Os juros caíram, mas o Brasil continua muito caro

Mesmo com a Selic em 14% ao ano, o Brasil segue entre os países com juros mais altos do mundo

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O Comitê de Política Monetária do Banco Central cortou a Selic para 14% ao ano.

Foi a quarta redução seguida de 0,25 ponto percentual, um movimento que já vinha sendo esperado pelo mercado. Desde o começo do ano, a taxa básica de juros recuou um ponto inteiro, saindo de 15% para os atuais 14%.

À primeira vista, parece o início de um alívio. Mas quando olhamos com atenção, a conclusão é outra.

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Por que os juros estão caindo? Há razões internas e externas. Dentro de casa, a inflação começou a ceder e a atividade econômica perdeu força.

Segundo o IBGE, a produção industrial caiu 1,8% de maio para junho, e o mercado de trabalho, embora ainda aquecido, dá sinais de acomodação. Isso abriu espaço para o Banco Central afrouxar um pouco a política monetária. Lá fora, o cenário é de cautela.

As tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e as tensões geopolíticas no Oriente Médio mantêm o comitê com o pé no freio.

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Leia também: Choque de custos e inflação justificam pausa de juros em 14%, avalia XP

Por isso os cortes vêm em doses pequenas, de 0,25 ponto de cada vez, e não em movimentos mais ousados. Aqui está o ponto que o brasileiro precisa entender. Essas quedas não mudaram a estrutura do nosso cenário de juros.

Continuamos entre os países mais caros do mundo para tomar e emprestar dinheiro. Mesmo depois do corte, o Brasil tem hoje o segundo maior juro real do planeta, 9,33% ao ano, atrás apenas da Rússia.

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O dado é do ranking da MoneYou em parceria com a Lev Intelligence, que considera as 40 maiores economias.

Créditos: MoneyYou

Para comparar, o México, terceiro colocado, tem juro real de 5,09%, quase metade do nosso.

Em juros nominais, seguimos em quarto lugar no mundo. Ou seja, um corte de um ponto ao longo de meses não tira o Brasil do pódio dos juros altos. É um ajuste raso, e não uma mudança profunda.

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A renda fixa brasileira continua uma exceção

Isso tem um lado bom para quem investe. Poucos lugares no mundo pagam ao investidor uma renda fixa tão generosa quanto o Brasil.

Enquanto os juros permanecerem nesse patamar, títulos públicos e privados atrelados à Selic e ao CDI continuam extremamente atrativos, com rentabilidade real elevada e risco baixo.

Leia também: Corte da Selic faz Brasil cair uma posição e leva país ao 2º maior juro real do mundo

Morar no Brasil e ter acesso a essa renda fixa é um privilégio que o investidor de países desenvolvidos não tem. Precisamos valorizar isso.

O problema aparece quando olhamos para o dólar

Mas há o outro lado da moeda, literalmente. Desde a criação do Real, em 1994, nossa moeda perdeu valor de forma expressiva frente ao dólar.

Saímos de uma paridade próxima de um para um e hoje são necessários cerca de R$ 5,10 para comprar um único dólar, conforme cotação desta semana.

Créditos: Banco Central do Brasil

São mais de três décadas de perda acumulada de valor frente ao dólar, que corroeram o poder de compra do brasileiro em produtos, viagens e investimentos internacionais.

Por trás disso está um problema estrutural que os cortes de juros não resolvem: a conta fiscal. Segundo o Banco Central, a dívida bruta do governo geral alcançou 81,9% do PIB em junho, o equivalente a R$ 10,8 trilhões, e segue crescendo.

Só de juros, o setor público pagou R$ 1,11 trilhão em doze meses. Enquanto o Estado gastar mais do que arrecada e a dívida avançar, a pressão sobre o câmbio e sobre os juros no longo prazo permanece.

Diversificar também é proteger o patrimônio

É por isso que olho com carinho para a diversificação internacional dolarizada.

Não se trata de abandonar a renda fixa brasileira, que é excelente, mas de proteger parte do patrimônio numa moeda forte, blindada do risco fiscal doméstico. E, na minha leitura, este é um bom momento para começar a montar essa posição em dólar, por dois motivos.

O primeiro é a cotação. O dólar está hoje em torno de R$ 5,10, um dos níveis mais baixos do ano. Chegou a bater R$ 5,33 em março, segundo dados de mercado. Comprar moeda forte quando ela está relativamente barata é o abecê de quem pensa no longo prazo.

O segundo motivo é o momento da bolsa americana, impulsionada por uma onda de inovação em tecnologia e inteligência artificial que vem sustentando os índices em patamares recordes.

Quem investe dolarizado captura duas fontes de retorno ao mesmo tempo: a valorização dos ativos e a proteção cambial.

O recado que deixo é simples. Comemore a renda fixa brasileira, ela é uma joia rara. Mas não confunda um corte de juros na superfície com uma mudança de estrutura.

O Brasil continua caro, endividado e com uma moeda historicamente fraca. Ter uma parte do seu patrimônio protegida em dólar não é pessimismo. É estratégia.


Daniel Carraretto é consultor de Investimentos CFP® e sócio do Multi Family Office Zanella Wealth, com mais de R$ 2 bilhões sob gestão. Tem mais de 18 anos de experiência e gerencia o patrimônio financeiro de famílias de alta renda. Foi reconhecido pela Anbima com uma das principais vozes sobre investimentos no Brasil, com mais de 1 milhão de seguidores no Instagram (@danielcarraretto)