“Eleições 2026” só é assunto para imprensa, apaixonados e militantes

O debate sobre as eleições já movimenta milhões de visualizações no X, mas ainda está longe de representar uma conversa ampla entre eleitores

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Publicidade

Toda vez que uma hashtag nasce empurrada por uma campanha, ela morre rápido.

O mesmo vale para o QR code que obriga alguém a tirar o celular do bolso: se o gesto não nasce de vontade própria, a audiência sente e ignora.

Foi com essa desconfiança que pedi ao Claritor para monitorar as menções ao termo Eleições 2026 no X e no Instagram.

Continua depois da publicidade

Nos últimos 30 dias, o X já produziu 12,8 milhões de impacto sobre o tema.

Quase quatro em cada dez menções vieram de contas verificadas, um único post concentrou mais de um quarto desse impacto, e uma conta com 77 seguidores apareceu quatro vezes entre as mais impactantes do período.

Os números estão abaixo, um por um. Esta é uma fotografia de 30 dias, não um veredito.

Continua depois da publicidade

O período monitorado, entre 14 de julho e 12 de agosto, antecede o primeiro debate presidencial, marcado para o dia 23 de agosto às 20h pela Band e pela TV Cultura. O que dá para dizer, com o dado que tenho, é quem está liderando o impacto antes desse marco.

Leia também: Quando serão os debates presidenciais de 2026? Veja o calendário completo

Quando a transmissão lidera o impacto

Entre 14 de julho e 12 de agosto, o Claritor registrou 4.606 menções, quase todas em português, somando 12,8 milhões de impacto e 12,5 milhões de views.

Continua depois da publicidade

Um único post do perfil oficial do SBT, publicado em 8 de agosto, concentrou 3,3 milhões desse total, mais de um quarto de tudo que o Brasil viu sobre eleição na rede no mês.

A proporção de perfis verificados reforça o padrão institucional: 1.743 das 4.528 menções em português, 38,5% do total, vieram de contas com selo.

Nesta primeira leitura, quase quatro em cada dez vozes que lideram a conversa já são de imprensa ou de figuras públicas, não de eleitor anônimo.

Continua depois da publicidade

Favoritar não é debater

O mês somou 29.096 retweets contra 238.094 favoritos, quase oito curtidas para cada compartilhamento. Retweet é propagação ativa, o gesto de quem quer que mais gente veja e discuta.

Favorito é concordância silenciosa, o aceno de quem já pensava assim.

Antes do primeiro debate, isso é esperado. O que os dados capturam por enquanto é público confirmando o que já acreditava, dentro da própria bolha, não um confronto de ideias.

Contas de 77 seguidores com alcance de emissora

O dado mais estranho do mês veio de uma conta chamada @scarpa360.

Com 77 seguidores, ela apareceu quatro vezes entre os posts de maior impacto do período: 16.911 em 26 de julho, 58.360 em 2 de agosto, 25.135 em 9 de agosto e 139.021 em 8 de agosto, o segundo maior impacto individual do mês inteiro.

Ela não está sozinha. @LucGS0, com 5.529 seguidores, rendeu 168.709 views em um único post. @ligadonatv_, com 11.636 seguidores, chegou a 107.667 views.

Leia também: Direita reúne 45% do eleitorado, enquanto esquerda soma 29%, diz PoderData/Aya

Contas pequenas demais para o alcance que exibem, e frequentes demais para ser coincidência.

Vale acompanhar esse pequeno grupo nas próximas semanas, para ver se o padrão se repete quando o debate esquentar de verdade.

Quem lidera o impacto já escolheu lado

Fora as emissoras e as contas anômalas, o topo do ranking por impacto é ocupado por vozes que não chegam neutras: Flávio Bolsonaro, o movimento MBL pela conta de Renan Santos, o senador Magno Malta, o deputado Marcelo Freixo, revistas como Oeste e Fórum, e até o perfil verificado da RT do Brasil.

Cada um falando, sobretudo, para a própria torcida.

Isso não prova que o eleitor indeciso está ausente da conversa como um todo. Prova que, entre quem mais performa, ninguém parece estar testando argumento. Está confirmando o que já pensava.

A eleição que ainda não passa pelo Instagram

Um último dado. O Instagram não registrou uma única menção relevante ao tema no período monitorado.

Eleição 2026, por enquanto, é conversa quase exclusiva de X, o palco do argumento, não da imagem.

Leia também: No mercado da atenção, farmar aura rendeu mais do que muita conta verificada

O que ainda não sabemos

Faltam poucas semanas para a urna e o poucos dias para o primeiro debate presidencial. Esta coluna enxergou apenas os posts de maior impacto de um mês que antecede esse marco, não a conversa inteira.

O que dá para afirmar é que, entre quem lidera esse impacto hoje, o elenco é de imprensa, apaixonado e militante. O resto do Brasil ainda não apareceu nos números que consigo ver.

Depois do primeiro debate, vale voltar aqui para checar se isso muda.


Márcio Apolinário é jornalista, especialista em marketing e fundador da Claritor, plataforma de inteligência digital e percepção de marcas. Atua como Head of Marketing Science na Squid, liderando iniciativas de inteligência, dados e mensuração para o mercado de influência. Também é consultor da Análise Editorial e desenvolve estudos e análises sobre comportamento digital, reputação, marcas e comunicação.