Pedidos de recuperação judicial no agronegócio sobem 22% no 1º trimestre, diz Serasa

Quadro de crise financeira, com custos em alta e receitas pressionadas, se mantém este ano
Colheita de soja no Rio Grande do Sul, Brasil 04/04/2025 (Foto: REUTERS/Diego Vara)
Colheita de soja no Rio Grande do Sul, Brasil 04/04/2025 (Foto: REUTERS/Diego Vara)

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A crise financeira do agronegócio seguiu piorando no início deste ano: no primeiro trimestre, houve 474 pedidos de recuperação judicial de produtores rurais e empresas do setor, um salto de 21,9% ante os três primeiros meses de 2025, informou a consultoria de dados Serasa Experian.

O movimento, que disparou de 2024 em diante, reflete um quadro de margens apertadas, que assola os produtores há duas safras. E tende a piorar neste ano, mesmo com a produção recorde.

Isso porque a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã elevaram ainda mais o custo dos insumos, como fertilizantes e combustíveis, que já vinham em alta, ao mesmo tempo em que as cotações de grãos como soja e milho estão pressionadas para baixo.

Mesmo que as fazendas colham mais grãos, o que sobra para o bolso do produtor mal fecha as contas.

Juros elevados atrapalham

Os juros elevados também entram na equação, porque elevam os custos financeiros para os produtores, ressaltou o head de agronegócio da Serasa Experian, Marcelo Pimenta, em nota divulgada pela consultoria.

“O ambiente de crédito mais seletivo, combinado à manutenção de custos elevados de produção e ao maior nível de alavancagem dos produtores, continuou afetando o fluxo de caixa no campo”, diz a nota.

Ainda assim, Pimenta ressaltou que os dados do primeiro trimestre não foram tão ruins quando os de meados do ano passado. No segundo trimestre de 2025, foram 565 pedidos de recuperação judicial. No terceiro trimestre, 628.

No ano passado como um todo, o número de pedidos de recuperação bateu o recorde desde que a Serasa Experian passou a monitorar os processos. Foram 1.990 pedidos, salto de 56% ante 2024.

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“Daqui para o meio e o fim do ano, a evolução do cenário dependerá da capacidade de geração de receita, do comportamento das margens e das condições de renegociação dos compromissos. Por isso, reforçamos que renegociar e manter um planejamento financeiro deve ser prioridade enquanto a recuperação judicial precisa permanecer como o último recurso”, afirma Pimenta, na nota.

Trimestres com mais registros do 2021 e 2022 inteiros

Mesmo com menos registros do que em meados do ano passado, os pedidos do primeiro trimestre deste ano superaram todos os que foram feitos em 2022 e em 2021, de janeiro a dezembro.

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— No fim das contas, o que vemos hoje é resultado de anos de pressão, desde 2022 — disse a advogada Natalia Yazbek, sócia da área de Reestruturação e Insolvência do escritório BMA.

Nestes últimos anos, houve a invasão da Ucrânia pela Rússia — a primeira é importante produtora de fertilizantes —, uma importante quebra de safra por causa de problemas climáticos, aumento dos juros e queda nas cotações de grãos. A guerra no Irã foi o último capítulo do encarecimento de insumos.

O monitoramento da Serasa Experian considera pedidos de recuperação judicial tanto de produtores pessoas físicas quanto de empresas agrícolas.

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Perfil predominante

Em maio, o gerente de soluções agro da consultoria, Dyego Santos, disse ao GLOBO que os casos típicos de pedidos de recuperação judicial envolvem grandes proprietários, que usam o arrendamento de terras como modelo de expansão, têm uma produção muito concentrada na soja e se endividaram demais nas safras anteriores.

Os dados dos pedidos de recuperação do primeiro trimestre sinalizam para a continuidade dessa tendência.

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Tanto que as empresas rurais registraram 196 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre, salto de 73,5% na comparação anual. Já os produtores pessoa física fizeram 182, queda de 6,7% sobre o primeiro trimestre de 2025.

As empresas com atuação relacionada ao agronegócio, como lojas de insumos, registraram 96 pedidos, aumento de 18,5% na comparação com o primeiro trimestre de 2025.

Ainda assim, Natália, do BMA, vê uma queda no valor médio das dívidas incluídas nos pedidos de recuperação. É um sinal de que todo o setor, com produtores de todos os portes, está em apuros.

— Não é mais um fenômeno de grandes grupos, o problema vem descendo para produtores de menor porte — disse a advogada.