o sistema Astros. A estratégia fazia parte do esforço da empresa para ampliar exportações e transformar a Avibras em uma companhia com presença internacional mais forte.

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O Astros tem histórico de exportação e já foi empregado em conflitos no Oriente Médio. A própria empresa afirma que o sistema foi concebido para operar diferentes tipos de foguetes e mísseis a partir de uma mesma família de plataformas. A parceria com os espanhóis também provocou críticas de trabalhadores e do sindicato, que questionavam a possibilidade de fabricação de equipamentos fora do Brasil e de transferência de tecnologia.

A Avibras, por sua vez, argumentava que a estratégia tinha como objetivo justamente ampliar os negócios internacionais, aumentar a competitividade e garantir a recuperação econômica da companhia. Em comunicado divulgado à época, a empresa afirmou que a propriedade intelectual permaneceria na matriz brasileira.