Um guia prático para qualquer pessoa que produz conteúdo digital

Mais do que tentar decifrar o algoritmo, quem produz conteúdo precisa entender o que as plataformas procuram: relevância para cada pessoa e sinais de que aquele conteúdo merece ser visto

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Eu gosto de começar esta conversa com uma constatação óbvia e banal: hoje, todo mundo virou creator.

Não apenas quem grava vídeos todos os dias, mas também o executivo que escreve no LinkedIn, a pequena empresa que mostra os bastidores no Instagram e o especialista que explica seu trabalho no TikTok ou no YouTube.

O Brasil tem 185 milhões de usuários de internet e 150 milhões de identidades de usuários em redes sociais, segundo a DataReportal.

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O relatório alerta que identidades não são necessariamente pessoas únicas, mas o número ajuda a mostrar o tamanho do ambiente em que qualquer creator está tentando ser encontrado.

A TIC Domicílios 2024, do Cetic.br, registrou 141 milhões de usuários de internet com 10 anos ou mais; entre eles, 81% usavam redes sociais.

É nesse cenário que muita gente trata o algoritmo como um inimigo, uma espécie de porteiro que decide quem entra, quem não entra, quem fica e quem sai.

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Prefiro pensar de outro jeito: ele é um sistema de recomendação que tenta descobrir qual conteúdo pode interessar a cada pessoa, em determinado momento.

Instagram e YouTube dizem observar sinais como curtidas, comentários, compartilhamentos, salvamentos, cliques, tempo de exibição e satisfação.

As plataformas também deixam claro que não existe uma receita fixa.

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Na prática, eu resumiria tudo assim: o conteúdo precisa ser entendido rapidamente, entregar valor e dar à pessoa uma razão para continuar.

Dica 1: antes do formato, vem a ideia

Uma armadilha comum é escolher o formato antes de saber o que dizer. A pessoa decide fazer um Reels, um carrossel ou um podcast e só depois procura um assunto para preencher aquele espaço.

Eu faria o caminho inverso. Antes de pensar no formato, perguntaria: o que a pessoa vai ganhar ao consumir este conteúdo? Ela vai aprender, resolver um problema, economizar tempo, evitar um erro ou organizar melhor uma decisão?

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Um teste simples é completar a frase: “ao terminar este conteúdo, a pessoa vai saber…”. Se eu não consigo terminar, provavelmente ainda não sei qual é a entrega.

A primeira frase precisa abrir a porta. Não é necessário fazer uma promessa impossível.

Basta apresentar rapidamente o problema, a pergunta ou o benefício. Em vez de “hoje eu vim falar sobre…”, eu posso começar com “você está cometendo este erro ao divulgar o seu trabalho”.

Dica 2: entregue o que prometeu

O título promete cinco dicas, mas o vídeo passa metade do tempo apresentando o autor. O post fala em “passo a passo”, mas entrega apenas uma opinião. A chamada promete uma análise e termina sem conclusão.

Não olho apenas para o alcance.

Um vídeo pode chegar a muita gente e perder quase todo mundo nos primeiros segundos. Outra publicação pode alcançar menos pessoas e ser salva, compartilhada ou enviada por mensagem, sinal de que encontrou um grupo mais interessado.

Por isso, observo onde as pessoas abandonam, qual trecho é mais visto e se o conteúdo é concluído. O objetivo não é prender a atenção a qualquer custo. É merecer a atenção até o fim.

Dica 3: crie para uma pessoa concreta

Quando o público é “todo mundo”, o conteúdo geralmente fica genérico. Tente imaginar uma pessoa concreta: um pequeno empresário tentando divulgar o negócio, uma profissional em transição de carreira ou um investidor iniciante.

Que dúvida essa pessoa tem? O que precisa resolver nesta semana? Quanto mais específico é o problema, mais fácil é produzir algo que realmente ajude.

É daí que nasce o conteúdo compartilhável: uma comparação, um roteiro, uma explicação simples ou um alerta sobre um erro comum.

Antes de publicar, pergunte a si mesmo: quem eu imagino recebendo este conteúdo por mensagem?

Curtida é uma reação. Salvamento mostra utilidade futura. Compartilhamento indica recomendação. Comentário abre uma conversa.

Tendências podem ajudar, mas não substituem uma ideia. Eu usaria um meme, um áudio ou um formato do momento apenas se ele tornasse a mensagem mais clara.

E trataria cada publicação como um teste: uma nova abertura, um exemplo diferente ou outro jeito de explicar o mesmo assunto.

No fim, o algoritmo muda, as plataformas mudam e os formatos mudam.

O básico continua valendo: uma promessa clara, uma boa abertura, entrega objetiva e disposição para aprender com os dados que você gera do seu conteúdo.

Antes de perguntar “isso vai viralizar?”, eu perguntaria: isso é claro, útil ou interessante o bastante para alguém querer continuar, guardar ou enviar para outra pessoa?

Se a resposta for sim, o conteúdo já começou bem.


Renato Dolci é cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital. Já desenvolveu trabalhos em diversos ambientes públicos e privados, como Presidência da República, Ministério da Justiça, FIESP, Banco do Brasil, Mercedes, CNN Brasil, Disney entre outros. Foi sócio do BTG Pactual e atualmente, é diretor de dados na Timelens, CRO na Hike e CEO na Ineo.