Vencimento de títulos do Tesouro e recalibragem de fundos pressionam juros nesta 2ª

Gatilhos técnicos na curva de juros se encontram com uma dívida pública cada vez mais dependente de papéis pós-fixados, e após sessão de estresse na sexta-feira (14)

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O mercado de juros concentra dois eventos capazes de mexer com o apetite por títulos públicos nesta segunda-feira (17), com o vencimento de um lote relevante de NTN-B (Tesouro IPCA+) e o rebalanceamento das carteiras de fundos que replicam índices que acompanham títulos de inflação. Os eventos ocorrem logo depois de uma sexta-feira (14) de forte estresse na curva, e o resultado deve ser observado de perto, especialmente nos papéis atrelados ao IPCA.

As NTN-Bs que vencem nesta segunda somam R$ 257 bilhões, dos quais cerca de R$ 12,88 bilhões estavam nas mãos de pessoas físicas via Tesouro Direto até junho, segundo levantamento da XP. Como o vencimento caiu num sábado (15), o pagamento foi automaticamente transferido para o primeiro dia útil seguinte.

O Tesouro Nacional costuma equilibrar o calendário para não precisar rolar a dívida junto com o vencimento de títulos, mas chega num momento em que a curva já mostrou sensibilidade na sexta, em sessão de forte aversão a risco. O Tesouro Direto chegou a ficar temporariamente suspenso e retomou as negociações com forte alta. O Tesouro Prefixado chegou a subir até 25 pontos-base, e os títulos de inflação avançaram até oito pontos-base durante a tarde, nos maiores patamares desde o final de julho.

O movimento veio na esteira de um estresse generalizado em ativos brasileiros, com o dólar chegando a saltar a quase R$ 5,24, pressionado também pelo petróleo, e a dúvida sobre as decisões do Banco Central após o IBGE divulgar uma taxa de desocupação resiliente, tudo enquanto o mercado esperava por uma nova rodada da pesquisa Quaest presidencial.

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Fundos de renda fixa vão às compras

Por outro lado, fundos de renda fixa se preparam para recalibragem: no fechamento desta segunda, os fundos que replicam os índices da família IMA-B, o IMA-B 5, o IMA-B e o IMA-B 5+, passam por um ajuste técnico em suas carteiras. Esses fundos precisam seguir a composição oficial de cada índice, e qualquer mudança nela obriga uma reposição de posições para manter a réplica. Dessa vez, a promessa é de movimentação de volumes expressivos no mercado de NTN-B.

O gatilho do rebalanceamento é justamente o vencimento da NTN-B 2026, somando o pagamento do principal e do último cupom, além de cerca de R$ 30 bilhões em cupons intermediários pagos por outros títulos de inflação do mesmo ciclo, segundo cálculos da consultoria Eytse Estratégia.

Com a saída da NTN-B 2026 das carteiras teóricas, o espaço liberado é redistribuído entre os papéis curtos que permanecem. No IMA-B 5, o vencimento de 2028 sobe de 24,85% para 33,92% e o de 2030 passa de 23,87% para 32,57%, enquanto o de 2027 avança de 14,40% para 20,28%. No IMA-B, que abrange toda a curva, os mesmos papéis também ganham peso, com a 2028 indo de 11,12% para 12,58% e a 2030 de 10,68% para 12,08%. É essa recomposição que explica por que a demanda estimada se concentra justamente nesses dois vencimentos.

Números preliminares levantados pela casa projetam uma demanda líquida agregada de cerca de R$ 35,3 bilhões, equivalente à compra de aproximadamente 7,81 milhões de títulos, dos quais 6,83 milhões seriam adquiridos pelos fundos referenciados ao IMA-B 5. Os maiores fluxos se concentrariam nas NTN-B com vencimento em 2028 e 2030, com compras líquidas estimadas em R$ 10,7 bilhões e R$ 10,2 bilhões, respectivamente. “Essa concentração reflete tanto os pesos desses papéis no IMA-B 5 quanto a distribuição dos PLs (patrimônios líquidos) considerada na simulação”, explica o economista Sérgio Goldenstein, sócio-fundador da Eytse Estratégia e ex-chefe do Departamento de Mercado Aberto do Banco Central.

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Perfil da dívida mudou

Em julho, o volume total colocado pelo Tesouro nos leilões do mês somou R$ 165,7 bilhões, o segundo maior do ano, levando o montante líquido emitido no acumulado de 2026 a R$ 961 bilhões, ante R$ 1,06 trilhão no mesmo período de 2025.

A distribuição entre os tipos de título, porém, ficou desigual. As LFTs, atreladas à Selic, lideraram com 58% das emissões de julho, e os prefixados saltaram de 20% para 40%. Já as NTN-Bs tiveram a menor fatia do ano, apenas R$ 2,6 bilhões, ou 1,6% do total colocado no mês, levando a participação acumulada em 2026 para 7%, ante 18% no fechamento de 2025, de acordo com dados apurados pela Eytse.

Mesmo com a oferta simbólica de títulos de inflação, o custo de emissão para o Tesouro seguiu alto. A taxa média das colocações de NTN-B em julho ficou em 7,98% ao ano, nível que a Eytse considera bem acima da média histórica e do que seria compatível com as estimativas usuais de juro real neutro.

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O mês também foi marcado por pela alta dos juros longos globais, que voltam a pressionar os leilões desta semana, após o Tesouro americano pagar a maior taxa desde 2001 para rolar títulos de 30 anos.

A expectativa é que o Tesouro faça na terça-feira (18) uma nova oferta de títulos atrelados à Selic, além de papéis de inflação com vencimentos em 2031, 2037 e 2060.

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Paulo Barros
Investimentos | Economia | Mercados

Jornalista há mais de 15 anos, editor de Investimentos no InfoMoney. Escreve sobre renda fixa e variável, alocação e o universo dos criptoativos